A polícia sob nova direção
Que fique muito bem claro: perigosa é a bandidagem, não a polícia
Arquivo Vivo|Percival de Souza, da Record TV

Mais um vaivém, novo troca-troca na chefia das Polícias Civil e Militar. E daí?
Daí que coronel Fernando sai, coronel Ronaldo entra. Delegado Ruy sai, delegado Nico assume. Os efeitos dessas alterações, ainda veremos. O tempo é curto, o final do mandato, que é tampão, do governador Rodrigo Garcia. Até dezembro, saberemos o que mudou para melhor, porque ao menos teoricamente essa é a intenção.
A história das duas corporações é longa. A PM, ex-Força Pública (até 1969), tem suas origens em 1831. A Civil, 1905. As transformações foram muitas, a sociedade mudou, a criminalidade adquiriu novas características, e as polícias cresceram.
Chegamos a 2022, ano de feroz disputa política no Executivo e no Legislativo. Entre o impacto das ondas e o farfalhar (frívolo) da espuma, águas e rochedo, as polícias ficam no meio. São uma espécie de marisco. Politicamente, tem gente (muita) querendo instrumentalizá-la, para que ela seja massa de manobra em terrenos políticos e, se houver espaço, ideológicos. Já vimos esse tipo de filme antes. Esse espaço não pode ser concedido. Ambas as polícias estão com suas atividades-fim previstas na Constituição.
Ao que parece, mandar uma polícia é uma delícia. Dar palpites, então, nem se fale. Tanto que a Secretaria de Segurança Pública, à qual as duas polícias estão subordinadas, já teve todo tipo de chefia: oficiais do Exército, desembargador, juiz, advogados. Todos, noviços no ramo, queriam deixar a sensação de que mandavam, mas sempre com severos limites.
O governador Garcia acena uma nova etapa. Na verdade, não há muito a acrescentar, em termos operacionais, mas sim em estilo, métodos, doutrina e resultados.
Este é o punctum saliens, o ponto central da questão. A população está com medo. Medo de quê? Da bandidagem à solta. Nas ruas ou no recesso dos lares, roubos à mão armada (assaltos) e ataques das formas mais inesperadas. Não escapam apartamentos e condomínios, cada vez mais fechados. A arquitetura cede às normas de segurança, nem sempre estéticas. Não para por aí: bandidos agem atacando carros, motocicletas e bicicletas. Nem os cemitérios escapam: roubos no silêncio dos velórios, violação e saques de túmulos. A população tem que conviver com o medo, pagando um altíssimo preço por morar numa cidade a qual muitos e muitas já querem abandonar. São Paulo tornou-se uma metrópole suja, imunda em vários lugares, transbordando perigo em muitos pedaços malcuidados e administrados. Nesse cenário, bem-vindos coronel Ronaldo, ex-comandante do Policiamento de Choque e novo comandante-geral (cinco batalhões); e delegado Nico, ex-diretor do Dope, Departamento de Operações Estratégicas da Polícia Civil, agora delegado-geral. Não se esqueçam de que a prioridade nº 1 é estabelecer, se possível rapidamente, um mínimo de sensação que suplante o temor. Um combate sistemático à frontal síndrome do medo.
Vejamos, então. O crime que mais se pratica, liderando folgadamente a característica predominante da população carcerária, é contra o patrimônio, englobando roubos (sempre com violência armada) e furtos (sem violência, mas causando grandes estragos). Homicídio também, terceiro lugar na classificação penal, precedido por tentativas de matar e lesões corporais de natureza grave ou leve. O cardápio penal é farto. No caso dos roubos, os registros oficiais – oriundos da própria Secretaria de Segurança – chegaram a quase 60 mil em São Paulo, tornando-se assim consideravelmente maiores que aqueles registrados ao longo do primeiro trimestre do ano passado. Já nos casos de furto, a escala ascendente chegou a quase 133 mil episódios. Lembre-se de que ainda existem os números (altos) de casos não notificados. Vítimas que não acreditam no êxito das ações policiais.
