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‘Desastre ecológico’: seca e exploração mineral ameaçam o Mar Morto

Indústrias extração de países próximos contribuem significativamente para o declínio do ecossistema

Internacional|Laura Paddison, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O Mar Morto está recuando rapidamente, perdendo cerca de 1,2 metro por ano devido a atividades humanas e mudanças climáticas.
  • O declínio é causado pela redução da água do Rio Jordão e pela extração mineral, além de ser exacerbado pelas mudanças climáticas.
  • Planos para salvar o Mar Morto enfrentam desafios políticos e financeiros, com propostas como bombear água do Mar Vermelho e restaurar o Rio Jordão.
  • As crateras criadas pelo recuo da água ameaçam a infraestrutura local e o turismo, enquanto especialistas alertam para a falta de urgência política em resolver o problema.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Planos para reverter o declínio do Mar Morto enfrentam desafios financeiros e ambientais Laura Paddison/CNN via CNN Newsource

O barco a motor cortou a água azul-turquesa do Mar Morto, passando por formações de um branco deslumbrante moldadas por cristais de sal.

Jake Ben Zaken, o capitão do barco, apontou para uma mancha de água mais escura próxima, indicando uma cratera sob o fundo do mar. Ambos são sinais de um desastre ecológico em andamento, disse ele.


O Mar Morto fica onde as terras israelenses, jordanianas e palestinas se encontram e é um lugar de extremos. É o ponto mais baixo do planeta, cerca de 426 metros abaixo do nível do mar.

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Também é um dos corpos d’água mais salgados do mundo, quase dez vezes mais que o oceano, o que torna a água tão densa que as pessoas podem flutuar sem esforço em sua superfície.


Mas este corpo d’água único está morrendo. A cada ano, ele recua cerca de 1,2 metro, à medida que os impactos das atividades humanas e das mudanças climáticas cobram um preço alto.

Nas últimas cinco décadas, sua área de superfície encolheu cerca de um terço. À medida que a água recua, ela molda uma nova paisagem de crateras e costas incrustadas de sal que é ao mesmo tempo surpreendentemente bela e um lembrete assombroso de que o futuro do Mar Morto está por um fio.


Ben Zaken, que dirige a empresa Salty Landscapes a partir de Mitzpe Shalem, um assentamento na Cisjordânia, leva pessoas ao Mar Morto há mais de 12 anos. Isso lhe deu um lugar na primeira fileira para acompanhar as mudanças alarmantes.

Seus passeios de barco costumavam começar em Mineral Beach, logo ao sul de Mitzpe Shalem, mas ele foi forçado a mudar de local quando as crateras fecharam a praia em 2015.


Sua localização atual está segura por enquanto, mas a paisagem está mudando rápido. “A cada ano ganhamos cerca de sete metros e meio de nova linha de costa”, comentou Ben Zaken.

Existem múltiplos planos para salvar o Mar Morto, mas os anos passam e pouco acontece, pois os custos, a política regional tensa e a falta de urgência política estancam as ações, segundo falas de especialistas à CNN Internacional. A menos que algo seja feito, o mundo corre o risco de perder um ecossistema único, alertaram.

“É um tesouro”, disse Peleg Gottdiener, da EcoPeace Middle East (EcoPaz Oriente Médio), uma organização de ambientalistas israelenses, jordanianos e palestinos. “Não há nada como o Mar Morto.”

Declínio do Mar Morto é causado pelo homem

Essa extensão de água salgada cercada por terra é tecnicamente um lago. A água entra a partir do Rio Jordão, que começa na fronteira Síria-Líbano, flui através do Mar da Galileia no norte de Israel e então continua sua jornada para o sul em direção ao Mar Morto, com a Jordânia de um lado e Israel e a Cisjordânia ocupada do outro.

Ao longo das décadas, o Rio Jordão e seu principal afluente, o Yarmouk, encolheram à medida que foram represados e desviados por Israel, Síria e Jordânia para saciar a sede de pessoas, plantações e gado.

O rio costumava transportar 1,3 bilhão de metros cúbicos de água para o Mar Morto; esse volume caiu para cerca de 100 milhões de metros cúbicos.

A indústria de extração mineral é o outro principal motor do declínio.

No final da década de 1970, o Mar Morto se dividiu em duas bacias, agora separadas por uma faixa de terra seca.

A bacia norte, mais profunda, onde Ben Zaken opera seus passeios de barco, é o remanescente natural do mar. A bacia sul é mantida artificialmente, composta por uma série de piscinas de evaporação industrial.

Empresas dos lados israelense e jordaniano — a Dead Sea Works e a Arab Potash Company — bombeiam água da bacia norte para as piscinas. A água evapora ao sol, deixando para trás uma salmoura rica em minerais, da qual as empresas extraem minerais, incluindo potássio e magnésio para fertilizantes e outros usos industriais.

Mudanças climáticas

Há outra força atuando também: as mudanças climáticas. As secas estão se tornando mais ferozes e prolongadas, e a chuva é mais rara.

Mesmo sem os desvios dos rios e a indústria, há evidências de que os impactos das mudanças climáticas fariam o Mar Morto encolher, embora de forma muito mais lenta, alegou Yael Kiro, geoquímica do Weizmann Institute of Science, que estuda o Mar Morto.

À medida que encolhe, o Mar Morto está mudando. Está se tornando ainda mais salgado. Desde a década de 1980, as concentrações de sal na água tornaram-se altas demais para permanecerem dissolvidas, segundo o professor Nadav Lensky, diretor do Dead Sea Observatory no Geological Survey of Israel.

