Antigos egípcios sacrificavam servos quando os reis morriam, mostram testes forenses
Ferimentos nos crânios indicam que alguns servos podem ter sido mortos por golpes na cabeça
Internacional|Jack Guy, da CNN Internacional
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O exame forense de restos humanos encontrados ao redor dos complexos funerários de antigos reis egípcios revelou evidências de que eles pertenciam a servos que foram sacrificados quando os monarcas morreram, de acordo com um novo estudo.
Os restos mortais desses servos, ou serviçais, foram escavados pela primeira vez nos complexos funerários de Abidos, no leste do Egito, que datam de cerca de 3.000 a.C., na década de 1920.
Arqueólogos da época suspeitavam que os indivíduos haviam sido sacrificados, mas nenhuma evidência da causa de suas mortes foi encontrada, disse a autora do estudo, Roselyn A. Campbell, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de Purdue, em Indiana, que examinou os crânios daquela escavação original, à CNN Internacional na segunda-feira (5).
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“Ao consultar estudos forenses modernos e avanços em nossa compreensão de como os corpos humanos reagem a lesões e a processos de decomposição ao longo do tempo, consegui identificar evidências claras de ferimentos na cabeça em alguns desses indivíduos que ocorreram por volta da época da morte”, disse ela.
“Esses ferimentos, combinados com o contexto arqueológico, sugerem fortemente que pelo menos alguns dos serviçais foram mortos e depois enterrados ao redor dos túmulos desses governantes”, acrescentou Campbell.
Foi o “enorme número” de túmulos que levou Flinders Petrie, o arqueólogo britânico que escavou originalmente os restos mortais no início do século 20, a suspeitar que os sepultamentos eram resultado de sacrifício humano, de acordo com um comunicado à imprensa.
“Em muitas culturas, o sacrifício de serviçais é praticado devido a crenças de que os indivíduos sacrificados continuarão a servir ao governante em algum tipo de vida após a morte, mas o sacrifício de serviçais também pode ser uma exibição visceral do poder do governante”, disse Campbell no comunicado.
“Alguns serviçais podem ter se voluntariado para morrer a fim de alcançar a vida eterna ou honra, outros podem ter sido escolhidos ou até mesmo forçados.”
Petrie tirou fotografias dos restos mortais e manteve registros. Ele então enterrou a maioria deles novamente, exceto os crânios, 46 dos quais Campbell encontrou na Universidade de Cambridge.
“Os ferimentos nos crânios preservados são geralmente fraturas lineares, que provavelmente causariam perda rápida de consciência, sangramento interno e morte”, disse Campbell no comunicado, acrescentando que as fraturas lineares são geralmente causadas por uma arma plana e larga.
Dos 46 crânios preservados examinados como parte do estudo, trauma potencialmente letal foi encontrado em 18 deles, equivalente a 39%.
Campbell alertou que isso não significa que as centenas de outros sepultamentos nessas áreas também tenham sido vítimas de sacrifício humano.
“Com um conjunto de dados tão pequeno e incompleto, e tantos milênios tendo se passado desde que essas pessoas foram enterradas, simplesmente não podemos ter certeza absoluta se todos esses indivíduos foram sacrificados, ou apenas alguns deles, ou se existe alguma outra explicação que se perdeu ao longo do tempo”, ela disse.
Alguns deles podem ter morrido naturalmente, ou outros podem ter sido mortos por asfixia ou outro método que não é visível, acrescentou ela.
Katherine Slinger, professora de Arqueologia Egípcia na Universidade de Manchester, Inglaterra, que não esteve envolvida no estudo, disse à CNN Internacional que, embora se presumisse há muito tempo que os serviçais reais eram sacrificados quando um rei morria, poucos detalhes eram conhecidos sobre a prática.
“A maneira pela qual esses serviçais foram mortos permanecia obscura anteriormente, com teorias variando de estrangulamento a envenenamento”, disse Slinger.
“Esta é a primeira vez que evidências forenses apoiam essa teoria de sacrifício humano e provam a maneira pela qual pelo menos alguns desses indivíduos foram mortos.”
Entendendo o sacrifício
Campbell agora está preparando o manuscrito de um livro sobre o assunto, programado para publicação em 2027, que examinará mais a fundo “quem eram esses serviçais, o contexto do pensamento e da sociedade egípcia nesta época e, de forma mais ampla, como estudamos e entendemos a violência e o sacrifício no passado”, disse ela.
Karl Harrison, um arqueólogo forense da Universidade de Exeter, Inglaterra, que não esteve envolvido no estudo, disse à CNN Internacional que as descobertas são “genuinamente muito interessantes”.
No entanto, ele alertou contra a superinterpretação das intenções dos antigos egípcios.
“Embora a ciência forense possa ajudar a entender os padrões de lesões, é preciso ter cuidado ao avaliar o que isso significa em termos de intencionalidade”, disse Harrison por e-mail.
“Comportamentos efêmeros de culturas humanas do passado — especialmente aquelas sem registros escritos ou registradas nos escritos de outros povos — oferecem uma complexidade social que desafia nossa capacidade de reconstrução abrangente”, ele acrescentou.
O estudo foi publicado na revista Frontiers na segunda-feira.
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