Logo R7.com
RecordPlus
‌

‘Minha realidade financeira mudou’, conta empreendedora do Taquaril que transformou intuição em aprendizado

Moradora de comunidade organizou o negócio para crescer profissionalmente, sem deixar de apostar no comércio local

Minas Gerais|Michelyne Kubitschek, da Record Minas

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window

LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Rose Abreu, empreendedora do Taquaril, viaja mensalmente a São Paulo para escolher pessoalmente as roupas que vende em sua loja, mantendo a identidade do negócio.
  • Ela administra sozinha a loja, que começou há seis anos e tem um ponto físico há quatro anos, gerenciando desde o estoque até as redes sociais.
  • Rose acredita na importância de fortalecer o comércio local, compartilhando conhecimento e oportunidades com outras mulheres da comunidade.
  • A transição de uma gestão intuitiva para uma baseada em dados permitiu a Rose melhorar o controle financeiro e expandir seu negócio sem sair do Taquaril.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Rose viu no empreendedorismo uma oportunidade para realizar seus sonhos e crescer na área que escolheu seguir Reprodução/ACERVO PESSOAL

Na última semana de cada mês, Rose Abreu, de 37 anos, costuma deixar o Taquaril, na região Leste de Belo Horizonte, e seguir para São Paulo. Ela vai atrás das roupas que vão ocupar as araras da loja dela, que fica no coração da comunidade.

A viagem de ônibus ao longo dos mais de 500 km se repete, mas as compras, não. Semana a semana ela acompanha quais peças saíram, o que as clientes procuraram e não encontraram, numerações, modelos, a aceitação de cada produto e tendências para inovar. É com essas informações que ela chega aos fornecedores.

‌

Olhar cuidadoso

Rose diz que parte das mercadorias pode ser escolhida virtualmente. Ainda assim, faz questão de ir pessoalmente à maior metrópole do país para avaliar com aquilo que nenhum bom site consegue proporcionar: o olhar. “Não adianta eu trazer de tudo à distância. Eu tenho um perfil da minha loja, tenho uma persona traçada. Preciso voltar com aquilo que condiz com o meu segmento e não posso perder a identidade da loja”, afirma.

A volta para Belo Horizonte é só uma parte do caminho percorrido pelas mercadorias e pela Rose. Na loja de poucos metros quadrados, na comunidade, ela compra e vende, controla o financeiro, o estoque, monta a vitrine, embala as peças, faz lives, responde às clientes no whatsApp e alimenta o instagram.

‌

E a empreendedora ainda encontra um tempinho para atuar de modelo da própria empresa: veste as roupas para fotografá-las. Tem uma funcionária, mas as decisões do negócio continuam concentradas nela. “O financeiro sou eu. A rede social também sou eu. Eu estou atrás da câmera, mas também estou na frente dela. Tudo dentro da minha loja passa por mim”, detalha.

Formada na ‘marra’

Articuladora social na comunidade, Rose afirma trabalhar há anos no comércio. Ela não tem formação em Administração, mas se orgulha em ter aprendido a profissão na prática, e “na marra”, como a empreendedora brinca. Foi no balcão dos ex-patrões e, depois, no próprio negócio que aprendeu a calcular compra, venda, logística e reposição.

‌

A loja começou há cerca de seis anos sem endereço físico: primeiro vieram o nome, as etiquetas, as sacolas e uma página nas redes. O ponto comercial na rua completou quatro anos em maio.

O endereço ajuda a dimensionar o negócio. São pelo menos 14 mil pessoas vivendo na comunidade, segundo dados do IBGE. Cerca de 60% da clientela da loja física, segundo ela, vêm do próprio Taquaril. A escolha de manter o negócio na favela não está ligada apenas à história pessoal.

‌

Também é uma decisão sobre onde o dinheiro circula. “Eu entendo que, se a gente fortalecer o comércio aqui dentro do nosso bairro, o capital vai ter um giro maior aqui dentro. Eu quero vender, quero que a minha concorrente venda, quero que todas vendam”, conta.

Para o administrador, empresário e presidente do Conselho Regional de Administração de Santa Catarina (CRA-SC), João Luiz Moser, o efeito de um comércio fortalecido ultrapassa as portas da própria empresa. Quando parte da renda permanece no território, diz, outros negócios, trabalhadores e prestadores de serviço também podem ser alcançados.

“O comerciante compra de fornecedores, contrata pessoas, paga salários, utiliza serviços e, por sua vez, esses trabalhadores e fornecedores também consomem no próprio território. Cria-se um ciclo econômico”, explica.

Quem compra, volta

Uma das clientes mais frequentes da loja é a dona de casa Ana Paula de Assis, 46, que diz ficar de olho na vitrine. “Antes eu precisava descer essa morraiada e ir lá pro Centro ou pra outros bairros para procurar roupa do jeito que eu gosto. Agora se eu vou numa festa, bato o olho na loja e tem uma que eu gosto, já vou com a roupa, mando até foto pra Rose ver como eu fiquei bonita”, brinca.

