‘Estão abalados’: comandante brasileira relata missão de resgate na Venezuela
Major Daniela Santos conta experiências e desafios enfrentados pela equipe de brasileiros enviada ao país
Internacional|Rodrigo Paulino*, do R7
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A Venezuela foi atingida por dois terremotos simultâneos no fim de junho, que deixaram mais de 3.600 mortos, mais de 16 mil feridos e um cenário de devastação por toda a área afetada.
Com a crise humanitária agravada, diversos países enviaram equipes para auxiliar na busca por sobreviventes, além de atuar na reconstrução das cidades atingidas.
Até o momento, o Brasil enviou 72 bombeiros para a missão no país, liderados pela major Daniela Santos Oliveira, do Corpo de Bombeiros de São Paulo, a primeira mulher a comandar uma missão humanitária internacional pelo estado.
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Daniela já participou de operações de resgate na Turquia, após os terremotos de 2023, e atuou no atendimento à população após o rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019, e nas enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024.
Ela apontou que sua bagagem em missões anteriores foi essencial para o progresso da missão na Venezuela: “Todas as coisas positivas que a gente fez em outras missões, a gente replica, e as que não deram certo, a gente corrige”.
“Hoje a gente já está num nível tanto de autossuficiência quanto de treinamento, que foi aprimorado por causa dessas outras experiências que a gente teve”, acrescentou.
Dificuldades
Segundo Daniela, as principais dificuldades da equipe são o cansaço, agravado pelo clima quente do país, e o trabalho pesado que precisa ser realizado, como o rompimento de lajes.
“Por vezes, a gente encontra lajes para romper e precisa de um trabalho bem específico para fazer esse rompimento. E, com esse clima, como faz calor, é preciso uma hidratação melhor, um revezamento melhor”.
Para mitigar o cansaço entre os profissionais, Daniela conta que os bombeiros brasileiros foram divididos em cinco equipes.
As jornadas duram entre seis e oito horas, dependendo da dificuldade, e ocorre um revezamento entre os grupos, sempre mantendo profissionais na base para suporte logístico.
“A base, obviamente, não pode ficar vazia. Tem toda a parte do staff, do comando e da logística, que sempre dá o apoio necessário”, disse a bombeira. “A gente sempre usa uma frase: ‘sem logística, não se vence a guerra’”.
Outro ponto importante é se atentar à fadiga e ao bem-estar dos cães presentes na missão. Segundo Daniela, eles possuem uma atuação específica no resgate e precisam ser utilizados nas horas certas para ter o melhor rendimento possível.
Saúde mental
Em meio a um cenário de destruição, o número de mortos crescendo cada vez mais e as adversidades que surgem ao longo do caminho, Daniela conta que a saúde mental dos bombeiros é de extrema importância para o andamento da missão.
“A gente conversa muito sobre ter essa consciência de que nem sempre conseguiremos o que a gente quer, que é recuperar [um corpo] com vida, mas que a gente sabe que algum conforto a gente leva”, comenta. “Nos cenários em que a gente atuou, mesmo quando a gente recupera o corpo, por exemplo, a família fica super agradecida, o pessoal é aplaudido. Por quê? Porque sabe que é necessário o término daquela fase”.
Durante o resgate, o papel dos bombeiros não é apenas resgatar e oferecer assistência médica às vítimas, mas também oferecer apoio emocional.
Segundo Daniela, quando os bombeiros se deparam com uma situação de vida ou morte, o contato contínuo com a vítima é um dos fatores fundamentais para sua sobrevivência.
“É um processo também de mantê-los ativos, de conversar sobre outras coisas, de falar que a gente está ali por eles e que não vamos desistir, para que ele não desista também”, contou. “Temos que ter esse contato para fazê-la não desistir, porque a gente não vai.”
Esforço internacional
Além do Brasil, outros 30 países enviaram equipes ao país para ajudar na reconstrução e resgate de vítimas. Ao todo, são mais de 65 equipes na Venezuela.
Com tantas equipes de diferentes países, Daniela conta que a padronização de técnicas e comunicação é essencial para que todas elas funcionem de forma a se complementar.
Essa padronização é garantida pelo Insarag (Grupo Consultivo Internacional de Busca e Resgate), uma rede global criada pela ONU (Organização das Nações Unidas) para manter a padronização.
“Fazemos as mesmas marcações, entendemos tecnicamente o que um está fazendo e complementamos o serviço. Às vezes, temos cães e detectores que ajudam outras equipes que chegaram e já necessitam desse equipamento. Isso é tudo coordenado”, comentou. “Existe um padrão a ser seguido”.
Padrões numéricos, materiais de resgate e equipamentos são todos padronizados para serem utilizados por qualquer equipe no mundo, para garantir a autossuficiência dos profissionais. “Se a gente não for autossuficiente, é melhor que ninguém venha, porque acaba dando mais trabalho”, diz a major Daniela.
Medo
Nas ruas, o medo e a angústia da população são evidentes. Daniela conta que o povo está “muito abalado”, e que isso se deve ao fato de que provavelmente “não tem ninguém com idade suficiente para ter presenciado outro terremoto”.
O último grande tremor na Venezuela ocorreu há mais de 100 anos, no dia 29 de outubro de 1900. Ele é considerado o terremoto mais forte já registrado na história do país, com magnitude 7,7.
“Não é um medo que é recorrente deles”, acrescentou.
O governo venezuelano tem monitorado as réplicas dos terremotos e enviado alertas aos celulares da população. Segundo Daniela, foram mais de 700 tremores, sendo a maioria imperceptível devido à profundidade. No entanto, quando a população recebe um aviso, “eles ficam muito apavorados”.
Entre a equipe, Daniela diz que o medo é essencial para precaver situações de risco, como réplicas fortes, um novo terremoto ou acidentes entre os integrantes. “O medo faz a gente se mexer caso aconteça alguma coisa. Se alguém falar: ‘Não tenho medo’, cuidado. É aí que mora o perigo.”
*Sob supervisão de Guilherme Fagundes
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