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Influenciadora com 600 mil seguidores é acusada de atuar ilegalmente como advogada em MG

Vítima diz que processo ‘nem existia’ após contratar influenciadora que se apresentava como advogada

Minas Gerais|Cler Santos, do R7 e Antônio Paulo, da RECORD Minas

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Influenciadora digital de Uberaba, sem formação em Direito, é acusada de atuar ilegalmente como advogada.
  • Vítima de violência doméstica descobre que processo judicial prometido pela influenciadora não existia.
  • OAB-MG ajuizou ação civil pública contra a influenciadora por exercício ilegal da advocacia.
  • Existem relatos de outras vítimas em diferentes estados, com prejuízos financeiros significativos.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Apesar de se apresentar como advogada, a OAB-MG confirmou que ela não possui formação em Direito
Apesar de se apresentar como advogada, a OAB-MG confirmou que ela não possui formação em Direito RECORD Minas/ Reprodução

Uma mulher que buscou assistência jurídica depois de enfrentar um caso de violência doméstica afirma ter descoberto, três meses depois, que o processo dela nem sequer existia. O serviço teria sido assumido por uma influenciadora digital de Uberaba, no Triângulo Mineiro, que reúne mais de 600 mil seguidores nas redes sociais e, segundo a Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais (OAB-MG), não possui formação em Direito.

A vítima, que prefere não ser identificada, contou que conheceu a influenciadora pela internet e acompanhava as publicações por acreditar que ela fosse advogada especializada em Direito de Família.


“Eu acompanhava o conteúdo dela como supostamente uma advogada de família. Em certo momento da minha vida, numa situação de vulnerabilidade, em que eu e meu filho passamos por uma situação de violência doméstica, eu a contatei por conta de toda a credibilidade que ela passava nas redes sociais”, relatou.

A mulher, que também estudou Direito, afirmou que não solicitou o registro profissional da influenciadora antes de entregar informações sobre o caso. Durante o suposto atendimento, ela enviou documentos pessoais, laudos médicos, gravações e relatos íntimos sobre a violência sofrida.


“Repassava para ela documentos muito pessoais, laudos médicos, filmagens do que aconteceu e relatos pessoais e íntimos, não só desse momento, mas de momentos anteriores, porque a violência doméstica é um fato cíclico. Confiei que ela levaria isso à frente e que atuaria no meu processo”, contou.

Pedido para expor o filho nas redes sociais

Segundo a vítima, o primeiro sinal de desconfiança surgiu quando a influenciadora pediu que ela abrisse o perfil mantido no Instagram e expusesse a imagem do filho, que é uma criança.


“Eu fiquei muito chocada com o fato de ela solicitar que eu abrisse a minha página e expusesse meu filho, a imagem dele. Foi o primeiro momento em que me assustei com essa atitude. Não achei nada profissional, porque meu filho é uma criança e aquele foi um momento muito sensível das nossas vidas”, afirmou.

A mulher acredita que a exposição do caso e da criança poderia ser utilizada para promover a imagem da influenciadora como advogada envolvida na ocorrência. Como não concordou com o pedido, afirma ter começado a receber um atendimento marcado pelo descaso.


“Aparentemente, ela queria que eu abrisse meu Instagram e expusesse meu filho, como se ela fosse a advogada envolvida no caso. Pelo visto, isso seria muito bom para ela se promover. Como eu não fiz, ela começou a me atender com descaso”, declarou.

Embora não tenha feito pagamentos, a vítima afirma que a influenciadora chegou a mencionar valores pelos serviços. Mesmo sem receber o dinheiro, a influenciadora teria garantido que já estava cuidando do processo.

“Ela continuou falando que já estava mexendo com o processo, com meus documentos pessoais e com todos os meus dados. Eu passei tudo para ela, confiei plenamente e hoje tenho um medo absurdo do que ela pode fazer diante de tudo o que temos descoberto”, disse.

Durante aproximadamente três meses, a mulher tentou obter informações sobre o suposto processo. De acordo com ela, as cobranças eram respondidas de maneira vaga ou ignoradas.

“Eu tinha respostas vagas, curtas e, às vezes, grosseiras. Nada que me ofendesse, mas também nada profissional. Comecei a ficar com o pé atrás e descobri agora que ela não é advogada. Então, meu processo estava largado; na verdade, nem existia”, relatou.

O atendimento, segundo a vítima, era feito exclusivamente pelo WhatsApp. Ela afirma que nunca conseguiu conversar com a influenciadora por ligação, apesar das várias tentativas.

“Todas as vezes que eu perguntava sobre o meu processo, ou não tinha resposta ou eram só visualizações no WhatsApp. Nunca tive uma conversa com ela e nunca consegui falar por telefone, mesmo tendo ligado. Em um caso como esse, a gente precisa conversar com o profissional que está contratando”, explicou.

Após descobrir que não havia ação judicial, a mulher percebeu que continuava sem qualquer assistência jurídica.

“Eu estava totalmente à mercê, no mesmo ponto em que estava no dia em que sofri a violência e sem amparo legal algum”, lamentou.

Vítima aponta exploração da vulnerabilidade

A vítima acredita que a imagem construída pela influenciadora nas redes sociais, como advogada e mãe presente, ajudava a estabelecer uma relação de confiança com mulheres que enfrentavam violência doméstica, divórcios e disputas patrimoniais.

“Mulheres em situação de vulnerabilidade por violência doméstica estão psicológica e emocionalmente mais suscetíveis às pessoas que oferecem ajuda. Quando vemos o Instagram dela, pensamos: ‘Essa pessoa pode me ajudar’”, afirmou.

Na avaliação da mulher, a influenciadora se aproveitava da fragilidade das possíveis clientes para obter promoção pessoal e dinheiro.

“Ela se aproveitou dessas mulheres que estavam sofrendo, seja com violência doméstica, seja por um divórcio ou por questões patrimoniais, para se promover e ganhar dinheiro de forma ilícita, destruindo ainda mais o nosso psicológico”, declarou.

A vítima também afirmou que a influenciadora se apresentava como advogada, ministrava cursos e consultorias e formava grupos com profissionais que possuíam registro na OAB para atuar formalmente nos processos assumidos por ela.

“Ela cria grupos com outros advogados, por não ter OAB, para fazer frente aos processos que assume. Muitas vezes, esses processos são deixados de lado”, denunciou.

Para a mulher, a imagem de mãe divulgada nas redes sociais também aproximava a influenciadora de outras vítimas.

“Uma mãe em situação de violência doméstica vê uma advogada, uma mãe presente, e isso cria um vínculo. Quando a gente procura, não encontra a pessoa acolhedora que aparece no Instagram. Encontra alguém que trata um momento tão doloroso de forma banal”, afirmou.

Prejuízo pode superar R$ 100 mil

A influenciadora é monitorada pela OAB-MG desde 2023. A entidade ajuizou uma ação civil pública na Justiça Federal de Uberaba, acusando-a de suposto exercício ilegal da advocacia. Também foi solicitada à Justiça a retirada dos perfis utilizados por ela nas redes sociais.

A advogada Raquel Fernandes, que representa parte das vítimas, informou que existem relatos de mulheres supostamente enganadas em diferentes estados brasileiros. Segundo ela, o prejuízo financeiro relacionado aos casos pode ultrapassar R$ 100 mil.

Procurada pela reportagem, a influenciadora preferiu não comentar a ação apresentada pela OAB-MG. O caso será analisado pela Justiça Federal.

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