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Se o Brasil é o país do futebol, a África é o continente da bola

Ascensão do talento africano nos campos contrasta com problemas sociais e políticos enfrentados pelo continente

The Conversation|Alfredo Suppia

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Cabo Verde surpreendeu ao levar a Argentina de Lionel Messi à prorrogação na Copa do Mundo de 2026.
  • Jogadores de origem africana têm sido fundamentais para o sucesso de seleções europeias e brasileiras.
  • A participação africana na Copa do Mundo tem crescido, com destaque para seleções como Marrocos, Egito e Senegal.
  • O talento africano no futebol destaca a diversidade genética do continente e a importância de sua contribuição global.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Jogadores de origem africana têm sido fundamentais para o sucesso de seleções nas últimas Copas Sodiq Adelakun/Reuters - 05.07.2026

A constatação não é nova — já foi feita de várias formas, por muita gente.

Mas, se há algo que a Copa do Mundo de 2026 ajudou a evidenciar, entre tantas outras coisas boas e más, é que, se o Brasil é o país do futebol, a África é o continente.


Bastou ver, no último dia 3 de julho, uma minúscula Cabo Verde levar a Argentina de Lionel Messi à prorrogação e à beira da eliminação para pressentir o que está em jogo.

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No caso brasileiro, o dado é eloquente: desde a Copa de 1994, jogadores negros são maioria entre os convocados da seleção.


O elenco de 2010 — com 16 dos 23 atletas negros, quase 70% do time — foi o mais africano da história da Canarinho. Sem essa ancestralidade, o próprio futebol brasileiro seria irreconhecível.

O mesmo vale para as potências europeias. Sem seus jogadores de origem africana, algumas favoritas virariam anãs futebolísticas. A França provavelmente não seria bicampeã do mundo.


A Inglaterra talvez tivesse muito menos chances de chegar sempre ao torneio. Seleções como Alemanha, Suíça e Áustria são hoje irreconhecíveis se comparadas ao padrão de cinquenta anos atrás.

Participação direta cresce Copa a Copa

Quem imaginaria que a Suíça, apoiada em talento de origem africana, eliminaria a Argélia por 2 a 0? Os dois gols suíços saíram justamente dos pés de Breel Embolo, nascido em Yaoundé, nos Camarões, e de Dan Ndoye, filho de senegalês.


Copa a Copa, a participação africana direta só tem crescido. Para esta edição, ampliada para 48 seleções, o continente teve direito a um número recorde de representantes na fase eliminatória.

No transcorrer do torneio, Marrocos e Egito confirmam-se como times de elite. Argélia e Gana passaram da fase de grupos.

Senegal fez uma campanha excelente e dominou a Bélgica por 85 minutos no jogo que fizeram pela segunda fase.

Venciam por 2 a 0, levaram o empate em três minutos avassaladores do time europeu e acabaram eliminados nos acréscimos da prorrogação.

Mas a própria Bélgica, note-se, também se ampara em talento de raízes africanas: a estrela Romelu Lukaku é filho de imigrantes do Congo – ex-colônia belga e mesmo país de onde o meio-campo Dodi Lukebakio também tem raízes. E ainda, o atacante Jérémy Doku é de origem ganense.

A Costa do Marfim, outra boa campanha, caiu diante da Noruega, num 2 a 1 decidido por Haaland — mas não sem antes mostrar futebol de sobra.

E há, por fim, o fenômeno de Cabo Verde: um arquipélago de pouco mais de meio milhão de habitantes, o menor país em território a estrear numa Copa, que passou invicto pela fase de grupos, segurando Espanha e Uruguai, e na noite do dia 3 de julho protagonizou contra a Argentina, atual campeã do mundo, o capítulo mais heroico dessa história africana na Copa.

Os Tubarões Azuis do Atlântico levaram o jogo à prorrogação, com direito a gol antológico e definição nos minutos finais.

Diversidade genética

O talento africano brilha ainda na luta pela artilharia da Copa. Entre os principais goleadores do torneio estão Kylian Mbappé, filho de pai camaronês, e Ousmane Dembélé, de ascendência oeste-africana — sem falar em todos os afro-brasileiros que sustentam a seleção pentacampeã.

Recentemente, num episódio de podcast, o astrofísico Neil deGrasse Tyson lembrou que a África, berço da humanidade, é o continente de maior diversidade genética do planeta — algo cientificamente bem estabelecido, já que é onde a espécie humana viveu por mais tempo.

Segundo ele, é ali que se encontram os extremos da variação humana: o mais baixo e o mais alto, o mais lento e o mais veloz, e assim por diante. O Rei do Futebol tinha origem africana. O próximo, muito provavelmente, também terá.

Foram os movimentos migratórios, muitos deles herança de séculos de colonização, que levaram equipes ocidentais aonde estão hoje. O que seriam da França e da Espanha sem suas ex-colônias? Teriam sido campeãs mundiais?

Tudo isso me faz pensar na partilha da África e em sua herança nefasta. O futebol — e outros esportes — só brilham com tamanha intensidade graças ao talento africano.

E tudo leva a crer que, não tivesse a África sido vitimada pela violência ocidental, pelos saques, sequestros e pilhagens, talvez já houvesse uma ou mais seleções africanas campeãs do mundo. Mas de um mundo muito diferente deste.

Esta Copa parece lembrar que, enquanto a África seguir vítima da fome, das epidemias, das guerras e das usurpações, dificilmente evoluiremos como espécie. Talvez só quando a África retomar seus rumos soberanos a humanidade será capaz de exercer seu pleno potencial.

Se o futebol torna esse fenômeno visível, é por conta de seu apelo popular. Mas não é difícil supor que o mesmo talento que ilumina os gramados é o que alimenta laboratórios, conservatórios, escolas e categorias inteiras de trabalhadores e artistas mundo afora.

O paradoxo é cruel: a exuberância africana nos campos é contemporânea da ascensão da extrema-direita no Ocidente e alhures — e, com ela, do recrudescimento do racismo, da xenofobia e do ódio aos trabalhadores de pele escura em boa parte do planeta.

Que esta Copa sirva também para abrir os olhos do mundo para o talento da África. O berço da humanidade é, agora também, o continente do futebol.

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Alfredo Suppia não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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