Coronavírus, o inimigo ameaçador número 1
Um adversário desse porte tem de ser abatido sem hesitações ou tergiversações
Arquivo Vivo|Percival de Souza

Desta vez, o inimigo público número 1 não está localizado num lugar específico. O inimigo prioritário é global, planetário, invadiu os continentes e se transformou em pandemia. Seu nome é coronavírus.
Para enfrentá-lo, até aqui titubeios, vacilações, discordância em esfera babilônica. Observe a cidade: não temos sirenes gemendo, as ruas estão vazias e dentro de casa as pessoas ficaram confinadas, vendo a si próprias numa prisão domiciliar, sem direito a progressão de pena.
As medidas em vigor projetam sequências, não difíceis de prever. Dois sintomas: a diminuição de certos tipos de crimes. Um deles é a invasão de residências. Ela ocorria sempre nas manhãs, horário de as pessoas saírem para o trabalho, e no final da tarde, quando elas voltavam para casa. Agora, sempre com gente dentro da residência, os bandidos eliminaram essa opção criminosa. Perigosa para eles. Como ninguém sai, diminuiu o tráfico de drogas. Afinal, se alguém compra é porque alguém vende. Um é dependente do outro. São vínculos umbilicais. A bandidagem está preferindo, agora, roubar transeuntes, vítimas de assaltos ocasionais, aleatórios e de oportunidade. Dentro das casas, subitamente cheias de gente, surgem a alguns atritos familiares, causas de “desinteligência”, segundo o jargão policial.
Por cautela, o Judiciário mandou o Executivo liberar da prisão presos com mais de 60 anos de idade, numa conversão para prisão domiciliar, o que já está ocorrendo com os cidadãos em liberdade, e impôs restrições às visitas e à entrega de materiais, como os de higiene, contidos em grandes sacolas, que os presos chamam de “jumbo”, recordação do nome de um antigo supermercado.
A medida provocou reação do ex-juiz Sergio Moro, ministro da Justiça e da Segurança Pública. A razão é simples: há muito tempo, as chamadas “saidinhas” se transformaram num grande problema. É grande o número de presos que não retorna, pratica crimes, e não há critério para as liberações: as “saidinhas”, de modo geral, são autorizadas mediante critérios automáticos, meramente aritméticos. Por exemplo: uma presa sai no Dia dos Pais e das Mães, justamente as vítimas de assassinatos que ela praticou. Ou assassinos — pais, padrastos — de crianças que eles mataram. Detalhe: ninguém vai ao cemitério chorar pelos mortos. Como a aplicação prática da medida depende de autorização do magistrado da Vara de Execuções Penais, o ministro recomendou que ela, pelo menos, não se aplique a condenados por crimes graves, o que é minimamente lúcido. Seria uma ameaça para a sociedade inocente.
Outra consequência das medidas anti-coronavírus: os chefões do crime estão se adequando à situação, ordenando toques de recolher em lugares infestados (dane-se o direito de ir e vir) e dominados por traficantes, e ensaiando opções criminosas para dias que haverão de vir: migração do tráfico em larga escala para assaltos a banco, saques e sequestros.
Enquanto isso, não existe previsão racional sobre tais perspectivas do futuro. Na causa disso tudo, é preciso um esforço para deixar os palpiteiros de lado. Bate-bocas de certo tipo de autoridade são uma sandice absurda. Precisamos, agora, de autoridades, sim, que possam agir como estadistas, e não oportunistas que só pensam nas eleições em 2022, para tirar proveito político do status quo. Sem conhecimento técnico-científico, não se atenta ao detalhe de que o vírus possui material genético, mas fica na dependência de um ser vivo para conseguir a reprodução. Tudo começou com um morcego chinês (nada a ver com Batman) e virou-se a página da História, que mostra os estragos da chamada gripe espanhola (1918-1920).
As perspectivas para o futuro indicam problemas sociais graves, como a pobreza em grau extremo, derivando para a miséria, o que vai obrigar tais famílias sem condições a fazer alguma coisa. Principalmente nas favelas (sim, favelas; “comunidades” não passam de artifício semântico) em lugares onde a habitação é barraco, o esgoto corre a céu aberto e as condições de vida (?) são as mais insalubres possíveis, em lugares em que viver é um milagre sob terror permanente do crime, silente numa hora dessas.
Vai se esperar mais, muito mais, da segurança pública. Até aqui, as Forças Armadas estão pensando mais a respeito. A Polícia – Civil, Militar, Federal e As Guardas Municipais — não são consultadas para nada (!), mas na hora h serão convocadas para convencer velhinhos nas ruas a voltar para casa e tomar todas as providências necessárias para coibir os crimes como alternativas diante da situação atual.
As ordens do crime organizado — de dentro para fora dos presídios — estão em crise, porque só quem está fora pode avaliar a situação nas ruas. Observe-se que esse tipo de crime — grandes assaltos, tráfico de drogas (internacional, inclusive) e contrabando de armas e munições, possui um verdadeiro “setor de inteligência”, que supera muitas vezes a “inteligência” oficial, dependente de burocracias. A clandestina (dos bandidos) age com regras próprias, à margem da lei, mas eficientes.
Aqui, é necessário acrescentar algo, bem sintetizado pelo escritor indiano Pankaj Mishra: “falta-nos inteligência para as questões da alma”. Questões essas que apontam para almas que estão infectadas por um vírus com nomes múltiplos: indiferenças, desigualdades, egoísmos, falta de solidariedade e amor (cidadania, digamos) para com os semelhantes. De repente, aprendemos com o coronavírus, esse poder letal, que ninguém vive sozinho, isolado numa bolha. Percebemos aos poucos que os próximos podem ser nós mesmos. A solidariedade passa a ser obrigatória. Ou nos juntamos ou perecemos. É isto a sensibilidade finíssima da alma, que nos anima, move, impulsiona, dá sentido ao viver.
Graham Greene, o escritor inglês, disse numa das suas obras que palavras são como as granadas: se mal utilizadas, explodem na boca. Essas granadas imaginárias estão explodindo em muitas bocas, que proferem tolices, coisas sem sentido, transformando combate ao coronavírus em virulenta batalha política. Tudo lamentável num momento de crise. Crise que vai nos remeter a um mundo novo, cuja construção é necessária e urgente.
A humanidade conseguiu vencer, no século passado, os ataques da malária, da febre amarela, da varíola, do sarampo, caxumba, rubéola, catapora, aids, meningite.
Chegou a hora e a vez dos mais vulneráveis ou com problemas de saúde pré-existentes, que merecem toda a nossa atenção, o nosso carinho, o nosso respeito, o nosso afeto. O inimigo planetário número 1 está atacando ferozmente. Vamos descer da torre de Babel. Inimigo desse porte tem de ser abatido sem hesitações ou tergiversações. E o coronavírus é o nosso grande inimigo.














