Piñera: "quebra" de democracia por Allende não justifica violação de direitos
Internacional|Do R7
Santiago do Chile, 9 set (EFE).- O presidente do Chile, Sebastián Piñera, afirmou nesta segunda-feira que o governo liderado por Salvador Allende "quebrou" a democracia no Chile, mas que isso não justifica a "inaceitável violação dos direitos humanos" durante a ditadura militar. "O governo da (coalizão partidária de Allende) Unidade Popular reiteradamente quebrou a legalidade e o estado de direito em nosso país e isso também deve ser lembrado", disse o presidente durante um ato oficial no Palácio de la Moneda às vésperas do 40º aniversário do golpe militar de Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973. Mas "nenhum dos fatos, causas, erros ou responsabilidades que levaram ao fim da nossa democracia justificam as inaceitáveis agressões à vida, integridade e dignidade das pessoas que ocorreram depois", discursou o ex-presidente. "A dolorosa ruptura de nossa democracia foi o desenlace previsível de uma longa e penosa agonia dos valores republicanos e de um grave enfraquecimento de nosso estado de direito", prosseguiu Piñera. O ato, realizado no mesmo lugar que há quatro décadas foi palco da morte de Allende, contou com a presença de autoridades políticas, militares e religiosas. Nenhum político de oposição participou do evento. Eles organizaram uma homenagem às vítimas que teve como única oradora a ex-presidente e novamente candidata ao cargo Michelle Bachelet. Piñera reconheceu que "os dolorosos fatos" que ocorreram há 40 anos "ainda dividem - às vezes profundamente - alguns setores da sociedade chilena". "Infelizmente não podemos ressuscitar os mortos, nem recuperar os desaparecidos e devolvê-los às suas famílias, mas devemos fazer o que estiver ao nosso alcance para aliviar a dor e o sofrimento", em referência às reivindicações das famílias das vítimas. O presidente chileno ainda afirmou "que quem tiver informação relevante têm a obrigação moral de entregá-la". Durante o regime de Pinochet, 3.200 pessoas morreram e outras 1.200 ainda permanecem desaparecidas. Ao relembrar o ambiente político e social no país às vésperas golpe, Piñera sustentou que "a rachadura da democracia e as más políticas públicas causaram um crescente caos político, econômico e social". "Importantes setores da esquerda de nosso país proclamavam publicamente seu desprezo pela democracia existente e consideravam legítimo impor seu projeto de país mediante o uso da força e da violência", afirmou. Piñera - primeiro presidente de direita eleito democraticamente e que votou contra a continuidade de Pinochet no poder - lamentou que "toda uma geração não quis, não soube ou não pôde proteger a democracia, o estado de direito e a convivência" e falou de "responsabilidades compartilhadas". "Alguns querem crer que toda a responsabilidade recai em quem cometeu ou ordenou as violações aos direitos humanos. Esta posição é correta em matéria de responsabilidade penal, mas é parcial e insuficiente em relação a outros tipos de responsabilidades", opinou. Para Piñera, "também são responsáveis aqueles que não respeitaram o estado de direito e promoveram a intolerância, o ódio e a violência". Esta responsabilidade, acrescentou, "também atinge os que exerceram altos cargos no governo militar e que, tendo poder ou influência, sabendo dos fatos, poderiam evitar os abusos e não o fizeram". Entre os presentes no ato estava o deputado de direita Alberto Cardemil, subsecretário do Interior no regime militar. No encerramento da cerimônia, ele declarou estar disposto a assumir as responsabilidades políticas, mas "não a aceitar que se deturpe a história". Piñera também fez críticas a juízes e alguns meios de comunicação por não terem feito tudo o que poderiam para evitar que se violassem os direitos humanos. "Ao Poder Judiciário, por mandato constitucional, correspondia garantir os direitos das pessoas, mas muitas vezes não o fez, como reconheceu recentemente a mais alta autoridade judicial, a Suprema Corte". "Também alguns meios de comunicação se limitaram a entregar a versão oficial e nem sempre checaram e informaram com objetividade e verdade que exigiam os graves ataques aos direitos humanos", disse. Por último, o presidente "reconheceu e agradeceu a atitude valente das pessoas e instituições que levantaram sua voz e fizeram um valioso trabalho em defesa dos direitos humanos" e citou "a Igreja Católica, os familiares e advogados das vítimas, as organizações de direitos humanos, alguns juízes e jornalistas e alguns países amigos". EFE mf/cd/id (foto) (vídeo)











