Chávez, um ícone do socialismo e da controvérsia entre o amor e o ódio
Internacional|Do R7
José Luis Paniagua. Caracas, 5 mar (EFE).- O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi uma das figuras mais transcendentes e controversas do início do século XXI na América Latina, um ícone do socialismo e da controvérsia aclamado por uns como democrata altruísta e criticado por outros como um ditador populista embriagado de si mesmo. Chávez faleceu nesta terça-feira aos 58 anos deixando o legado de um projeto socialista e nacionalista que polarizou a vida na Venezuela e um vazio na liderança da América Latina, sobretudo, nos grupos que reivindicam o antagonismo com os Estados Unidos e o capitalismo. Extrovertido, carismático e longe de qualquer timidez, Chávez fez do exercício do poder um espetáculo televisivo e transformou em antagonista dos Estados Unidos na América do Sul, em dominante absoluto dos assuntos internos de seu país, e foi muito influente nos temas regionais. Há quem sustente que, para os venezuelanos, sua liderança teve mais caráter espiritual e religioso que político e revolucionário. Por seu discurso, fundamentalmente nacionalista, passaram Jesus Cristo, Che Guevara, Mao, Simón Bolívar e Marx em uma estranha comunhão que Chávez conseguiu armar em forma de doutrina. Ele defendeu o socialismo com a cruz na mão, orou em silêncio em uma capela enquanto o país o olhava pela televisão e viajou para uma nova operação em Cuba acenando do carro com uma imagem de Jesus Cristo sob a qual se podia ler: "e te curarei". Amigo dos líderes mais polêmicos, como o iraniano Mahmoud Ahmadinejad ou o falecido ditador líbio Muammar Kadafi, Chávez conjugou o tradicional caudilhismo latino-americano com uma prédica em defesa das lutas sociais que um dia batizou com o pegajoso nome de Socialismo do Século XXI. Chávez conseguiu após 14 anos no poder projetar uma imagem de homem que superou as dificuldades descrevendo cada um de seus revezes como vitórias e tentou fazer de suas conquistas uma continuação das aspirações de Bolívar. Dois momentos marcaram sua vida: a fracassada tentativa de levante de 1992, que o levou à prisão para depois ser perdoado, e o também fracassado golpe de Estado que sofreu em 2002, quando durante 48 horas foi confinado na ilha la Orchila até retornar triunfante a Caracas. O presidente venezuelano rapidamente colocou à altura desses dois eventos a descoberta de um câncer que em 30 de junho do ano passado fez ressurgir o "abismo" que viveu em ambas as oportunidades. Chávez, segundo filho homem dos sete de um casal de professores rurais, nasceu em 28 de julho de 1954 em Sabaneta, uma cidade do estado de Barinas no oeste do país. O único antecedente político em sua família foi seu bisavô Pedro Pérez Delgado, apelidado "Maisanta", um caudilho popular daqueles que eram alçados rapidamente ao grau de general e que brigou contra a ditadura de Juan Vicente Gómez (1908-1935). Chávez disse em repetidas ocasiões que teve uma infância feliz apesar das carências da família, que vivia em uma casa simples, com teto de folha de palmeira seca e chão de terra. Na busca de seu sonho de jogar na liga profissional de beisebol dos Estados Unidos, Chávez se alistou em 1971 na Academia Militar, mas não por vocação, e sim porque seu treinador de beisebol, a quem ele admirava, achava que podia ajudá-lo em sua carreira rumo ao estrelato esportivo. No entanto, se graduou na academia em 1975 como subtenente e com o pomposo título de "Formado em Ciências e Artes Militares, Ramo Engenharia, Menção Terrestre" com o qual voltou a sua terra, onde se casou com Nancy Colmenares, com quem teve três filhos. Chávez se casou outra vez, com a locutora Marisabel Rodríguez, com quem tem uma filha. Sua carreira militar foi uma sucessão de destinos. Ele afirmou que reforçou sua posição como "um rebelde" como consequência da repressão militar do levante popular de 1989, conhecido como "El Caracazo", contra a política econômica liberal do então presidente Carlos Andrés Pérez e que acabou em um massacre. No dia 4 de fevereiro de 1992, sua fracassada tentativa de golpe se tornou o símbolo de sua entrada na vida política venezuelana. Ele deixou a prisão em 26 de março de 1994 graças a um indulto presidencial em troca de sua baixa nas Forças Armadas e se lançou à carreira política. Chávez fundou o Movimento Quinta República (MVR), com o qual ganhou as eleições de 6 de dezembro de 1998 com 57% dos votos. Em abril de 2002, sofreu um golpe de Estado cívico-militar que o afastou do poder durante 48 horas, tempo no qual a pressão popular e os movimentos dentro das Forças Armadas fizeram com que o presidente retornasse ao poder. Foi reeleito em três ocasiões, sendo a última em outubro do ano passado, para o período 2013-2019, mas o câncer o impediu de completar 20 anos no governo. EFE car-jlp/id (foto) (vídeo)











