Apaixonada por presidiário do Carandiru, advogada largou a família para viver um amor bandido

Romance de advogada com presidiário começou dentro do Carandiru
Romance de advogada com presidiário começou dentro do Carandiru Foto: Rogério Assis/Folhapress - 16/09/1998

Nos dias de hoje está se tornando comum o envolvimento de jovens da sociedade, jovens advogadas, com os criminosos. Muitas chegam a abandonar a profissão para viver perigosamente. Tudo pela adrenalina de estar sempre na corda bamba, na linha tênue entre o bem e o mal. E muitas acabam percebendo, tempos depois, que tudo não passará da busca por um outro caminho. Um caminho muitas vezes sem volta.

E foi o que aconteceu com uma jovem advogada. Bonita, formada nas Arcadas do Largo de São Francisco, trabalhava em um escritório da família com clientes importantes. Tinha um lado de filantropia e escolheu analisar processos e defender presos do sistema carcerário de São Paulo com direito a liberdade e que continuavam na cadeia por não  ter condições de contratar um advogado. Faz alguns anos e nem se cogitava a instalação de uma Defensoria Pública.  E a Ordem dos Advogados do Brasil tinha um número pequeno de defensores para esse trabalho gratuito.

Um dia por semana a bela e jovem advogada, casada também com um advogado e com um filho de um ano e meio,  passava pelos altos portões da Casa de Detenção — que foi implodida pelo governador Geraldo Alckmin depois do massacre de 111 presos, em 1992 — para entrevistar detentos e dar informações sobre a movimentação dos processos com pedidos de regime semi-aberto, regime aberto e liberdade condicional. Todas as vezes que ela recebia presos do Pavilhão 8, o dos criminosos reincidentes, ela se encantava com as histórias de um deles: um assaltante de bancos. Era um homem negro, alto, forte, boa conversa, fora condenado e enquadrado na lei de Segurança Nacional por roubar bancos.

Naquela época, os autores de roubos a banco, ladrões comuns ou por motivação política, eram indiciados pela Lei de Segurança Nacional. Eurípedes era o nome dele. A jovem advogada aos poucos foi se aproximando do detento e se apaixonou por ele. Num dos encontros se beijaram, se abraçaram e, levada para uma cela, com a ajuda de outros detentos, eles fizeram amor. Desde aquele dia, a advogada colocou na cabeça que tinha que libertar aquele homem mesmo sabendo da longa condenação a cumprir e sem direito a pedido de qualquer regime da Lei das Execuções Penais a não ser dos recursos que poderiam ser impetrados para diminuir as penas.

Ela acreditava que, uma vez em liberdade, o ladrão mudaria de vida e passariam a viver juntos. Mas a situação do assaltante de bancos era diferente da maioria dos casos que a advogada acompanhava. Mesmo assim, cega pela paixão, decidiu que iria ajudá-lo "de qualquer  maneira". Um alvará de soltura foi preparado com base num processo em que ele já cumprira pena. Mas não poderia ser liberado porque ainda tinha outras condenações. Porém, auxiliada por colegas, ela conseguiu a libertação. Apaixonada, tinha deixado o marido, o escritório e também o filho, que ficara com a avó materna, tudo pelo amor bandido. Os dois foram morar num sítio da família dela num município da Grande São Paulo.

Quando as autoridades do sistema carcerário descobriram que o alvará de soltura não dava direito à liberdade final por causa de outras condenações, afastaram a advogada da assistência aos presidiários e passaram a procurar o ladrão. Ela acabou presa e confessou que ao pedir o alvará mentira sobre os antecedentes do bandido. Foram semanas na cadeia. Durante as buscas ao criminoso, os policiais apreenderam no sítio cartas escritas por ela para o assaltante. Cartas de amor e de queixa. "Fiquei esperando você com o jantar à luz de velas e você preferiu seus amigos criminosos".

Numa das cartas a advogada reflete toda a sua desilusão pelo companheiro.

— Preparei um jantar para nós dois, procurei fazer o que você gosta, arrumei a mesa, estava ultra feliz e ansiosa, mas procurava conter a minha ansiedade. 8 horas, 9 horas, 10 horas, 11 horas. Nada de você. Meia-noite, nada de você. 1 hora, nada de você. Fui para a cama. Estava angustiada, frustrada, ferida, preocupada, amedrontada. Não consegui dormir. Estava muito tensa.  Levantei às cinco e pouco assim que o dia começou a clarear. Me senti humilhada. Dona Mercedes — a empregada do sítio — viu que eu havia esperado você e que você não havia aparecido. Tirei a mesa. 7 horas, 8 horas, 9 horas da manhã e  nada de você. Eu precisava voltar para São Paulo. Tinha compromissos. Larguei marido, família e você continua com seus amigos que só se afundam cada vez mais.

Na carta, ela termina dizendo que ele deveria mudar a postura e não arrebentar a vida dos outros para ficar com amigos.

— Não sei se esta carta será lida por você. Mas pretendo guardá-la, pois ela diz muito para mim. Foi uma fase da minha vida que quero ter escrita para depois. A gente tem tendência a fantasiar a realidade vivida e tempos depois, até períodos negros ou vermelho sangue, chegam a parecer cor de rosa ou apenas acinzentados. Adeus.

No galinheiro do sítio os policiais encontraram armas usadas nos roubos a banco e muita munição.  Ele continuou assaltando. Após uma caçada implacável acabou  recapturado. Ela respondeu a processo e acabou absolvida. Eurípedes, depois de cumprir mais de 15 anos, saiu de São Paulo e não existem mais registros na polícia sobre ele.