Anjinhos mortos
Arquivo Vivo|Percival de Souza, da Record TV

Anjos são mensageiros. Aparecem como sinais de paz e amor, por essa razão gostamos de chamar assim as nossas crianças. Porque elas são a materialização da inocência, da pureza, da ausência de maldade, de espontaneidade, de não mentir e serem sempre sinceras. São como páginas ainda em branco, que cabe aos adultos nelas escrever.
Anjos não são cadáveres a serem sepultos em valas comuns. Os anjinhos de Blumenau (SC), deitados inertes em pequenos caixões, foram cobertos de roupas com desenhos de seus heróis favoritos, e mais flores, velas e bichinhos de pelúcia ao redor. Os adultos, monossilábicos, olhavam-se sem conseguir entender direito a súbita ruptura entre a vida e a morte, indesejada e inesperada, mas sempre implacável na sua ceifa.
Os anjos catarinenses não escapam de definições, interpretações, das teses (quase sempre as mesmas) e a denominação comum para entender. Está difícil, e muito, nessa hora de assumir culpas, definir responsáveis, analisar situações e agir para que não haja repetição de fatos deploráveis como este.
Existe a síndrome de contágio? Existe. Ao lado dela, existe a síndrome de Caim? Também existe. Abel perdeu a vida sendo morto pelo irmão, o primeiro assassinato da História, e após o crime retirou-se para o oriente do Éden. Na sua morada, onde tudo era perfeito, não havia jornal, televisão, rádio ou redes sociais. O crime foi provocado pela dominadora ira, a raiva, o ódio, tão fortes quer o rosto dele transfigurou-se.
Na pacata Blumenau, mais conhecida por sua festa anual da cerveja, não seria possível imaginar que algo dessa espécie pudesse acontecer onde funcionava uma creche, que abrigava de bebês e crianças, ali colocadas em confiança por seus pais, procurando dar a elas o melhor tipo de educação, desde o berço, ou seja, desde os primeiros aprendizados e ensinamentos.
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No Cantinho Bom Pastor, era este o clima de acolhimento. O bom pastor cuida com muito carinho e zelo das suas ovelhas. Se uma delas desaparece, ele sai com o seu cajado para afugentar eventuais lobos e resgatá-la. O Bom Pastor máximo é aquele que trazemos à memória na Semana Santa.
O bom pastor escolar em Santa Catarina sabia muito bem de quem estava cuidando. Crianças gostam de brincar, são alegres, divertidas, bálsamos para nós que já fomos crianças um dia. Na frente da escola, um parquinho. Crianças gostam de se reunir formando uma rodinha para brincadeiras lúdicas.
É exatamente o momento em que entra em cena um “tio”, com o elas gostam de se referir, estranho e esquisito. Era um lobo humano. Ocultava o rosto com uma máscara, com desenho de uma caveira ameaçadora estampada, e traz nas mãos uma machadinha, objeto cortante que se assemelha a um machado em miniatura. Levava, ainda, um telefone celular. Aí, acontece: as crianças, meninos e meninas, começam a ser atingidas, uma a uma, por golpes da machadinha na cabeça. Vão caindo sucessivamente, e à medida que desabam, o matador as fotografa. Gritos, correria, pânico, terror, pavor. Uma professora empurra crianças, suas alunas, para protegê-las trancadas dentro de um banheiro.
O assassino havia pulado o muro que protege a escola para entrar. Foge por ali mesmo, deixando para trás um vermelho rastro de sangue das crianças mortas e feridas. A seguir, apresenta-se como réu confesso num batalhão da Polícia Militar, próximo dali.
Corre-corre, pranto, dor, almas feridas que nunca irão se cicatrizar, situações emocionais que não cabem dentro de um processo, cujas páginas nunca conseguirão abrigar os sentimentos humanos.
Aconteceu. Já havia acontecido antes. Uma professora de 71 anos, esfaqueada e morta em uma escola na zona sul de São Paulo. Massacre coletivo em outra escola em Suzano. Reminiscências de Columbine, nos Estados Unidos.
O enigma se apresenta para ser decifrado. Com vários tipos de lente. Nas primeiras demonstrações, busca-se um responsável, um bom bode expiatório. Ninguém tem culpa, a culpa é dos outros. Ótimo eximir-se de responsabilidades. Bom arremessar pedras certeiras, esquecendo-se de que o próprio telhado é de vidro.
