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Crônica de uma debandada militar

Internacional|Do R7

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Enrique Rubio. Passagem de Jazaz (Iraque), 14 jun (EFE).- Às oito horas da noite de segunda-feira, o cabo iraquiano Shaalan Abdelwahab defendia sua posição em uma ponte no oeste de Mossul. De repente, todos seus oficiais pediram licença para "irem a reuniões". Cinco horas mais tarde, a segunda cidade do Iraque tinha caído nas mãos dos jihadistas. Esse é o relato de uma debandada militar sem precedentes que deixou o Iraque em um estado próximo à desintegração, com as Forças Armadas humilhadas e um governo que perdeu o controle e só pode recorrer à mobilização da população. No acampamento para deslocados levantado junto à Passagem de Jazaz - o último posto controlado pelas forças curdas antes da entrada da província de Ninawa - o cabo Abdelwahab relembrou a noite em que seus superiores desapareceram e milhares de soldados fugiram sob a única justificativa de 'salve-se quem puder'. "Pouco depois das oito da noite, um caminhão-bomba explodiu perto da posição onde resistíamos aos milicianos do Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL). De repente, os oficiais se retiraram sem dar ordens, argumentando que tinham reuniões", contou. Logo depois os jihadistas do EIIL avançaram rumo às posições sob o controle do exército e à sede do governo, tomados sem dificuldades. No início da madrugada, o cabo fugiu junto com 400 colegas, porque as divisões que protegiam a cidade tinham perdido o controle e os extremistas tinham tomado as delegacias de polícia. Enquanto o EIIL tomava as armas, a munição e os veículos dos quartéis, os helicópteros militares deixavam a cidade rumo a Bagdá. "Retornamos aos nossos batalhões e ali, sem nenhuma ordem, alguns tiraram os uniformes militares e se vestiram como civis para escapar", lembrou o jovem, de 25 anos. O único superior que tentou manter a cidade foi o general Mahdi al Garraui, chefe da Polícia Federal em Mossul, que pediu aos soldados que não deixassem seus postos. Foi em vão. Continuaram a lutar somente as forças especiais do Exército, que não puderam evitar a queda da cidade. "O que posso fazer se meu comandante fugiu? O que eu faria?", se questionou Abdelwahab várias vezes, buscando respostas impossíveis. Tudo foi "como um filme", mas com consequências muito dolorosas, refletiu o soldado. Após vários dias dormindo em uma mesquita, o cabo conseguiu chegar à passagem controlada pelas tropas curdas (os chamados "peshmergas"), deixando para trás a mulher e dois filhos em Mossul. Mas nem passa pela sua cabeça voltar para casa. Os extremistas já pediram à sua família que se entregue, mas sabe que se o fizer será submetido a um julgamento sumário em um tribunal islâmico por fazer parte do que o EIIL denomina como "o exército do Irã". "Nós que fugimos estamos dispostos a nos suicidarmos antes que de nos entregarmos ao Estado Islâmico", garantiu. Todo o país se pergunta como é possível que, em apenas alguns dias, a segunda maior cidade do país, capital da província de Ninawa, pudesse cair em mãos dos insurgentes sunitas. Abdelwahab sustenta a tese lançada pelo primeiro-ministro, Nouri al- Maliki, que tudo é fruto de um complô. "O que aconteceu em Mossul é uma conspiração. Até o último momento, nossos oficiais estavam dando informações falsas sobre qual era a situação real no terreno", assegurou. Agora, o EIIL tomou Mossul junto com aliados do extinto Baath, o partido único do ex-ditador Saddam Hussein, cuja mão muitos percebem por trás da rebelião que pôs o Iraque à beira do colapso. No entanto, a cidade, como admitiu o jovem, recuperou a tranquilidade e seus moradores não parecem descontentes, já que têm de volta eletricidade e os combates pararam: "Só quem tem filhos no exército está sofrendo agora". Abdewahab não acredita que o governo central possa recuperar a cidade, já que, segundo ele, o primeiro-ministro Maliki não conta com a confiança do povo. EFE er/cd-rsd

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