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Inspirada em Paris, BH vive choque entre plano urbano do século 19 e caos do trânsito atual

Centro concentra fluxo intenso de veículos e registra aumento de acidentes; na última semana, três pessoas foram atropeladas

Minas Gerais|Maria Luiza Reis, do R7

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Três atropelamentos graves em menos de uma semana em Belo Horizonte indicam problemas estruturais na segurança viária.
  • O aumento do fluxo de veículos e pedestres sobrecarrega a infraestrutura urbana da cidade.
  • Especialistas apontam que a lógica de trânsito prioriza a fluidez dos veículos em detrimento da segurança dos pedestres.
  • A falta de medidas eficazes para melhorar a segurança viária contribui para o crescente número de acidentes e atropelamentos.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Traçado original priorizava grandes avenidas, quarteirões geométricos e uma divisão organizada entre áreas Foto/Arquivo Público Mineiro

O terceiro atropelamento grave envolvendo ônibus em menos de uma semana no Centro de Belo Horizonte reacendeu o debate sobre a segurança viária na capital mineira. Para especialistas em mobilidade urbana, a sequência de casos não é coincidência: ela revela um problema estrutural no desenho da cidade, marcado pela disputa constante entre veículos, pedestres e transporte coletivo.

Na manhã desta quinta-feira (14), Bruno de Freitas Gomes de Souza, de 32 anos, morreu após ser atropelado por um ônibus na Avenida Afonso Pena, em frente ao edifício Acaiaca. Segundo testemunhas, ele atravessava a pista para procurar o celular que havia caído do carro quando foi atingido pelo coletivo.


O caso ocorreu apenas um dia após outro atropelamento grave na região central. Na quarta-feira (13), um homem de 55 anos ficou preso debaixo de um ônibus após ser atingido no cruzamento das ruas Caetés e Espírito Santo. Na última sexta-feira (8), uma idosa de 80 anos morreu atropelada por um coletivo na Avenida Amazonas.

Uma capital planejada para o século XIX e pressionada pela realidade atual

Inaugurada em 1897, Belo Horizonte foi a primeira capital planejada do Brasil. Projetada pelo engenheiro Aarão Reis para substituir Ouro Preto como sede administrativa de Minas Gerais, a cidade nasceu com um desenho urbano moderno para a época, inspirado em modelos europeus do fim do século XIX, em especial, da Paris haussmanniana


O traçado original priorizava grandes avenidas, quarteirões geométricos e uma divisão organizada entre áreas residenciais, comerciais e administrativas. A proposta buscava criar uma cidade racional, higienista e preparada para o crescimento urbano daquele período.

Mais de um século depois, porém, especialistas apontam que o Centro da capital opera sob uma lógica completamente diferente da imaginada no projeto original. O espaço urbano, planejado para uma população muito menor e para um trânsito essencialmente formado por bondes, carroças e poucos automóveis, hoje precisa absorver diariamente milhares de carros, ônibus, motocicletas, bicicletas, aplicativos de transporte e um intenso fluxo de pedestres.


“A nossa cidade foi planejada para uma quantidade muito menor de veículos. Apesar das adaptações feitas ao longo do tempo, como ampliação de faixas e corredores exclusivos para ônibus, ainda existe um impacto muito grande da circulação atual”, afirma a Professora de Engenharia Civil Liliane Cruz.

Segundo ela, o problema vai além do aumento da frota. O crescimento do fluxo de pedestres, motocicletas, ônibus e até novos modais, como patinetes elétricos, criou uma pressão constante sobre um espaço urbano limitado.


“Não foi realmente planejado para esse volume de veículos, de pedestres, de ônibus e motocicletas”, explica.

Centro concentra acidentes e atropelamentos

Os números do trânsito reforçam a preocupação. Dados de sinistros viários mostram que Belo Horizonte registrou 3.141 acidentes apenas nos primeiros meses de 2026, sendo 28 fatais. Entre as ocorrências, houve 280 atropelamentos sem morte e sete atropelamentos fatais.

As motocicletas lideram os registros de envolvimento em acidentes, com 2.394 ocorrências, seguidas pelos automóveis, com 2.266. Os ônibus aparecem em 190 registros.

Em 2025, a capital contabilizou 13.892 sinistros, dos quais 148 terminaram em morte. Foram 1.229 atropelamentos no total, incluindo 40 fatais.

Segundo a especialista, o Centro da capital se transformou em um ambiente de “competição” pelo espaço urbano.

“Hoje a gente vive uma situação quase caótica no Centro de Belo Horizonte, onde ônibus, carros, motocicletas, pedestres e até patinetes acabam disputando espaço o tempo inteiro”, afirma.

Travessias rápidas e prioridade aos veículos

Um dos principais problemas apontados pela engenheira está na lógica da circulação viária da região central, que prioriza a fluidez dos veículos em detrimento da travessia segura dos pedestres.

“Os tempos semafóricos para pedestres muitas vezes são reduzidos porque existe uma priorização do fluxo de veículos”, explica.

Na prática, isso faz com que muitas pessoas tentem atravessar rapidamente ou fora da faixa, principalmente em cruzamentos movimentados. A Professora destaca que idosos e pessoas com mobilidade reduzida acabam sendo os mais prejudicados.

“Muitas vezes a travessia vira uma corrida. A pessoa sente que não consegue atravessar no tempo adequado”, afirma.

Pressa e imprudência agravam cenário

Além da estrutura urbana, o comportamento de motoristas e pedestres também contribui para o aumento do risco de acidentes. Segundo a engenheira, a dinâmica acelerada do Centro influencia decisões perigosas no trânsito.

“As pessoas vivem uma urgência cotidiana muito grande. Às vezes preferem fazer uma travessia arriscada para ganhar tempo, mesmo existindo sinalização”, analisa.

Ela também cita práticas recorrentes como avanço de sinal vermelho, desembarque fora dos pontos de ônibus e motocicletas que arrancam antes da abertura completa do semáforo.

O desafio de mudar a cidade

Para reduzir o número de acidentes, a especialista defende medidas como ampliação de calçadas, travessias elevadas, melhoria da iluminação e redução de velocidade nas vias centrais. Ela reconhece, porém, que as mudanças esbarram em desafios técnicos e políticos.

“Quando se aumenta o tempo de travessia para pedestres ou se amplia a calçada, inevitavelmente há impacto na fluidez do trânsito. Existe uma disputa permanente entre mobilidade e segurança”, explica.

Enquanto o equilíbrio não é alcançado, Belo Horizonte continua acumulando acidentes e atropelamentos em meio à intensa circulação diária de veículos e pedestres.

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