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Presidente argentino vai aumentar a repressão para conseguir terminar seu mandato, diz especialista

Nenhum presidente não-peronista conseguiu terminar o mandato na Argentina desde a ditadura

Internacional|Do R7*

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Estratégia de Macri para manter sua base de apoio é tentar inserir a Argentina em tratados internacionais de comércio, afirma especialista
Estratégia de Macri para manter sua base de apoio é tentar inserir a Argentina em tratados internacionais de comércio, afirma especialista

Os cortes nos subsídios da água, luz e gás, redução dos programas sociais e investimentos públicos, somados a uma inflação de 46% ao ano, vem gerando uma onda de protestos na Argentina contra o governo de Mauricio Macri, poucos meses antes de o presidente completar um ano de mandato. Com a popularidade em baixa, o político deverá “aumentar a repressão” contra manifestantes e movimentos sociais para se segurar no cargo, de acordo com a professora de Relações Internacionais da UniSantos (Universidade Católica de Santos), Natalia Fingermann.

Desde o final da ditadura militar na Argentina, em 1982, nenhum presidente eleito não-peronista — tendência política popular no país — conseguiu terminar seu mandato. Eleito com 51,34% dos votos em novembro de 2015 pelo partido de oposição Cambiemos, Macri e seus aliados estão em minoria nas duas Câmaras do país, o que desperta receios de que a história possa se repetir e o presidente sofrer algum tipo de impedimento.


Para Natalia, a estratégia de Macri para manter sua base de apoio é tentar inserir a Argentina em tratados internacionais de comércio, como a Aliança do Pacífico (TPP, no original em inglês), além de adotar “uma postura mais frouxa com os militares”. Recentemente, o chefe de estado causou polêmica ao declarar em uma entrevista que não sabia o número exato de mortos e desaparecidos durante o regime.

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— Tem uma revolta popular muito grande na Argentina. Lá, eles tiveram uma Comissão da Verdade pra valer, julgaram e prenderam os torturadores. Esse afrouxamento com os militares vem porque o Macri vê que está sofrendo no Congresso e precisa do apoio deles para se manter no poder — e aí vem o histórico natural: aumenta a repressão.


Na terça-feira (16), a Polícia Federal argentina agrediu manifestantes que reivindicavam um aumento de emergência para as aposentados — que viram seu poder de compra diminuir significativamente com o aumento dos preços.

Doutorando do programa San Tiago Dantas e coordenador do NEAI (Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da UNESP), Daniel Coronato acredita que a possibilidade de um impeachment — ou golpe — “não está no radar” no curto prazo. Segundo o especialista, Macri “sempre soube” que teria dificuldades para governar e teria que tomar algumas medidas sozinho.


— Quando você tem um congresso majoritariamente e ideologicamente contra o governo em um regime presidencialista, a coisa pode se complicar. Mas eu não vejo espaço para uma destituição hoje, muito porque a Cristina [Kirchner], que era uma liderança forte e poderia capitanear uma reação, está extremamente enrolada com a Justiça.

Peronismo

Presente na política argentina há mais de 70 anos, o peronismo é uma corrente iniciada pelo ex-presidente Juan Domingo Perón. De acordo com Coronato, essa corrente carrega “um conjunto de ideias singular e não puramente populista”, identificado como “uma mistura de patriotismo com governo de esquerda”.

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— O Macri não leva essa tradição. Ele fez alguns flertes com peronistas durante a campanha, tentou uma aproximação com as centrais sindicais. Mas ele não é peronista, e nem a agenda dele.

Corrente iniciada pelo ex-presidente Juan Domingo Perón exerce grande influência na política argentina
Corrente iniciada pelo ex-presidente Juan Domingo Perón exerce grande influência na política argentina

Já a professora de Relações Internacionais Natalia Fingermann lembra que, após 12 anos de governos de Néstor e Cristina Kirchner, a corrente mais forte dentro do peronismo atualmente é o kirchnerismo. No entanto, o partido trabalha com diversas ”facções” internas — algumas com inclinação a um maior liberalismo na economia, que apoiavam o ex-presidente peronista Carlos Menem. São essas tendências que “dividem” o partido e apoiam o governo de Mauricio Macri.

Para o advogado trabalhista Luis Padin, de 38 anos, o governo Macri traçou “uma estratégica inteligente” no âmbito legislativo para melhorar a eficiência em determinados setores — baseando-se, principalmente, na distribuição de recursos para as províncias argentinas, que necessitam do auxílio financeiro do poder central para pagar as contas.

— De outro lado, há também um desprendimento dos deputados da Frente Pela Vitória (chapa de Cristina Kirchner) no Congresso, identificados com as políticas de centro-esquerda do kirchnerismo. Perdendo as eleições, eles passam a dar uma certa colaboração ao novo governo.

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Padin, que trabalhou na administração anterior de Cristina Kirchner de 2009 até a vitória de Macri, afirma que, por conta das medidas impopulares do novo governo, muitos eleitores voltaram a se apoiar na imagem da ex-presidente, que deixou de ser constantemente atacada pela mídia, já que não está mais no poder.

— As opiniões sobre Cristina estão muito divididas. O certo é que nos últimos tempos, voltou a crescer a imagem positiva dela, por contraste ao Macri.

Dentro do caldeirão político argentino, aparece também a figura de Sergio Massa. Membro do partido peronista, ele teve papel de destaque nas administrações dos Kirchner — até se distanciar da então presidente Cristina em 2013 e sair candidato à presidência dois anos depois, pela coligação Unidos Por Uma Nova Alternativa.

Após a eleição de Macri, Massa — que teve 21% dos votos válidos nas eleições de 2015, terminando a disputa em terceiro lugar — apareceu como um apoiador do governo. No entanto, ele vem dando declarações que apontam para uma possível mudança de posicionamento, tendo classificado os reajustes repentinos de Macri como “entrar numa sala de operações com uma motosserra”.

* Por Luis Felipe Segura

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