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Crise na Saúde pode ser o fim para Maduro: "Governos caíram por muito menos do que isso", afirma especialista

Falta de vacinas, remédios e aumento das doenças devem aumentar revolta da oposição

Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

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Professora compara situação à de sistemas totalitários no século 20
Professora compara situação à de sistemas totalitários no século 20

No dia seguinte a cada manifestação na Venezuela, gotas de sangue mancham os bulevares de Caracas. E em algum canto do país, um número maior de pessoas têm morrido por falta de assistência médica. O impasse em relação à permanência de Nicolás Maduro no comando do governo tem se tornado uma tortura. Mas a crise sanitária pode ser o pretexto final para a oposição derrubar o presidente, conforme afirma o coordenador do curso de Proteção Internacional aos Direitos Humanos, da Unimep, Rui Décio Martins.

— Governos já caíram por muito menos do que isso. Certamente a carestia no serviço de saúde geral pode gerar um descontentamento tão grande na população, a ponto desta pressionar de tal maneira, que gere a queda do governo. O problema é que, em um país dividido, mesmo com a maioria estando com a oposição, Maduro tem grande aporte de milícias, civis armados que atuam em paralelo às Forças Armadas e se misturam nas manifestações.


Documento divulgado pela Sociedade Venezuelana de Infectologia informa que o país vive uma crise sanitária sem precedentes. Faltam medicamentos, vacinas em meio ao aumento de casos de doenças como malária, Aids, dengue, febre Chikungunya e microcefalia, decorrente de infecção pelo zika vírus em bebês. De 2014 para 2015, houve um aumento de 52,6% dos casos de malária, chegando a um total de 136 mil. O governo, porém, tem resistido em encontrar um caminho para combater o estado de calamidade, segundo o professor.

— Qualquer manifestação em favor de vacinas, por exemplo, pode ser reprimida por motoqueiros das milícias, que vão lá e arrebentam tudo. São milícias pagas pelo Estado, a mando do governo de Maduro, que ainda conseguem mantê-lo no poder.


Até quando, não se sabe, conforme afirmou a historiadora norte-americana Margarita López Maya, professora titular da Universidad Central da Venezuela, em depoimento ao jornal Efecto Cocuyo. Ela afirma categoricamente que o país está em guerra. As manifestações já deixaram 75 mortos.

— O país está paralisado, em ruínas, a rotina está deteriorada, há escassez. Todas essas são características de uma situação bélica. É algo inédito.


Ela compara a situação aos sistemas totalitários do século 20. Há algo similar na postura de Maduro, por exemplo, à de Josef Stalin nos anos 30, na União Soviética. Guardadas as devidas proporções, o regime chavista, mesmo com investimentos significativos no social, se perdeu ao desapropriar empresas produtivas, inclusive as agrícolas, gerando dificuldades de exportação e produção.

Stalin, quando coletivizou de maneira forçada a economia país, provocou queda brusca na produção dos kulaks (dos fazendeiros expropriados) e gerou uma fome que, para muitos, foi um genocídio: a Holodomoro.


Muitos dos resultados dessa política chavista, seguida por Maduro, têm abalado o mercado interno venezuelano. Segundo a Confederação de Produtores Agropecuários do país, em 2006, 70% dos alimentos eram produzidos na Venezuela. Hoje, apenas 30%, sendo que o restante vem de importações. Faltam vacinas para 80% do setor de veterinária, assim como há carência de 5 mil tratores. Tudo isso afeta a agricultura e, por conseguinte, a qualidade da alimentação. Em relação aos medicamentos, o país afunda no isolamento, segundo o professor Martins.

— A solução é difícil. Com essa falta de dinheiro, quem vai vender medicamento para a Venezuela hoje? O Brasil e outros países da OEA (Organização dos Estados Americanos) já se propuseram a doar medicamentos e o governo Maduro não aceitou, porque seria um atestado de incompetência. O governo teria de comprar com urgência vacinas, mas não tem dinheiro e nem quem venda. E nem aceita doações.

Esforços pela paz

Tamanho impasse, segundo a professora Margarita, torna a crise mais difícil de ser resolvida por meio pacífico.

— Caminha-se por uma corda bamba. Controlar a violência dos grupos de ambos os lados é muito difícil. Há fome, não há normas nem estado de Direito. Estamos no limite. Tem que se seguir no esforço para evitar um derramamento de sangue e uma guerra civil.

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Segundo a agência EFE, uma Pesquisa Nacional de Hospitais, realizada pela Assembleia Naiconal (de oposição) e apresentada em março último aponta que 51% das salas de cirurgia no país não têm equipamentos. E 76% dos hospitais apresentam escassez ou inexistência de medicamentos, segundo pesquisa da Rede de Médicos pela Saúde divulgada em agosto de 2016 pelo OVS (Observatório Venezuelano da Saúde). E quando o assunto é Saúde, conforme já disse Martins, a situação fica ainda mais explosiva.

— O problema é o final disso, é muito possivel Maduro cair por causa da crise na Saúde. A população já está sem comer, mas quando não tem remédio para o filho que está com febre ou falta vacina, é algo sem solução.

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Para Martins, a situação está se aproximando de um impasse. Ou de um fim.

— Comida, acaba se arranjado, mas remédio não tem jeito. A pressão será tanta que possivelmente Maduro irá ceder e aceitar doações. Neste momento, a população vai dizer que ele tem de sair porque admitiu que está sem controle. Então poderá haver um tipo de rompimento do qual não sabemos as consequências.

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