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Rio engole ilha na Índia

Internacional|Do R7

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A falta de terra é um problema cada vez maior na Índia; o Rio Brahmaputra está destruindo a ilha de Hazarika
A falta de terra é um problema cada vez maior na Índia; o Rio Brahmaputra está destruindo a ilha de Hazarika

Há não muito tempo, Ganesh Hazarika plantava arroz, verduras e ervilhas em uma pequena propriedade próxima ao Rio Brahmaputra, de onde tirava seu sustento e algum dinheiro para poupar. Mas um dia, o rio levou tudo embora. Sem piedade, ele foi erodindo as margens até que todo o sítio caiu na água.

A falta de terra é um problema cada vez maior para os agricultores da Índia, mas a situação de Hazarika é incomum: seu terreno ficava em Majuli, uma das maiores ilhas fluviais do mundo, que abriga um antigo centro religioso com 170 mil pessoas e dezenas de monastérios. O mesmo rio que cercou e sustentou a ilha durante séculos agora a está destruindo metodicamente.


"Não há nada permanente por aqui", afirmou Hazarika recentemente, ao lado de um pequeno templo que os aldeões planejam transferir como precaução contra a erosão. "A paisagem muda todos os anos."

Para muitos cientistas e ambientalistas, o Brahmaputra é um laboratório para o estudo do impacto das mudanças climáticas e boa parte da atenção é dirigida à foz do rio, em Bangladesh, onde a elevação do nível da água deve reorientar radicalmente um dos estuários mais importantes do mundo, desalojando milhões de pessoas nas próximas décadas.


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Contudo, muitos quilômetros rio acima, o Brahmaputra se mostra difícil de prever e controlar. As enchentes sazonais se intensificaram nos últimos anos no estado de Assam, no nordeste da Índia. A erosão é uma preocupação constante, à medida que o curso muda regularmente, carrega areia e outros sedimentos do Himalaia em um processo de construção e destruição: novos bancos de areia aparecem enquanto velhos locais inabitados são afetados.


A mudança climática contribui para essas alterações, afirmam cientistas, embora o Brahmaputra seja naturalmente instável em consequência das atividades sísmicas e do formato trançado do rio. A erosão da ilha de Majuli se tornou o exemplo mais dramático da força implacável do rio, levando as autoridades a construírem taludes e a tomar outras medidas para proteger os monastérios e a população da ilha.

"A situação está piorando com o tempo", afirmou D.C. Goswami, especialista no Brahmaputra e ex-diretor do departamento de ciências ambientais da Universidade de Gauhati. "As medidas que estamos adotando não são suficientes para lidar com o problema. Precisamos de uma abordagem mais integrada e holística."


Ao logo da margem sul da ilha de Majuli, em uma área conhecida como Salmara, o Brahmaputra vai até onde os olhos podem ver. Em seu ponto mais extenso, o rio tem mais de 16 Km de largura. Aqui, a margem da ilha é um penhasco de nove metros de altura em frente ao rio, com bananeiras flutuando na margem depois de terem caído. Muitos aldeões afirmam que planejam se mudar para o interior da ilha por conta da erosão.

"Minha casa caiu na água", afirmou Puna Bhuyan, um velho agricultor de 70 e poucos anos que colhia sementes de mostarda recentemente. Ele afirmou que já se mudou três vezes desde o ano 2000. "Estamos preocupados com nosso sustento. Como podemos alimentar nossas famílias? Essa incerteza sempre esteve por perto."

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Atualmente existem cerca de 36 monastérios, conhecidos como satras, embora a erosão tenha forçado muitos deles a se realocarem para o interior da ilha. Outros 28 monastérios foram completamente removidos da ilha.

"Acreditamos que se adorarmos o Brahmaputra e fizermos todas as orações e oferendas, o rio não irá nos incomodar", afirmou o sacerdote vaishnavista, Ajit Sharma, de pernas cruzadas em um satra.

Nos últimos anos, autoridades do governo indicaram Majuli como candidata ao status de Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, embora a cidade tenha sido rejeitada uma vez em função de diversos problemas. Laya Madduri, a funcionária pública de mais alto escalão da ilha, afirmou que os líderes locais estão tentando criar planos de conservação para os satras que continuam na ilha, além de um plano de conservação mais amplo para toda a ilha.

O volume total de erosão é desconhecido. Dados coletados em 1901 indicam que a ilha tinha mais de 1.200 Km quadrados, mas esse total pode incluir outras ilhas e áreas adjacentes. Um estudo realizado em 2004 concluiu que em 2001 a ilha já havia perdido 422 Km quadrados, dos 751 Km registrados em 1917. E embora a ilha tivesse 49 rios em 1917, o número havia caído para apenas sete em 1972.

"Há outros rios trançados no mundo", afirmou Saikia. "Mas por conta do terremoto, o rio continua a sofrer e a mudar de situação. O rio ainda é muito, muito instável."

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Durante décadas, o governo do estado de Assam foi responsável por proteger a ilha, principalmente por meio da construção de aterros. O governo nacional criou um grupo especial para o Brahmaputra, que fechou vazamentos nos aterros existentes e outras estruturas que se destinam a melhorar o assoreamento ou redirecionar as correntes do rio. D.J. Bargohain, engenheiro-chefe do grupo, afirmou que essas iniciativas aumentaram o tamanho da ilha em 20 Km quadrados em 2004.

"É impossível parar a erosão por completo", afirmou. "Perdemos espaço em alguns lugares, mas ganhamos em outros."

Alguns especialistas encaram essa afirmação com ceticismo, especialmente porque boa parte da novas terras não é habitável. Alguns bancos de areia possuem pasto bastante para o gado e espaço para plantar mostarda, mas geralmente a terra perdida é mais produtiva que a das áreas mais novas. O ambientalista Goswami afirmou que era impossível medir o impacto da mudança climática na ilha, mas notou que os padrões ambientais pareciam estar mudando na região.

"Temos grandes enchentes na época da cheia", afirmou. "Mas temos secas mais intensas agora. Os períodos de seca e de cheia também estão mudando."

Na margem sul da ilha, as pessoas estão se preparando para se mudar novamente e construir cabanas sobre plataformas fornecidas pelo governo local. Binumai Kalita, de 40 anos, vive em uma cabana que fica a menos de 23 metros do penhasco. Sua plantação de abóboras se estende até o penhasco e há alguns dias ela viu uma fileira de bananeiras cair no rio.

"Temos medo", afirmou Kalita. "Vemos a erosão todos os dias. Há dez anos, havia mais dois quilômetros de terra aqui."

Agora, só existe água.

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