Amplo uso de redes sociais serve de estrutura para protestos na Turquia
Internacional|Do R7
Ilya U. Topper. Istambul, 5 jun (EFE).- As redes sociais são uma das maiores ameaças para a sociedade, segundo o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e a melhor ferramenta para uma participação democrática nela, segundo seus jovens oponentes, que há uma semana estão nas ruas da Turquia. "Tayyip, connecting people" é uma das muitas provocações ao primeiro-ministro que circulam nestes dias pelas redes sociais. Destaca-se o fato de as críticas do primeiro-ministro islamita aos movimentos de protestos emergentes não fizeram nada mais que levantar uma ampla rede popular. Ativistas e meros cidadãos expulsos das praças públicas pelo gás lacrimogêneo se refugiam na internet, um abrigo para o movimento, longe da violência dos policiais... Até ontem. Nesta madrugada, a polícia deteve 24 pessoas em suas casas na cidade de Esmirna sob a acusação de "incitar a revolta" no Twitter. "A acusação se baseará no crime tipificado como 'incitação à violência', mas ninguém poderá ficar preso por mais de 24 horas sem ordem judicial", disse Eylem Yanardagoglu, professora de jornalismo na Universidade de Bahçesehir, em Istambul. A especialista destacou que tanto o presidente da Turquia, Abdullah Gül, como os ministros das Relações Exteriores e de Assuntos Europeus, além do governador de Istambul, utilizam contas no Twitter, em um curiosa contradição com a opinião de Erdogan sobre a rede. "Os altos funcionários governamentais discordam do ponto de vista do primeiro-ministro e acham que ele não é capaz de entender a nova geração", acrescentou. Yanardagoglu destacou que a Turquia é o quarto país com maior número de usuários de redes sociais. "A geração do Facebook, nascida a partir de 1990, é a que lidera o ativismo, e os jovens fazem um uso excelente das redes sociais", observou a professora. Um estudo realizado por sua universidade divulgou na internet um questionário dirigido a participantes dos protestos e recebeu cerca de 3 mil respostas em 20 horas. Segundo os resultados, 40% dos participantes têm entre 19 e 25 anos, e outros 24%, entre 26 e 30. "É um movimento extremamente amplo, e o interessante é que as pessoas que utilizavam as redes sociais somente para enviar fotos de gatinhos e participar de jogos agora estão nas ruas", observou também Merve Alici, designer de publicidade e ativista de direitos civis. "As pessoas refletem sua vida nas redes sociais; até agora giravam em torno dos gatinhos e as fotos de unhas pintadas no Instagram, agora giram em volta do parque Gezi", acrescentou, referindo-se ao centro de Istambul, onde surgiu o protesto há uma semana, para evitar que seja construído um centro comercial neste pequeno oásis. "Não é que de repente os cidadãos tenham se dado conta de que as redes sociais podem ser úteis para algo que não se encaixa na categoria de lazer. O que acontece é que eles mudaram de repente e sentem a responsabilidade de se comunicar e mostrar aos outros o que veem", acrescentou. Ainda segundo Merve, "o colapso da imprensa tradicional teve um papel fundamental neste processo". "Se os canais de televisão e os jornais tivessem refletido a verdade pelo menos parcialmente, com certeza as redes sociais teriam sido muito menos utilizadas", disse. "Mas as pessoas ligavam a televisão e viam apenas pinguins", disse, em referência à transmissão de documentários sobre natureza no canal "CNNTürk" enquanto a "CNN" internacional já informava ao vivo sobre os protestos. "Isso fez crescer a frustração e a raiva, ao mesmo tempo que fez com que as pessoas sentissem que é de sua responsabilidade registrar o que está ocorrendo", concluiu a ativista. EFE iut/jt/id (foto)








