Da queda de Maduro ao Irã: uso de informações privilegiadas gera debate sobre apostas
Alegações de que plataformas de previsões monetizam eventos de vida ou morte levam a propostas legislativas para limitar a indústria
Internacional|Michael Williams e Marshall Cohen, da CNN Internacional
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Após militares dos Estados Unidos capturarem o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro, a imagem dele algemado e com os olhos vendados enquanto vestia uma calça de moletom da Nike não foi a única coisa que se tornou viral.
Logo, a internet fervilhava por causa de um operador anônimo no Polymarket, o mercado de previsões, que obteve centenas de milhares de dólares com apostas de baixa probabilidade de que Maduro seria derrubado em breve.
Essa atividade suspeita motivou uma investigação federal que esta semana resultou no primeiro exemplo conhecido de autoridades dos EUA acusando alguém de uso de informações privilegiadas em mercados de previsões, a pujante indústria multibilionária que permite aos usuários apostar em quase tudo, desde a guerra até a política e os esportes.
LEIA MAIS:
A detenção do soldado Gannon Ken Van Dyke pode indicar um escrutínio mais severo por parte das forças de ordem sobre a indústria.
Os promotores federais disseram que Van Dyke, um sargento-mestre das forças especiais dos EUA, utilizou seu conhecimento da operação sigilosa para apostar na missão, o que lhe rendeu cerca de US$ 400.000 (cerca de R$ 2 milhões, na cotação atual) em lucros. Ele ainda não apresentou uma defesa no caso.
Essas supostas apostas se encaixam no que agora é um padrão bem estabelecido de operações suspeitas que coincidem com grandes acontecimentos geopolíticos, o que gera preocupação sobre como pessoas em diversas posições podem aproveitar seu conhecimento de informações sensíveis para manipular mercados e lucrar.
Estes são alguns dos exemplos mais destacados de atividade suspeita em sites de previsões que atraíram a atenção recentemente.
A lei federal dos EUA proíbe que os mercados de previsões ofereçam apostas sobre guerras ou assassinatos. No entanto, as apostas relacionadas a Maduro foram realizadas no site offshore do Polymarket, sem estarem sujeitas a estas restrições.
A CNN Internacional informou no mês passado que um operador do Polymarket ganhou quase US$ 1 milhão (cerca de R$ 5 milhões, na cotação atual) desde 2024 ao realizar apostas notavelmente precisas e oportunas relacionadas a quando os EUA e Israel lançariam ataques militares contra o Irã, inclusive antes de a guerra atual começar em fevereiro.
Também houve contas recém-criadas que apostaram alto no cessar-fogo entre os EUA e o Irã pouco antes de Trump anunciá-lo no início deste mês, segundo a AP.
As autoridades israelenses prenderam no início deste ano duas pessoas, incluindo um reservista militar, de quem disseram ter realizado apostas relacionadas ao Irã utilizando informações confidenciais.
A Kalshi, outro grande mercado de previsões, anunciou esta semana que suspendeu três candidatos ao Congresso de sua plataforma aprovada nos EUA por “uso de informações privilegiadas políticas”, ao apostarem em suas próprias disputas.
Mas a empresa disse que não estava encaminhando esses casos ao DOJ (Departamento de Justiça) para uma possível persecução criminal, e especialistas jurídicos disseram à CNN Internacional que provavelmente não é ilegal apostar em sua própria campanha.
No início deste ano, a Kalshi tomou medidas contra um candidato pouco conhecido ao governo da Califórnia que, de maneira semelhante, apostou em sua própria disputa.
A CNN Internacional tem uma parceria com a Kalshi e utiliza seus dados para cobrir grandes acontecimentos. Funcionários editoriais são proibidos de participar de mercados de previsões.
Os problemas com o possível uso de informações privilegiadas também se estendem ao mundo das celebridades.
O WSJ (The Wall Street Journal) informou que um apostador realizou apostas oportunas relacionadas ao anúncio do noivado de Taylor Swift no ano passado.
Em fevereiro, a Kalshi suspendeu e multou um funcionário da estrela do YouTube MrBeast por operar em mercados relacionados ao streamer. A empresa disse que o funcionário obteve cerca de US$ 5.400 (cerca de R$ 27 mil, na cotação atual) de lucro mediante “atividade de negociação indevida” em sua plataforma.
Estes mercados tornaram-se mais frequentes na vida americana durante o último ano, com plataformas que fazem publicidade intensa tanto na televisão quanto na internet e que fecham acordos com várias grandes empresas de mídia que utilizam seus dados para cobrir grandes acontecimentos noticiosos.
Os defensores dos mercados de previsões dizem que eles permitem o livre fluxo de informações e fornecem dados de opinião pública mais precisos do que as pesquisas tradicionais.
Os opositores dizem que os mercados são usados para mercantilizar assuntos de vida ou morte, de guerra e de paz. Também argumentam que a facilidade de acesso agravou uma crescente ameaça de saúde pública de vício em jogos, especialmente entre homens jovens.
Os críticos sustentam que o governo do presidente Donald Trump está sendo excessivamente favorável aos mercados de previsões, e democratas e republicanos no Capitólio propuseram legislação para frear a indústria.
O filho do presidente, Donald Trump Jr., é conselheiro tanto da Kalshi quanto do Polymarket e é investidor no Polymarket. (Trump Jr. disse, por meio de um porta-voz, que não opera em mercados de previsões e que não interage com o governo federal em seu nome).
Ao reagir na quinta-feira (23) à prisão de Van Dyke, o presidente disse que, em geral, não é fã dos mercados de previsões, mas depois descartou as preocupações sobre o uso de informações privilegiadas.
“Todo mundo, infelizmente, tornou-se em certa medida um cassino… Não gosto conceitualmente, mas é o que temos”, disse Trump.
Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp










