Sonhos interrompidos: acidente que interrompeu viagem à praia expõe desigualdade no acesso ao lazer
Uma criança que conheceria o mar pela primeira vez e uma jovem grávida; especialista defende turismo acessível e seguro
Minas Gerais|Cler Santos, do R7
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Uma viagem para conhecer o mar, viver momentos em família e realizar planos que, para muitos passageiros, exigiram meses de organização. O passeio ao Rio de Janeiro terminou em tragédia e deixou dez mortos. Entre as vítimas estavam Lavínia Eduarda Souza Dias, de 7 anos, que veria a praia pela primeira vez, e Ketelyn Polyane Alves de Oliveira, de 19, grávida de quatro meses.
Ketelyn viajava com o namorado, Gabriel Bernardes, de 21 anos. O passeio havia sido preparado como uma surpresa para a jovem e seria a primeira viagem do casal. Ela também pretendia surpreender a mãe: só contaria sobre o destino quando chegasse à praia.
A jovem, segundo a família, era quem animava os encontros e organizava as comemorações. “Ela sempre foi a que puxou as festas da família. Todo Natal, ficava muito animada e organizava amigo oculto”, contou o primo Lucas Marra de Freitas. A notícia da gravidez, revelada quatro meses antes do acidente, havia trazido alegria aos parentes.
Gabriel sobreviveu com ferimentos na cabeça e nas costas. Segundo ele, Ketelyn demonstrou medo durante o trajeto e passageiros pediram ao motorista que reduzisse a velocidade. O relato ainda será analisado pelas autoridades responsáveis pela investigação.
Pouco antes do acidente, conforme Gabriel, Ketelyn o abraçou, declarou que o amava e agradeceu pela viagem. O casal preparava uma festa para revelar o sexo do bebê. Já no hospital, o jovem soube que esperavam um menino.
“Era a nossa primeira viagem juntos. Estava tudo organizado, do jeito que ela sempre sonhou”, lamentou. Durante o velório, uma imagem do ultrassom foi colocada sobre o corpo da jovem.
Para além da dor das famílias, a tragédia chama a atenção para uma realidade enfrentada por moradores de comunidades e regiões periféricas: a dificuldade de acesso ao turismo.
A advogada e consultora jurídica Sabrina Matta Machado explica que despesas com transporte, hospedagem e alimentação tornam as viagens inviáveis para uma parcela significativa da população. “Apesar de o lazer ser um direito social reconhecido pela Constituição, o acesso ao turismo ainda é profundamente marcado pela desigualdade”, afirmou.
Nesse cenário, excursões organizadas por empresas menores, grupos comunitários ou pessoas da própria região tornam-se uma das poucas alternativas economicamente possíveis. A divisão das despesas e as viagens de curta duração reduzem os custos e permitem que famílias de baixa renda conheçam destinos como a praia.
Sabrina ressalta, entretanto, que buscar uma opção mais barata não torna o passageiro responsável por eventual precariedade ou irregularidade do serviço. Muitas vezes, segundo ela, o consumidor não possui meios simples para verificar se a empresa está autorizada, se o veículo passou por manutenção ou se todas as exigências de segurança foram cumpridas.
“O direito à segurança não pode ser condicionado à capacidade econômica. Não podemos colocar as famílias diante da falsa escolha entre não viajar ou assumir riscos para ter acesso ao lazer”, destacou.
A fiscalização do transporte rodoviário interestadual cabe principalmente à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Nos serviços de fretamento, a empresa precisa estar habilitada e a viagem deve possuir a licença correspondente. Organizadores também devem informar claramente quem presta o serviço e em quais condições o transporte será realizado.
Sem antecipar as conclusões sobre as causas do acidente, Sabrina defende que episódios dessa natureza ampliem o debate sobre fiscalização, informação ao passageiro e políticas públicas de turismo social. Entre as medidas possíveis estão programas para reduzir os custos das viagens, parcerias com comunidades e investimentos em destinos próximos às periferias.
“Democratizar o lazer não significa apenas tornar a viagem mais barata. É preciso garantir que ela também seja segura, regular e digna. A condição econômica de uma família não pode determinar o nível de proteção que ela terá”, concluiu.
Relembre o caso
Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o ônibus tombou por volta das 4h30, no km 91 da rodovia, na descida da Serra de Petrópolis, na região de Cascatinha. O coletivo teria saído de Belo Horizontecom destino ao Rio de Janeiro. A perícia foi acionada, e a ocorrência foi encaminhada à 105ª Delegacia de Polícia, em Petrópolis.
O Corpo de Bombeiros informou que algumas vítimas ficaram presas às ferragens. Durante o resgate, os militares precisaram fazer escavações para alcançar e retirar passageiros. Os feridos foram encaminhados a unidades de saúde, entre elas os hospitais Santa Teresa, em Petrópolis; Adão Pereira Nunes, em Duque de Caxias; e Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.
Em nota, a Estela Guia lamentou o acidente, manifestou solidariedade às vítimas e aos familiares e afirmou que está colaborando com as autoridades. A empresa declarou ainda que presta assistência aos envolvidos e aguarda a conclusão das investigações sobre as circunstâncias do tombamento.
Sobre outros questionamentos envolvendo o ocorrido, o advogado da empresa, Aroldo Leão Braz, disse, em nota, que a empresa não fará manifestações sobre o caso e que eventuais esclarecimentos e manifestações serão apresentados nos autos dos processos dos quais a empresa venha a fazer parte.
Nota da empresa Estrela Guia:
“A Estela Guia manifesta profundo pesar pelo grave acidente ocorrido e se solidariza com as vítimas, seus familiares e todos os envolvidos neste momento de dor.
Desde os primeiros momentos, a empresa está colaborando integralmente com as autoridades responsáveis pela apuração dos fatos e adotando todas as medidas necessárias para prestar assistência às vítimas e seus familiares.
A Estela Guia está acompanhando de perto a situação e disponibilizando o suporte necessário, ao mesmo tempo em que aguarda a conclusão das investigações para que as circunstâncias do acidente sejam devidamente esclarecidas.
Neste momento de profunda consternação, pedimos respeito à privacidade das famílias e das pessoas afetadas.
A empresa reafirma seu compromisso de colaborar com as autoridades e prestar os esclarecimentos necessários, sempre pautada pelo respeito, pela transparência e pela responsabilidade".
Nota do advogado da Estrela Guia:
“Neste momento, a empresa não fará manifestações sobre o caso. Eventuais esclarecimentos e manifestações serão apresentados oportunamente nos autos dos processos dos quais a empresa venha a fazer parte.
Estrela Guia
Assessoria Jurídica: Leão Braz Advogados – Dr. Aroldo Leão Braz".
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