Redução de técnicos no Samu pode afetar atendimentos de urgência em BH, afirma categoria
Redução de técnicos de enfermagem nas ambulâncias deve começar em maio; profissionais alertam para risco à população
Minas Gerais|Cler Santos, do R7 e Ana Paula Pedrosa, da RECORD Minas.

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A decisão da Prefeitura de Belo Horizonte de reduzir em cerca de 25% o número de técnicos de enfermagem do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) tem gerado preocupação entre profissionais da saúde e entidades médicas. A medida, prevista para entrar em vigor no dia 1º de maio, deve impactar diretamente o tempo de resposta e a qualidade dos atendimentos de urgência na capital.
Atualmente, as ambulâncias do SAMU em BH operam com um condutor e dois técnicos de enfermagem — modelo adotado há mais de uma década e considerado referência nacional. Com a mudança, as equipes passarão a contar com apenas um técnico, o que, segundo a categoria, pode tornar alguns atendimentos inviáveis, especialmente em ocorrências mais complexas, como pacientes obesos, em surto ou em parada cardiorrespiratória.
De acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte, 34 profissionais contratados de forma temporária durante a pandemia da Covid-19 não terão os vínculos renovados. A Secretaria Municipal de Saúde afirma que as escalas serão reorganizadas e que não haverá redução no número de ambulâncias.
A nota informa ainda que o SAMU conta atualmente com cerca de 710 profissionais, entre médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e condutores. “Cabe ressaltar, também, que a Portaria nº 2.028/2002 estabelece que a equipe mínima para atuação em unidades de suporte básico (USB) é composta por um técnico de enfermagem e um condutor. Esse modelo já é utilizado em outras cidades do país e passará a ser adotado por Belo Horizonte”, finaliza.
Um dos argumentos apresentados pela administração municipal é que outras cidades, como São Paulo, já operam com apenas um técnico de enfermagem por ambulância. No entanto, profissionais do SAMU em Belo Horizonte contestam a comparação. Segundo eles, a capital paulista conta com cerca de 40 motolâncias — equipes em motocicletas que podem ser acionadas para dar suporte rápido com mais profissionais em ocorrências que exigem reforço. Esse modelo, porém, não existe em BH, o que, na avaliação da categoria, comprometeria a eficácia do atendimento com apenas um técnico nas ambulâncias.
Apesar disso, trabalhadores da área contestam a justificativa e afirmam que já existe um déficit de profissionais no serviço. Hoje, Belo Horizonte conta com cerca de 198 técnicos, número que deve cair para aproximadamente 151 com os desligamentos.
Para a conselheira estadual de saúde, Érika Santos, o principal impacto será sentido diretamente pela população. “O primeiro risco que tem que ser considerado é o risco para a população. Hoje nós já sabemos que o número de ambulâncias é insuficiente para atender a demanda”, afirma.
Ela destaca que a redução de equipes compromete a atuação em cenários desafiadores, comuns na capital. “São pacientes às vezes com 200 quilos, são cerca de 15 quilos de material que essa equipe carrega. Como apenas uma pessoa poderá proceder um atendimento em locais de difícil acesso, como morros e vielas?”, questiona.
Segundo Érika, o modelo atual, com dois técnicos, é consolidado há anos e já era aplicado antes mesmo da pandemia. “O SAMU de Belo Horizonte já funciona há mais de 13 anos com dois técnicos de enfermagem. Se somarmos o déficit anterior com os cortes atuais, passamos de 50 profissionais a menos”, explica.
Outro ponto crítico é o tempo de resposta. Hoje, o atendimento pode levar de 30 a 40 minutos, dependendo da gravidade e da localização da ocorrência. Com a redução das equipes, a tendência é de aumento significativo nesse intervalo. “Esse tempo que hoje já é insuficiente tende a aumentar em mais de 90%”, alerta a conselheira.
Ela também chama atenção para a complexidade de determinados atendimentos. “Em casos de surto, por exemplo, é necessária contenção em cinco pontos do corpo. Como apenas um técnico vai conseguir fazer isso sem colocar em risco a própria segurança e a do paciente?”, questiona.
Em nota, o Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG) e o Conselho Regional de Medicina (CRM-MG) classificaram a medida como preocupante e destacaram que a redução das equipes ocorre em um momento crítico para a saúde pública. Segundo as entidades, Belo Horizonte já enfrenta um aumento expressivo de casos de doenças respiratórias, com cerca de 107 mil atendimentos registrados apenas nos primeiros meses do ano.
As entidades alertam que o corte no SAMU representa “risco direto à vida da população”, já que o serviço é a principal porta de resposta imediata às emergências. Ainda de acordo com o posicionamento, o enfraquecimento do atendimento pré-hospitalar pode gerar um efeito cascata, agravando a sobrecarga já existente nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e nos hospitais da capital.
O Sinmed e o CRM também destacam que a rede municipal já opera sob forte pressão, com profissionais atuando no limite técnico e físico. Nesse cenário, a redução de equipes tende a comprometer a qualidade da assistência e a segurança dos pacientes, além de aumentar o tempo de resposta e reduzir as chances de desfechos favoráveis em ocorrências graves.
Diante da situação, trabalhadores do SAMU organizam uma manifestação na porta da Prefeitura na próxima quarta-feira (22/4), seguida de participação em audiência pública na Câmara Municipal para discutir os impactos da medida. Apesar da mobilização, a categoria afirma que não pretende paralisar os serviços neste momento.
“Somos responsáveis e não vamos tirar profissionais das ambulâncias. Mas, se a situação continuar, existe sim a possibilidade de estado de greve”, afirma Érika.
A Prefeitura mantém o posicionamento de que a reorganização das equipes seguirá normas federais e que a assistência à população será garantida.
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