A tentação, nada sublime, é promover politização em tudo, procurando tirar algum tipo de vantagem política. A prática é genérica e com essa metodologia oca e opaca tudo volta a acontecer em variadas escalas. A indignação que se procura demonstrar é quase sempre retórica. Transforma-se em pseudoindignação. O que fazer? Projetos, comissões de estudo, teses... aguardemos.
Lágrimas de sangue
No genérico, percebemos que esse tipo de fato é impressionante e tem forma assustadora. Sinais de patologia comportamental. Sonhar neste assunto, no estilo Luther King (“eu tive um sonho...”), é querer construir um ambiente saudável e pacífico.
No profundo, encontramos uma sociedade doente, contaminada, que mesmo em família admite filhos sem limites, autorizados a fazer o que bem entendem e como querem. Nessa proveta, vão para a escola e lá continuam a fazer exatamente o que costumam fazer em casa. Se pedagogicamente repreendidos, queixam-se com os pais, que vão à escola tomar satisfações com os professores, embora ausentes das reuniões com mestres, pais e alunos. Querem babás.
No factual, alunos vão às aulas munidos de celulares, embora nem sempre tenham condições de possui-los. Teclam, teclam, não param de teclar. É o empobrecimento da educação, do conhecimento, do idioma reduzido a um vocabulário precário.
Detritos ocultos sob tapetes: esse tipo de aluno não respeita professor. Gosta de agredi-los, muitas vezes com gravidade, e essa história de, diante de tudo disso, apenas chamar os pais para “conversar”, não funciona há muito tempo.
A última novidade sobre esse tema desafiador é tentar controlar como tais fatos são divulgados. Mídia “tradicional”, como gostam de dizer, é uma coisa. Redes sociais são outra, por onde desfilam seres que se apresentam como sabedores de tudo, embora não saibam de nada, espalhando mentiras e teclando em redes como se estivessem num botequim. Não apresentam argumentos sustentáveis. Habitam um refúgio para o anonimato irresponsável.
Agora, proliferam os corregedores dos meios de comunicação. Para eles, não importa que a imprensa não necessariamente crie fatos, mas obviamente se limite a divulgá-los. Pode acontecer, e acontece, dessa divulgação ser escandalosa, despida de escrúpulos éticos, mas isso não é majoritário.
Não se pode confundir uma árvore com a floresta toda. Quando Guttemberg inventou os tipos móveis de imprensa, fundidos em chumbo, o marceneiro escolhido para a confecção perguntou a ele se tratava-se de uma máquina para espremer uvas. Ele respondeu que sim, pois era o projeto de uma máquina que iria produzir um vinho capaz de matar a sede de saber da humanidade.
Diria isso por mero espírito de classe, por causa do exercício da minha profissão? Não, porque estudo o assunto há meio século e, sem falsa modéstia, me considero suficientemente preparado para racionar sobre esse tipo de questão. A primeira delas é o “minuto de fama”, que alguns “especialistas” dizem ser a motivação única nesse tipo de caso, pelo espírito de imitação. Cada caso é um caso. Certo que foi assim quando Mark Chapman matou a tiros o cantor e compositor John Lennon, em 1980, na cidade de Nova York. Aliás, no caso Lennon temos uma lição em paralelo: Chapman, condenado à prisão perpétua, vive encarcerado até hoje. Se fosse aqui... é bom pensar nisso também.
Aliás, entre nós bandido procura camuflar-se, e não dar as caras para aparecer. Não quer ser apanhado, foge, conta com a impunidade. É assim na maioria absoluta dos crimes contra o patrimônio e a vida, dentre tantos outros previstos pela nossa legislação penal. O assassino de Santa Catarina era um desses tipos. Não deveria estar solto, mas estava. Culpa de quem? Da mídia?
Vamos a Blumenau. Anjinhos mortos. Crianças amedrontadas, pais inconsoláveis. Que fazer? Análises, discussões, bate-bocas estéreis?
Só sei que as crianças que sobreviveram estão querendo dormir junto com os pais. Estão com medo. Sentem-se desse modo mais protegidas, seguras. Pais precisam engolir as lágrimas, fazer um esforço terrível para não demonstrar a elas que estão agoniados.
O que posso fazer, aqui no meu canto? Pedir perdão. Aos anjinhos, descansem em paz. Aos coleguinhas, peço perdão, se é que posso falar alguma coisa em nome da sociedade.