Rose leva essa ideia para além do próprio balcão. Compartilha fornecedores, indica quem produz sacolas e cartões e já se dispôs a levar outras mulheres da região às compras em São Paulo. “Não tenho vaidade nenhuma de repassar o conhecimento que um dia fui buscar para montar o meu negócio. Seja o que aprendi na prática, nos cursos ou com os meus erros”, diz.

Empreendendo na comunidade

Gente para compartilhar ideias e conhecimento não vai faltar para Rose. Uma pesquisa ouviu 1.004 donos de negócios de comunidades de Minas Gerais, entre eles os do Conjunto Taquaril. Nove em cada 10 trabalham dentro da própria comunidade. Para 90%, o faturamento do empreendimento responde por, pelo menos, metade da renda da casa.

Quase 9 em cada 10 trabalham sozinhos e 69% ainda estão na informalidade. O comércio responde por 31% dos negócios pesquisados e o segmento de vestuário e acessórios, por 10%, fatia onde Rose se encaixa (Sebrae Minas com o Data Favela/Instituto Locomotiva).

Entre as mulheres, o recorte se aproxima ainda mais da história da lojista. No mesmo levantamento, 75% das empreendedoras das favelas mineiras são negras, sete em cada 10 são mães e 45% têm entre 30 e 45 anos. Vestuário e acessórios aparecem entre as atividades femininas de maior presença, com 15%.

A presença feminina também é expressiva fora das comunidades. Em 2026, Minas Gerais passou de 1 milhão de pequenos negócios liderados por mulheres, mais de 40% do total do estado. O comércio reúne cerca de 300 mil deles.

Da intuição ao aprendizado

Políticas públicas e a democratização cada vez maior de tecnologias e redes sociais têm impulsionado pequenos negócios, mas durante anos, as contas, vendas e reposições ficavam registradas em anotações e, muitas vezes, na memória da Rose. “Eu controlava tudo manualmente e mentalmente. Era uma loucura. Fazia muito por intuição. Depois entendi que precisava planilhar, precisava documentar”, lembra.

Hoje, ela é capaz de responder com dados qual peça vende mais, o que precisa ser reposto e o que não vale uma nova compra. “Se você me perguntar qual produto eu mais vendo, eu consigo identificar, mostrar e provar em planilha, estou avançado cada vez mais”, destaca.

Mesmo vendendo para clientes de outras regiões e enviando peças para fora de Minas, Rose diz que pretende manter a operação no Taquaril. “Eu quero vender, quero que a minha concorrente venda, quero que todas vendam. Se a gente fortalecer o comércio dentro do nosso bairro, o capital vai ter um giro maior aqui dentro.”

O negócio que durante anos foi administrado “manualmente e mentalmente” hoje tem planilhas, controle de estoque, planejamento de compras e acompanhamento das vendas. O resultado aparece no caixa, na permanência do consumo dentro da comunidade e também fora do expediente. “Era uma loucura. Fazia muito por intuição. Depois entendi que precisava planilhar, precisava documentar”, lembra.

A dificuldade encontrada por Rose se repete em pequenos negócios de diferentes regiões do país. Pesquisa divulgada neste mês pelo Conselho Federal de Administração (CFA), em parceria com o Ministério do Empreendedorismo, identificou a gestão financeira entre os principais gargalos de micro e pequenas empresas. O levantamento também encontrou estruturas enxutas e forte concentração das decisões nas mãos do próprio empreendedor, rotina semelhante à da lojista do Taquaril.

Para Moser, a passagem de decisões baseadas quase exclusivamente na experiência para uma gestão apoiada também em informações produzidas pelo próprio negócio permite ao pequeno empresário enxergar melhor o presente e antecipar movimentos.

“A experiência e a intuição continuam sendo importantes, mas deixam de ser o único instrumento de decisão. Quando o pequeno negócio conhece seus produtos mais vendidos, seus períodos de maior movimento, seu estoque, o perfil e o comportamento dos clientes, ele consegue tomar decisões mais precisas sobre compras, preços, promoções, fluxo de caixa e até sobre onde concentrar seus esforços comerciais”, afirma.

Se antes, Rose saía cedo para trabalhar no comércio e muitas vezes voltava quando as filhas já estavam dormindo, hoje organiza a própria jornada e consegue até almoçar com elas. “Minha realidade financeira mudou, mas uma das maiores coisas que eu tenho hoje é conseguir almoçar com as minhas meninas”, comemora.

Para Rose, administrar melhor não significou sair do Taquaril. Significou fazer o negócio crescer sem precisar perder suas raízes e, mais que isso, valorizar e empoderar clientes e outras comerciantes que se inspiram no jeito de ser e trabalhar da empreendedora.

Search Box

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas

‌

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.