Terroristas Houthis utilizam redes sociais para vender armas no Iêmen, diz investigação
Relatório revela que militantes usaram plataformas como X e WhatsApp para traficar armamentos, inclusive de fabricação nos EUA
Internacional|Do R7
Traficantes de armas afiliados aos terroristas Houthis estão utilizando o X, do bilionário Elon Musk, e o WhatsApp, da Meta, para vender abertamente rifles, lançadores de granadas e até equipamentos registrados como propriedade do governo dos Estados Unidos.
Isso é o que revela uma investigação publicada na terça-feira (15) pelo Tech Transparency Project (TTP), um centro de pesquisa norte-americano que analisa a influência das grandes plataformas de tecnologia na política.
Os Houthis, grupo apoiado pelo Irã que controla o norte do Iêmen, incluindo a capital Sanaa, desde 2014, são classificados como organização terrorista pelos Estados Unidos, Canadá e outros países.
Segundo o relatório do TTP, 130 contas no X baseadas no Iêmen foram identificadas oferecendo armas de alta potência, como rifles AK-47, carabinas M4 e lançadores de granadas (RPGs).
Mais da metade dessas contas (72) indicava Sanaa como localização, e muitas expressavam apoio aos Houthis, exibindo o emblema do grupo, que inclui o lema “Deus é grande, morte à América, morte a Israel, maldição aos judeus, vitória ao Islã”.
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A investigação revelou que, entre as armas traficadas, havia armamentos com selo de propriedade do governo dos EUA e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), como a M4, amplamente usada pelo exército norte-americano, e os rifles M6.
Algumas dessas armas, segundo o TTP, podem ter origem no mercado negro internacional, possivelmente alimentado por armamentos deixados pelas forças dos EUA no Afeganistão após a retirada das tropas, em 2021.
Outras podem ter sido desviadas de estoques fornecidos ao governo iemenita antes de 2014, capturados pelos Houthis durante sua insurgência.
O relatório não esclarece os compradores, mas o alto preço das armas – algumas custando até US$ 10.000 (cerca de R$ 57.000) – sugere que o público-alvo pode incluir outros grupos militares.
Além de armas norte-americanas, os negociantes oferecem equipamentos de fabricação russa, como RPGs e AK-47s, possivelmente obtidos por meio de redes de contrabando ligadas ao Irã, como sugere o Departamento do Tesouro dos EUA.
Plataformas digitais como vitrine
As plataformas X e WhatsApp têm servido como vitrines para esses negociantes. No X, 61% das 130 contas identificadas foram criadas após a aquisição da plataforma por Elon Musk, em outubro de 2022, e 59% realizaram atividades de comércio de armas nos últimos seis meses.
Algumas contas, com mais de 2.000 seguidores, declaram abertamente que se dedicam à “compra e venda de armas” e exibem imagens de rifles, incluindo modelos descritos como “orgulho da indústria militar iemenita”.
Outras publicam conteúdos pró-Houthi, como vídeos de ataques a navios no Mar Vermelho. Na última semana, pelo menos dois navios comerciais foram alvos de ataques dos Houthis na região. Houve naufrágios, mortes e sequestros de tripulantes.
No WhatsApp, 67 contas comerciais foram identificadas, muitas utilizando o recurso de “catálogo” para exibir armas, como pistolas Glock e rifles de precisão SVD. Alguns perfis se apresentam como lojas de armas em Sanaa, enquanto outros exibem imagens do líder houthi Mahdi al-Mashat.
Essas contas violam as políticas da Meta, que proíbem a venda de armas, mas a empresa afirmou que suas mensagens, criptografadas de ponta a ponta, dificultam a moderação. Ainda assim, a Meta revisa perfis comerciais e imagens de catálogos, o que levanta dúvidas sobre a eficácia dos sistemas de fiscalização, segundo o TTP.
Falhas na moderação de conteúdo
Tanto o X quanto a Meta possuem políticas que proíbem o comércio de armas e a promoção de organizações terroristas. No entanto, o relatório do TTP aponta que essas regras não estão sendo aplicadas de forma eficaz.
No X, anúncios de empresas que vendem acessórios para a Tesla, empresa de Musk, e de eventos políticos apareceram em postagens de venda de armas, sugerindo que a plataforma pode estar lucrando com esse tipo de conteúdo.
Algumas contas de negociantes até interagiram diretamente com Elon Musk, respondendo a uma postagem dele de 2023 com imagens de rifles à venda.
A Meta baniu duas contas após questionamentos do jornal britânico The Guardian, que também publicou informações sobre o caso.
Segundo o Guardian, as demissões em massa nas equipes de moderação de conteúdo de ambas as empresas — cerca de 80% da equipe de confiança e segurança do X após a compra por Musk e milhares de funcionários da Meta nos últimos dois anos — podem ter contribuído para o aumento do tráfico ilícito e da desinformação nas plataformas.
Katie Paul, diretora do TTP, criticou a inação das empresas. “O X e o WhatsApp têm políticas contra a venda de armas, mas permitem que comerciantes ligados a um grupo terrorista operem abertamente. Eles têm recursos para resolver isso, mas não estão agindo”, disse.
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