Elza Soares: chegou nossa vez de resistir à dor do adeus
André Azeredo|Do R7

Elza Gomes da Conceição resistiu.
Resistiu à carestia na infância pobre. À falta d’água.
Resistiu às dores e frustrações de um casamento aos 14 anos. À violência.
Resistiu à perda de seus filhos, tão novos, levados pelas doenças do mundo.
Resistiu a ser a outra. Firmou pé e enquadrou Garrincha. Ou assume ou some.
Resistiu à humilhação de ser a destruidora do sacro lar de um Mané já ídolo.
Resistiu à dor de um acidente de carro que levou seu filho. Resistiu ao dilaceramento da incerteza quando sua menina foi raptada.
Resistiu ao luto. Ao exílio.
Resistiu à discriminação, forte e implacável, por ser mulher, negra e buscar seu lugar de fala.
Resistiu junto com o samba, para manter o mais brasileiro dos ritmos. Com sua voz potente.
Arranhada. Única. Arrepiante.
Resistiu. Mas dói resistir. Dói. Caleja a alma por demais. Dói.
Vá com Deus, mulher dos olhos gateados. Mulher guerreira. Mulher brasileira. Mulher artista.
Adeus, Elza Soares.
Chegou nossa vez de resistir à dor do adeus.














