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Ruanda quer deixar herança do genocídio e ser paraíso tecnológico africano

Economia|Do R7

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Desirée García. Kigali, 8 jun (EFE).- As ruas que há duas décadas só eram frequentadas por quem dispunha de um facão foram tomadas por jovens com smartphones, notebooks, tablets e todo tipo de "gadgets", as novas armas com as quais os ruandeses querem reescrever sua história. A geração que não viveu o genocídio de 1994 - a primavera em que cerca de 800 mil pessoas da etnia tutsi foram assassinadas por hutus - vê na tecnologia uma promessa de "desenvolvimento, progresso e sucesso na vida", explicou à Agência Efe Aphrodice Mutangana, um empreendedor da incubadora de empresas KLab, em Kigali. Escritórios claros, decorados com cores vivas, máquinas de "snacks" e um totó ativam a fantasia dos jovens que visitam o KLab pela primeira vez de entrar no Google africano. Eles chegam sem trabalho, mas com boas ideias. "A letra K é por "knowledge" ("conhecimento", em inglês), embora alguns achem que é por (o presidente de Ruanda, Paul) Kagame", brincou Aphrodice, em entrevista durante uma viagem organizada pela ONG International Women's Media Foundation (IWMF). Não à toa, o governo ruandês é um dos principais promotores deste espaço para desenvolvedores de software, onde é possível trabalhar, usar a internet e receber assessoria gratuita. Joseph Manzy é um de seus casos de sucesso. Ele e seus sócios criaram um aplicativo móvel que ajuda os produtores de leite, uma das principais indústrias do país, a se conectar com o mercado para aumentar suas vendas. O próprio Mutangana arrecadou US$ 1,7 milhão para sobreviventes do genocídio através do "Incike", um aplicativo por SMS, e criou outro de alfabetização sanitária, MHealth, que reúne sintomas de doenças comuns em um país onde há apenas três anos havia menos de 200 especialistas. Suas façanhas somam argumentos ao plano governamental "Vision 2020", que afirmou que as tecnologias de informação e a comunicação (TIC) vão tirar Ruanda da pobreza. O objetivo de transformar Ruanda em uma economia de renda média está sendo buscado a passos gigantescos: o país deixou de ter uma renda per capita de US$ 230 no ano 2000 para uma de US$ 630, e a taxa de pobreza caiu 20%, segundo dados do Banco Mundial. Embora o programa pretenda levar Ruanda a uma renda média de US$ 900 e queira reduzir a pobreza em 30%, o objetivo de esperança de vida já foi cumprido, ao chegar aos 64 anos. Passar de uma economia agrária a outra de informação e conhecimento é a chave desta revolução, feita com investimentos em infraestruturas, expansão de telefonia e internet e a oficialização do inglês, que tornou bilíngue uma população que já falava francês. No país que quer ser o centro tecnológico do leste africano, a maioria trabalha em colinas de plantações de banana, sorgo e chá por salários que não passam de 30 mil francos ruandeses por mês (cerca de US$ 43). Excetuando o chá, o café e as flores, a produtividade do campo é tão pequena que só representa 32% do PIB, apesar de empregar 85% da população. Em sua choupana mobiliada com caixas de grãos sobre um piso de terra batida, Mutumwinka Jackline enumerou as dificuldades que tem para sobreviver com o milho que cultiva na aldeia de Ubwiza, no leste do país, e o leite que uma de suas esquálidas vacas dá. A outra sequer produz. Nos arredores de Kigali, um grupo de viúvas do genocídio relatou seus esforços para que a fazenda de porcos seja rentável. "É muito difícil conseguir algo para comer", disse Mukankubiyo Epiphanie, que aproveita as sobras de sua quitanda para alimentar os animais. Seus filhos e netos esperam um futuro mais brilhante, prevê o governo ruandês. E as TIC, que por enquanto só representam 3% do PIB, se apresentam como o melhor aval. Não em vão, Ruanda é o primeiro país em políticas de promoção das TIC para a transformação social e econômica, segundo um relatório do Fórum Econômico Mundial. "Todos nós, nossa geração, queremos desenvolvimento, progresso, e não queremos ser como antes. Queremos soluções para esta África e esta Ruanda", resumiu Aphrodice. EFE dgp/cd/id (foto) (vídeo)

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