Internacional Qual a ligação entre o Whatsapp e a queda do primeiro-ministro libanês

Qual a ligação entre o Whatsapp e a queda do primeiro-ministro libanês

Proposta de taxar ligações telefônicas por aplicativo foi apenas a gota d'água que deu início a protestos que já duram duas semanas no Líbano

Manifestantes ocupam rodovia em Beirute em mais um dia de protestos no Líbano

Manifestantes ocupam rodovia em Beirute em mais um dia de protestos no Líbano

Nabol Mounzer / EPA - EFE - 29.10.2019

Na terça-feira (29), depois de quase duas semanas de protestos no país, o primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, anunciou em um discurso na televisão que entregaria seu pedido de renúncia ao presidente Michel Aoun.

Os protestos pararam praticamente tudo no país, desde escolas até o comércio, com os manifestantes fazendo barricadas e fechando estradas. Sem nenhum comando formal, o povo do Líbano se uniu na maior revolta popular desde a guerra civil que durou de 1975 a 1990.

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No discurso, Hariri disse que estava em um "beco sem saída" para tentar tirar o país de uma das piores crises econômicas de sua história, mas o estopim para a revolta popular foi quase trivial: a tentativa de cobrar um imposto sobre o uso de aplicativos para se fazer ligações pela internet, como o Whatsapp.

'Revolta do Whatsapp'

Anunciada no último dia 17, a taxa faria parte de um pacote de austeridade, com o objetivo de reforçar as receitas do governo. Pela proposta, na primeira chamada telefônica que um usuário fizesse por dia pelo Whatsapp ou outros aplicativos com transmissão de áudio por VoIP, seria cobrado um imposto de US$ 0,20 (cerca de R$ 0,80).

O problema é que esses aplicativos muitas vezes são a única alternativa dos libaneses para se comunicar, já que as ligações e mensagens de texto comuns estão entre as mais caras do mundo, em comparação com a renda da população.

Logo nos primeiros dias da revolta, o governo voltou atrás na medida, mas os protestos não diminuíram. A taxa sobre o Whatsapp foi a gota d´água em uma péssima situação econômica, na qual os problemas reais são muito mais profundos.

"Não estamos aqui por causa do Whatsapp, estamos aqui por causa de tudo: do combustível, da comida, do pão, de tudo", disse um manifestante, que se identificou apenas como Abdullah, em entrevista para a BBC.

Os libaneses sofrem com graves problemas estruturais. Mesmo quase 30 anos após o fim da guerra, o fornecimento de eletricidade não é contínuo: a luz é cortada por pelo menos 3 horas diariamente em Beirute. No interior, a interrupção pode passar de 12 horas. Com isso, muitos, além de pagar a conta de luz, precisam gastar ainda mais para ter um gerador para os momentos de blecaute.

Protestos sem líderes

O que torna a situação atual tão diferente é que não há uma organização central por trás dos protestos. Apesar disso, vários grupos conseguiram a chegar a um consenso sobre demandas que querem do governo.

Hariri entrega carta de renúncia ao presidente Aoun

Hariri entrega carta de renúncia ao presidente Aoun

Dalati Nohra via EFE - 29.10.2019

Eles pedem a saída de todos os funcionários do primeiro escalão do governo, eleições parlamentares antecipadas e um gabinete de transição formado por pessoas que não tenham filiação com partidos tradicionais para tomar medidas contra a crise econômica e tentar resgatar dinheiro perdido para a corrupção.

Os protestos continuaram mesmo depois que Hariri anunciou medidas como cortar o salário do primeiro escalão do governo pela metade, eliminar alguns ministérios e taxar bancos. Tanto ele como o presidente Michel Aoun, que prometeu combater a corrupção com mais força, foram ignorados.

Como os libaneses não deixaram as ruas, restou a Hariri pedir sua renúncia. Aoun ainda não afirmou se aceitará o pedido e partidos pró-governo articulam para que o primeiro-ministro seja mantido, mas a permanência dele e o futuro do Líbano estão cada vez mais incertos.

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