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Guerra entre EUA e Irã aumenta o risco de desabastecimento global de medicamentos

Volatilidade do preço do petróleo e o bloqueio de rotas comerciais aumentaram os custos logísticos e operacionais

The Conversation|Carlos Roberto Oliveira

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O conflito entre Estados Unidos e Irã ameaça o abastecimento global de medicamentos, com impacto econômico estimado em US$ 700 bilhões.
  • A volatilidade do preço do petróleo afeta as cadeias de abastecimento e aumenta os custos operacionais no setor farmacêutico.
  • O fechamento de rotas marítimas e aéreas e o aumento dos prêmios de seguro reduzem as margens de lucro e comprometem o transporte de medicamentos.
  • A dependência de insumos importados, especialmente da China e Índia, torna países como o Brasil vulneráveis a crises de abastecimento.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O Brasil precisa avançar em autossuficiência na produção de insumos Pexels/Pixabay

O conflito entre Estados Unidos e Irã reacendeu o risco de uma crise global de abastecimento de medicamentos, algo que parecia ter ficado restrito à pandemia de covid-19.

Segundo cálculos do Institute for Economics and Peace, os impactos econômicos dessa guerra já alcançam cerca de US$ 700 bilhões (cerca de R$ 6 bilhões, na cotação atual).


A volatilidade do preço do petróleo está no centro dos prejuízos, gerando perdas de receitas de exportação, perturbações nas cadeias de abastecimento (supply chains) e aumento dos custos operacionais.

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Especificamente, a redefinição de rotas marítimas e aéreas, o aumento dos prêmios de seguro e os preços mais elevados da energia contribuíram para a redução das margens de lucro do setor farmacêutico.


Cerca de 35% dos produtos farmacêuticos de maior valor agregado são transportados por via aérea, assim como parcela relevante dos medicamentos e vacinas essenciais.

O bloqueio dessas vias, para fármacos e insumos terapêuticos com prazo de validade curto, é dramático.


Em contraposição, para a navegação marítima, o fechamento do estreito de Ormuz e os ataques dos Houthis a navios que seguiam em direção ao Canal de Suez obrigaram empresas e armadores a buscar rotas alternativas.

Uma das principais estratégias foi redirecionar as embarcações e contornar a África, praticamente dobrando o tempo da viagem padrão, comprometendo as cadeias de abastecimento e ampliando significativamente os custos logísticos.


A farmácia da Índia e os insumos da China

A relevância desses impactos vai além dos custos imediatos de transporte e energia. A China, cujo mercado farmacêutico deverá atingir cerca de US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1 bilhão, na cotação atual) em 2026, é hoje a maior produtora global de IFAs, responsável por aproximadamente 44% da produção mundial e exportando mais de US$ 42 bilhões (cerca de R$ 218 bilhões, na cotação atual) anuais.

Ao mesmo tempo, o país tornou-se líder global em inovação farmacêutica e biotecnológica, concentrando cerca de 70% das famílias de patentes farmacêuticas registradas globalmente e ultrapassando os Estados Unidos no volume de patentes farmacêuticas e biotecnológicas.

Já a Índia consolidou-se como a farmácia do mundo. Com um mercado de medicamentos estimado em US$ 65 bilhões (cerca de R$ 338 bilhões, na cotação atual), exportações para mais de 200 países e participação de cerca de 20% no mercado global de medicamentos genéricos, ocupa posição central no abastecimento mundial.

As projeções indicam que esse mercado deverá ultrapassar US$ 130 bilhões (cerca de R$ 677 bilhões, na cotação atual) nos próximos anos e alcançar US$ 450 bilhões (cerca de R$ 2 trilhões, na cotação atual) até 2047.

Entretanto, parcela relevante dessa capacidade produtiva depende da importação de aproximadamente US$ 3,2 bilhões (cerca de R$ 16 bilhões, na cotação atual) anuais em IFAs chineses.

Ou seja, a continuação desse conflito pode levar a uma nova crise de abastecimento de medicamentos, provocada pela alta dos custos de energia, pelas dificuldades de transporte e pelas perturbações das cadeias de abastecimento.

O risco e a oportunidade

Com tudo isso, o preço do petróleo mantém-se elevado e instável, e as cadeias de abastecimento seguem pressionadas.

A estabilidade da região foi abalada, assim como a credibilidade de diversos governos. O financiamento tornou-se mais caro e os mercados de seguros dispararam.

O conflito não apenas ampliou problemas estruturais já existentes, mas gerou novos, como a redefinição de rotas de navegação, o aumento dos custos logísticos e o risco de interrupções no fornecimento de insumos estratégicos.

Mesmo após os acordos de paz firmados recentemente, o clima político no Oriente Médio continuará instável e a situação no estreito de Ormuz dificilmente retornará às condições anteriores ao conflito.

A companhia Lloyd’s de Londres, com seus mais de 300 anos no ramo de seguros, deixa isso claro no elevado valor dos prêmios cobrados atualmente para cobrir danos a superpetroleiros, cargas e tripulações que atravessam a região.

Os principais centros de produção de petróleo e instalações energéticas foram gravemente danificados, sendo incerto o tempo necessário para sua plena recuperação.

A questão do acesso a medicamentos oscila agora entre o drama do desabastecimento em países mais pobres e a alta dos preços em mercados mais ricos.

O grau de dependência de insumos importados determina diretamente a sensibilidade aos aumentos dos custos de energia, transporte e produção, com reflexos sobre o abastecimento e a disponibilidade de medicamentos estratégicos.

Frente a esse contexto, o Brasil — que importa cerca de 90% dos seus IFAs da China e da Índia — não tem como se desvencilhar de tais problemas.

Brasil precisa investir em autossuficiência de insumos

No cenário criado pelos conflitos no Oriente Médio, torna-se ainda mais vital a autossuficiência na produção de insumos, sobretudo para medicamentos críticos utilizados em programas estratégicos de saúde.

Portanto, há necessidade de mudanças estruturais em áreas que o Brasil pouco avançou, especialmente na diversificação das fontes de IFAs e na atualização da política de inovação e patenteamento de fármacos.

Alguns dos fatores que explicam a lentidão da marcha brasileira nessa direção podem ser buscados nos cortes e bloqueios de verba do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) e na inexistência de instrumentos fundamentais para acelerar o patenteamento de novos fármacos, nos moldes do Orange Book.

No sentido do avanço, entre outras medidas, seria necessário estabelecer um sistema de vinculação de patentes – como o que existe desde 1984 nos Estados Unidos, seguido posteriormente por países como Canadá, Singapura, Coreia do Sul, Austrália e China – visando à implementação de acordos comerciais bilaterais.

Este objetivo ressalta o entendimento de que tais instrumentos e medidas devem ser tratados como elementos de política econômica.

O conflito envolvendo o Irã acelerou a corrida científico-tecnológica.

Cumpre ao Brasil acompanhar o passo. Como dizia a Rainha Vermelha para Alice, no livro Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll, em 1871: “Agora, aqui, veja bem, são necessárias todas as corridas que puder executar para permanecer no mesmo lugar. Se você quiser chegar a outro lugar, deve correr pelo menos duas vezes mais rápido do que isso.”

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Carlos Roberto Oliveira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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