Minas registra média de 35 desaparecimentos por dia; famílias enfrentam angústia nas buscas
Estado tem mais de 24 mil alertas ativos de desaparecimento; caminhoneiro e artista estão entre pessoas procuradas por familiares
Minas Gerais|Cler Santos, do R7
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Em média, 35 pessoas desaparecem por dia em Minas Gerais. O estado soma 24.075 alertas ativos de desaparecimento, sendo 2.836 registrados somente em 2026. Por trás dos números estão famílias que enfrentam dias ou até semanas de angústia, sem saber onde estão parentes que saíram de casa e não voltaram. Os dados são do Sistema Integrado de Segurança Pública de Minas Gerais, fornecido pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG).
Entre os desaparecidos, os homens são maioria: representam 69,10% dos registros, enquanto as mulheres correspondem a 30,90%.
Os dados mostram ainda que a maior concentração de registros está entre pessoas de 31 a 40 anos, com 5.078 casos. Na sequência aparecem as faixas de 41 a 50 anos, com 3.905 registros; de 12 a 17, com 3.847; e de 18 a 24 anos, com 3.012.
Belo Horizonte aparece com 16.834 registros na divisão por regiões de segurança pública, seguida por Contagem, com 13.133; Uberlândia, com 6.033; Vespasiano, com 5.580; e Ipatinga, com 5.175.
Caminhoneiro desapareceu após viagem para Minas
Uma das famílias que vivem essa espera é a do caminhoneiro Elias José de Mello, de 55 anos. Ele desapareceu depois de sair do interior de São Paulo para trabalhar em Minas Gerais.
No dia 20 de agosto, Elias deixou Jarinu, no interior paulista, dirigindo um caminhão carregado com móveis para um evento em Belo Horizonte. Depois de descarregar o veículo na capital mineira, seguiu para um estacionamento em Betim, na Região Metropolitana.
Ele permaneceria no local até a viagem de volta para São Paulo, onde estava morando com a sobrinha Mirela, em Caraguatatuba.
Durante o trajeto de aproximadamente 550 quilômetros, Elias manteve contato com a família. A relação com Mirela, segundo ela, sempre foi próxima, como a de pai e filha.
“Eu não tenho mais meu pai vivo. Então, a figura paterna ficou para ele. Meus filhos também estão preocupados com ele”, conta.
No dia do desaparecimento, um vídeo registrou Elias em uma lavanderia próxima ao local onde o caminhão estava estacionado. Por volta do meio-dia, ele telefonou para a sobrinha, mas ela não conseguiu atender. Quando retornou a ligação, não teve mais resposta.
A família afirma que chegou a ser comum ficar três ou quatro dias sem falar com o caminhoneiro, principalmente quando ele estava sem créditos ou perdia o aparelho celular. Desta vez, porém, a ausência se prolongou e levantou preocupação.
Desde então, parentes começaram uma peregrinação por hospitais, unidades de pronto atendimento e até pelo Instituto Médico-Legal em busca de informações.
“É bastante complicado não ter notícias e não dar uma resposta para a gente. Estar aqui em hospital, não saber se deu alguma entrada nesse documento, mas não tem nada. UPA, IML, nada. Ninguém sabe, ninguém viu”, lamenta Mirela.
A família chegou a viajar para Minas Gerais para procurar Elias e também registrou boletins de ocorrência em Minas e São Paulo. Segundo a sobrinha, o caminhoneiro não faz uso contínuo de medicamentos, não tem vícios conhecidos e a família desconhece possíveis inimigos.
A falta de informações também abriu espaço para criminosos. Os parentes afirmam que já receberam ligações de golpistas dizendo saber onde Elias estava.
“Já ligaram dando golpe também, falando que estava em tal lugar. A gente descobriu que era golpe”, conta.
Com o passar dos dias, a preocupação aumenta.
“A gente não sabe o que aconteceu, se foi sequestrado, o que fizeram com ele. Passa bastante coisa na cabeça. E, conforme vão passando os dias, mais coisa vem na cabeça”, diz Mirela.
A Polícia Civil de Minas Gerais informou que instaurou inquérito para investigar as circunstâncias do desaparecimento.
Artista desaparece após mudança de comportamento em BH
Outro caso mobiliza familiares e amigos em Belo Horizonte. Fábio Batista Silva, de 57 anos, é músico, artista plástico e escultor e desapareceu após apresentar uma mudança repentina de comportamento.
Conhecido principalmente nos bairros Palmeiras, Jardim Laguna, Marajó e Buritis, na região Oeste da capital, Fábio costumava se apresentar em bares e eventos e desenvolvia trabalhos ligados à música e às artes plásticas.
Segundo a família, ele morava sozinho e levava uma vida tranquila. Nos dias que antecederam o desaparecimento, porém, vizinhos perceberam comportamentos fora do habitual.
Familiares relatam que Fábio destruiu parte dos próprios materiais artísticos e instrumentos musicais. Quadros teriam sido queimados, assim como um violino e um violão.
“Eles viram o Fábio com uma atitude totalmente contrária à pessoa do Fábio. Saía correndo, queimou os quadros, vários materiais que ele tinha em mãos, inclusive até o violino, violão”, relata o irmão, Nerisvaldo Batista.
A família conta que ele já havia apresentado episódios de extrema angústia anteriormente, inclusive cerca de oito anos atrás, mas nunca havia desaparecido.
Desde que perderam o contato, parentes, amigos e pessoas que conhecem o trabalho do artista têm se mobilizado em busca de informações.
“Nós estamos sentindo muita falta dele. É uma pessoa que realmente faz parte da família, é irmão, e não só da família, mas dos amigos e de outras pessoas”, afirma o irmão.
Mais de 60% são primeiros desaparecimentos
Os dados sobre desaparecidos em Minas também mostram diferentes circunstâncias associadas aos registros. Em 60,67% dos casos analisados, trata-se da primeira ausência registrada da pessoa.
Há ainda registros associados ao uso de bebida alcoólica, em 49,85% dos casos; uso de substâncias tóxicas, em 37,41%; histórico de depressão, em 35,25%; e utilização de medicamentos controlados, em 33,16%. Conflitos familiares aparecem em 21,68% e dívidas financeiras a pagar, em 8,06%.
Os fatores não significam, necessariamente, que sejam a causa do desaparecimento, mas fazem parte das características registradas nos casos.
Enquanto as autoridades investigam as ocorrências, famílias como as de Elias e Fábio seguem esperando por uma informação que ajude a encontrá-los.
Informações que possam ajudar na localização de pessoas desaparecidas podem ser repassadas pelo telefone 0800 2828 197.
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