Nadadora mineira perde 76% do rim, consegue transplante e irá para os Jogos Pan-Americanos
Maria Eduarda, de 18 anos, já passou por 19 cirurgias, mas não desistiu do sonho; a competição ocorre em outubro, no Uruguai
Minas Gerais|Arnon Gonçalves, do R7 e Juliana Pereira, da Record Minas
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A nadadora de Belo Horizonte, Maria Eduarda Porto, de 18 anos, encontrou fora das águas um caminho difícil para alcançar seus objetivos no esporte. Duda, como é conhecida, nasceu “quase morta”. Prematura de seis meses, passou por uma cirurgia já no primeiro dia de vida por conta de uma má formação. Aos três anos, teve que tirar um dos rins, e o outro ficou 76% comprometido pouco depois. Aos 11 anos, precisou abandonar as piscinas.
Só um transplante de rim poderia salvar a vida da nadadora. E, para a alegria dela e dos familiares, o procedimento foi realizado com a ajuda de uma outra família, que decidiu doar os órgãos de uma garota que morreu após um Acidente Vascular Cerebral (AVC), em Ipatinga, a 200 km da capital mineira.
Além do transplante, Duda precisou passar por outras 18 cirurgias, mas não desistiu do sonho de voltar a nadar. Após anos de luta, e treinamento intenso, a mineira conseguiu uma grande conquista. Ela foi classificada e irá representar o Brasil nos Jogos Pan-Americanos para Atletas Transplantados, que ocorrerá no Uruguai, de 21 a 25 de outubro.
Jovem enfrentou 19 cirurgias
A vida da nadadora foi repleta de desafios, começando já no nascimento. Valeska, mãe da Duda, conta que a filha nasceu com uma má formação no canal ureter direito. A condição fez com que Duda tivesse um parto prematuro, aos seis meses, e já passar por uma cirurgia no primeiro dia de vida.
“O médico me disse que talvez não tiraria ela com vida e que ela já estava em estado grave. Duda já nasceu praticamente morta. Logo que ela nasceu, fizeram uma massagem cardíaca, a entubaram e levaram para o CTI (Centro de Terapia Intensiva). Ela ficou 45 dias no CTI e, nesse meio tempo, teve duas paradas cardíacas”, disse Valeska Porto.
De acordo com a mãe, os médicos disseram que como ela havia nascido aos seis meses, o sistema urinário ainda não estava completamente formado, por isso ela precisaria passar por um processo longo, de várias cirurgias. Aos três anos, Duda precisou retirar o rim direito. Mas a luta da família ainda não acabaria aí.
Em 2019, o único rim de Duda - que tinha apenas 40% de funcionalidade - piorou. Agora, ela precisaria de um transplante. Enquanto um doador compatível não era encontrado, ela se submeteu a hemodiálise. Nessa época, Valeska diz que a filha chegou a pesar 14 quilos.
Mas no dia 18 de novembro de 2020, tudo mudou. “Ela estava terminando a sessão de hemodiálise, quando a enfermeira perguntou: ‘Duda, você já escreveu sua cartinha para o Papai Noel?’. E ela respondeu: ‘Já, pedi um rim, é a única coisa que eu queria’. Dez minutos depois o meu celular tocou e era a notícia de que um doador apareceu. Nesse mesmo dia a Duda foi para a sala de cirurgia e fez o transplante”, contou a mãe emocionada.
O procedimento só foi possível devido a outras pessoas, que viviam a cerca de 200 km da atleta, em Ipatinga, no Vale do Aço. A família de uma adolescente de 13 anos, que morreu devido a um Acidente Vascular Cerebral (AVC), autorizou a doação de órgãos da menina e foi o rim dela que salvou a vida de Duda.
Em seus 18 anos de vida, Duda já enfrentou 19 cirurgias. “Eu entreguei minha filha 19 vezes para um cirurgião, sem saber se ela iria voltar”, desabafou a mãe da jovem.
Além de conseguir retomar as atividades diárias, a atleta também celebra ter voltado a nadar. “A natação pra mim significa muita coisa, mas a palavra que resume bem é a gratidão. A natação me desenvolve, gasto toda a minha energia, tudo de negativo sai ali. Eu entro na piscina de um jeito e saio de outro. É onde me reconecto comigo mesma”, afirma Duda.
Competição internacional
Após muito treino, Duda foi classificada e irá representar o Brasil nos Jogos Pan-Americanos para Atletas Transplantados, que ocorrerá na cidade de Maldonado, no Uruguai, no mês de outubro.
A competição internacional é apoiada pela Associação Brasileira de Transplantados (ABTx) para promover a vida ativa após o transplante em torneio para atletas transplantados e paralímpicos da América Latina.
Duda já representou o Brasil em outros eventos internacionais e nacionais, sendo medalhista mundial e campeã brasileira de natação transplantada. Ela já foi segundo lugar nas provas de Nado Costa e Borboleta durante a The World Transplant Games Evento, uma competição multiesportiva internacional que reúne receptores de transplantes de órgão, doares vivos e famílias de doadores do mundo todo.
Duda conta que treina de 3 a 4 horas por dia, de segunda a sexta, se preparando para a competição. “São muitos metros que a gente nada, você passa da fase de base e vai aumentando o rendimento. Depois você faz uma prova específica. O meu trineador já faz um treino para aquela competição”, explica.
Importância da doação de órgãos
A história de Duda também ajuda a mostrar a importância da doação de órgãos. Minas Gerais é o segundo estado do Brasil em número de transplantes de órgãos, com mais de 600 procedimentos realizados até a primeira semana de setembro deste ano, segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde. O estado de São Paulo ocupa a primeira posição.
De córnea, já são mais de 800 transplantes no estado mineiro. Em todo o país, o registro é de mais de 6 mil transplantes até o momento. Além disso, setembro é o mês de conscientização e de celebração do Dia Nacional da Doação de Órgãos.
Atualmente, mais de 78 mil pessoas estão na fila de espera por órgãos e tecidos, sendo mais de 4,4 mil só em Minas Gerais, onde a taxa de recusa é de 37%, enquanto a taxa nacional é 45%, segundo compilado de 2025 da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).
No caso de Duda, a decisão de uma família em doar os órgãos de uma adolescente que havia morrido mudou a vida de outra pessoa. “Eu costumo dizer que o sim de uma família salvou a vida da minha filha”, diz a mãe da atleta.
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