Deixem de lado as teorias abstratas, autênticos cemitérios de poesias sem rima e de mau gosto. Ronaldo e Nico: os senhores sabem o que é melhor para a polícia, sabem o que deve ser feito em termos de atividade-fim. Aproveitem o cargo e façam institucionalmente para ambas aquilo que é o melhor, porque até aqui, quando se fala em segurança pública, somente os palpiteiros prevalecem. Sabem por quê? Porque é como se houvesse uma necessidade crônica de envolver as polícias em papel-celofane, cor-de-rosa, para dar-lhes maior credibilidade. Cabe aos senhores mudar essa imagem, demonstrando que as polícias podem muito bem gerir a si próprias, e não ficar em mãos de neófitos.
Atenção para a tropa
Ronaldo e Nico: os senhores assumiram o cargo como linha de frente das polícias. Claro que os senhores sabem que os subordinados respeitam muito quem corre junto, solidário, presente nas ações decisivas. Nos cargos anteriores, Comando de Choque, não tem, nem pode ter, lero-lero ou conversa mole. Exatamente por isso é a tropa reserva do Comando-Geral. No Dope, departamento caçula da Polícia Civil, não há espaço para titubear diante de casos de emergência e situações de crise. Por essas razões, os senhores devem transmitir, aos muito subordinados, suas linhas de pensamento, filosofias de trabalho, emprego mais eficaz dos policiais operacionais e garantindo a eles uma boa e imprescindível retaguarda.
Chegamos aqui a um ponto delicado, que é os policiais serem vistos genericamente com desconfiança. Com considerar-se necessário filmá-los durante todo o tempo. Claro que essa medida dá transparência às ações e podem comprovar a lisura (ou não) de comportamentos, principalmente nas abordagens.
Por que esse ponto é delicado? Porque muitos falsos “especialistas” confundem, muitas vezes de forma dolosa, combater o crime com combater a polícia. São coisas completamente diferentes.
A situação de medo em que nos encontramos: é possível imaginar-se enfrentar essa situação com a polícia sendo vista com desconfiança permanente? É óbvio que não. Lembre-se, só para exemplificar (os casos são tantos...): o rapazinho Renan, fuzilado com quatro tiros por um facínora chamado Alecx, mesmo ajoelhado e pedindo para ser poupado, por um falso entregador de comida em domicílio? Aliás, essa é a praga do momento.
Com esse exemplo, quero lembrar a você que casos semelhantes se repetem. Ainda que mal pergunte, gostaria de saber se os palpiteiros de plantão entram numa delegacia ou num quartel para tomar conhecimento do mundo real. Não, preferem ficar bem a distância, ruminando elucubrações estéreis e pueris.
O que estou dizendo? Digo e repito: há uma malta nas ruas, uma turba sinistra de bárbaros. Marca registrada: são bandidos sanguinários, implacáveis, violentíssimos, despidos de qualquer sentimento de humanidade, impiedosos que erotizam a violência. São esses que precisam ser enfrentados, não por uma polícia atemorizada, mas por uma polícia confiante, profissional, consciente, capaz de devolver a tranquilidade aos cidadãos. Aliás, é a única profissão que, para nela ingressar, exige um juramento de sangue: se necessário, defender a sociedade com a própria vida. Isso que você está lendo não é um devaneio: o pai da Constituição dos Estados Unidos, James Madison, escreveu, acertando na mosca, que, se os homens fossem anjos, “governo algum seria necessário”. Não é verdade? Sim: nas ruas, bandidos, os causadores de medo, não são, à evidência, arcanjos e querubins. São exatamente o contrário: desafiam e enfrentam a polícia, recebem-na a tiros, e na forma organizada são sinistramente perigosos, como sabemos muito bem. Que fique muito bem claro: perigosa é a bandidagem, não a polícia.
Ronaldo e Nico: sigam sua própria cabeça, fazendo o que os senhores sabem melhor do que ninguém. Realidade só se muda pela realidade. Quando palpiteiros quiseram meter o bico, pretendendo mostrar que o círculo é quadrado, não hesitem em lhes dizer que devemos colocar na conta deles, e com juros, o caos em que fomos mergulhados.