Isso faz com que o sal forme cristais sólidos, que flutuam como neve até o fundo do mar, criando esculturas naturais de sal.

A maioria dos cristais se acumula como camadas de sal, formando estruturas complexas que podem assumir muitas formas, influenciadas pela temperatura da água e pelas correntes. Algumas parecem chaminés, outras parecem cúpulas ou cogumelos.

A água que recua também está mudando a paisagem de uma forma mais perigosa.

Na entrada de Ein Gedi, um resort de praia do Mar Morto que já foi popular e agora está permanentemente fechado, uma grande placa amarela diz “proibida a entrada de pedestres”. Logo fica claro o porquê. A estrada em direção à costa foi rasgada por imensas crateras circulares.

Aproximar-se da água significa escolher o caminho passando pelas crateras e por cima de palmeiras caídas. Um restaurante, vestiários e um posto de gasolina estão todos abandonados perto da linha da costa.

Um lance de degraus quebrados leva a uma praia que agora está tão distante que é impossível enxergar. O resort tem uma atmosfera misteriosa, quase apocalíptica.

As crateras que fecharam Ein Gedi, e outras praias do Mar Morto, são um resultado direto do recuo da água, disse Kiro.

Os níveis de água que caem rapidamente permitem que a água doce se infiltre no solo, dissolvendo as antigas camadas de sal e criando cavidades subterrâneas. Quando estas se tornam grandes demais, o solo acima eventualmente desaba, fazendo com que crateras se abram de repente e sem aviso.

Existem agora mais de 6.000 crateras ao redor do Mar Morto e elas ameaçam empresas e moradores, bem como o turismo, que, do lado israelense, ocorre agora quase exclusivamente na bacia sul industrial. Poucos turistas provavelmente percebem que estão se banhando em uma lagoa de evaporação artificial.

Há solução?

A necessidade de conter o declínio do Mar Morto é urgente, mas não existe uma solução simples.

Uma ideia é encontrar uma nova fonte de água para reabastecê-lo. Em 2013, a Jordânia, Israel e a Autoridade Palestina assinaram um memorando de entendimento para explorar a ideia de bombear água do Mar Vermelho para o Mar Morto.

O plano envolvia a construção de uma usina de dessalinização na costa jordaniana para produzir água doce e a construção de uma tubulação, com mais de 160 quilômetros de extensão, para trazer a salmoura salgada criada durante a dessalinização para o Mar Morto.

Alguns especialistas ambientais estão preocupados que a adição de água com uma composição química diferente possa causar proliferação de algas ou a formação de cristais brancos de gesso no Mar Morto.

Hazim El-Naser, presidente do Middle East Water Forum e ex-ministro da água da Jordânia, disse que estudos ambientais extensos mostraram que até 600 milhões de metros cúbicos de água do mar poderiam ser adicionados “sem problemas”.

Por enquanto, no entanto, o projeto estagnou devido ao seu preço de bilhões de dólares e à dificuldade crescente de construir uma cooperação regional.

Outra ideia é restaurar o Rio Jordão, reduzindo o desvio e liberando mais água nele — potencialmente usando águas residuais tratadas.

Mas alguns especialistas alertam que a água será simplesmente retirada antes de chegar ao Mar Morto, tamanha é a necessidade nesta região árida. É “impossível tirar (a água) das pessoas a menos que você forneça uma alternativa”, segundo El-Naser.

Outros querem focar na indústria. Abdelrahman Tamimi, diretor geral do Palestinian Hydrology Group, falou que as empresas deveriam parar de bombear água para extrair minerais.

Outros dizem que a solução não é interromper completamente a indústria — que gera empregos e receitas fiscais —, mas sim reduzir o uso de água.

A Dead Sea Works extrai minerais do Mar Morto sob um acordo de concessão desde 1961. Isso chega ao fim em 2030, e a minuta do novo acordo inclui taxas pelo uso da água.

Se as pessoas estão ganhando dinheiro com a água do Mar Morto, “pegue um pouco desse dinheiro e transforme-o de volta em água para garantir que teremos o Mar Morto para sempre”, disse Meirav Abadi, conselheira jurídica da Israel Union for Environmental Defense.

O ICL Group, proprietário da Dead Sea Works, não respondeu ao pedido de comentário da CNN Internacional, mas afirma em seu site que retira um total líquido de 160 milhões de metros cúbicos de água por ano do Mar Morto e que está “inovando para desenvolver estratégias sustentáveis de gestão da água”.

Gottdiener, da EcoPeace, alegou que um grande obstáculo para qualquer solução é que, no final das contas, “não há senso de urgência” em nível político.

Ele e outros especialistas acreditam que provavelmente é impossível restaurar o Mar Morto ao nível em que estava há algumas décadas; o foco, em vez disso, deveria ser a estabilização de seu declínio.

O Ministério da Proteção Ambiental de Israel rejeitou as alegações de falta de urgência.

“O declínio contínuo do Mar Morto é uma questão ambiental séria de importância nacional e regional”, disse um porta-voz, acrescentando que “o Ministério continua a avançar nos esforços de políticas e planejamento para abordar a questão”.

Por enquanto, aqueles que têm casas e negócios ao longo de suas margens devem viver com a incerteza.

Ben Zaken, da Salty Landscapes, sabe que está com o tempo contado. Cada vez que aparece na praia onde começa seus passeios de barco, ele varre a areia com os olhos para ver se surgiu alguma cratera. Isso o tiraria do negócio imediatamente, alegou, e não há seguro que cubra o que agora parece uma inevitabilidade.

A mudança aqui não acontece devagar, falou Zaken, “é um desastre em ritmo acelerado.”

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