Cracolândia, o DNA do tráfico

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São repugnantes a decadência, a imundície e a ausência de medidas sanitárias na Cracolândia

São repugnantes a decadência, a imundície e a ausência de medidas sanitárias na Cracolândia

José Patrício/Estadão Conteúdo - 07.12.2011

Imagine um quadrado enorme, abrangendo ruas, praças e avenidas, dominado por dependentes químicos, traficantes, ladrões e agressores de quem ousar passar por ali. Imagine um quadrilátero urbano, com status marginal de terra sem lei, onde predomina o poder do mais forte e os fracos são dominados, oprimidos e pulverizados.

Imagine... Lembrando a letra da famosa música de John Lennon, coloque no imaginário um espaço onde, segundo cantava o beatle, não haveria paraíso acima e nenhum inferno abaixo. Imaginemos. Mas não é assim: o êxtase da droga supõe a existência de fuga para o paraíso. O inferno é ali mesmo, com residência fixa, no habitat dos mortos-vivos.

Imaginei tudo isso, para dimensionar o real sem ficções ou utopias, dando um giro completo pela apodrecida e vergonhosa Cracolândia, que neste 2022 continua resistindo ao tempo e completa 22 longos anos de lamentável existência. Conheci o lugar, amplo, quando ainda não era nada do que hoje é. Agora, como se fosse um turista curioso, fui percorrendo as suas referências principais...

Chega. São repugnantes a decadência, a imundície, a ausência de medidas sanitárias, a total impossibilidade de andar por esses lugares, principalmente em certos pontos e horários. É arriscado, quer de dia, quer à noite. Conheço o pedaço há anos, mas agora ficou demais. Entendo razoavelmente bem os assuntos relacionados ao tráfico e ao consumo, sei das desgraças que ambos provocam e, confesso, cansei-me das dissertações, teorias e poesias a respeito, simplesmente porque o quadrilátero gigante é um desafiador cemitério de teses infelizes ou inúteis, que digladiam há anos e anos entre si: policiais, promotores, juízes, psicólogos, psiquiatras, ativistas, religiosos de matrizes diversas, assistencialistas, especialistas em nada (a quadratura do círculo, talvez) e teóricos sem fim. Não há acordo político ou ideológico. Pseudoespecialistas ou urbanistas proliferam em disputas bizantinas entre gregos e troianos, fariseus e saduceus, fornecendo atestados de que nada sabem. O cavalo de Troia é cavalgado a galope pelo tráfico. O espaço, costumam dizer os achistas, é alimentado por pessoas que estariam na hora errada e no lugar errado. Mais um equívoco: o fluxo é alimentado, isto sim, por pessoas erradas, donas do poder dentro do espaço maldito. Quem está dentro não consegue sair. Quem está de fora adora dar palpites inúteis, aliás dos mais estapafúrdios ou mirabolantes, como se a cegueira deliberada pudesse atenuar algo. Quando aparece por lá alguém fora dos padrões tradicionais de definições, a reação é de espanto: a “gatinha da Cracolândia”, a moça bonita e de família estável, por ali? Como é que pode? Ou o irmão de Suzane Richtofen, a moça bonita que trucidou os pais. Como é que isso pode acontecer? Cinismo puro, dezenas e dezenas não saem dali, e ninguém quer saber dos fatos que teriam provocado tal situação. Afinal, que lugar é esse, onde o descontrole impera, o tráfico domina e o consumo arregimenta centenas de drogados, adictos, escravos de si próprios, incapazes de discernir qualquer coisa, e que ali, considerando-se libertos de uma sociedade putrefata, buscam um alívio na sedutora droga, quer em cápsulas, pedras, ervas, pó ou drágeas sintéticas, tudo isso despertando a vontade de consumir, e sempre, cada vez mais? O dependente, como a palavra está dizendo, depende. Para ele, a droga é alimento, como espinafre para Popeye.

Socorro! Mas pedir a alguém? O fracasso subiu à cabeça dos que deveriam ter algo a fazer.

A minha peregrinação por esse quadrado de lágrimas é nauseante. Cansei-me de ouvir o que outros dizem e preferi examinar in loco, mais uma vez, com meus olhos de ver e os ouvidos de ouvir. Calcula-se em volta de 600 o número de pessoas que gravitam permanentemente por ali. Já chegaram a ser 2.000. Uma tropa humana maltrapilha, malcheirosa, mal alimentada, atravessa ruas sem tomar conhecimento dos carros e com o olhar perdido, como se estivesse procurando alguma coisa, perspectiva que não existe. Sob barracas e bancas improvisadas, como se fossem tabuleiros de feira livre, a insofismável lei da oferta e da procura: alguém compra, alguém vende, não existe fiado ou amostra grátis. Paga ou sofre as consequências, que podem ser fatais. Se as vendas só podem ser assim, como arranjar dinheiro se ali ninguém trabalha? Não é preciso fazer grandes esforços de imaginação: furtos, roubos, ataques a transeuntes, lojistas, motoristas de carro com os vidros abertos, distraídos ao celular do qual nunca desgrudam, e por aí vai. Tudo bem? Não, tudo péssimo. Não se confunda com gente em situação de rua. É outra coisa: quem mora na rua, porque não tem alternativa, não quer se misturar. Aguarda por bons samaritanos.

Se não há paraíso, como cantou Lennon, o quadrilátero, sempre em expansão, tornou-se um purgatório de Dante, habitado por infelizes à espera de que algum dia apareçam cérebros racionais para contrastar com a droga que quer anular a razão e florescer a vontade de nunca ter. É isso o que quer dizer cheirar, fumar ou injetar algo nas veias. Salve-se quem souber dos efeitos. Mas qual é a gênese de tamanha degradação? A origem é sociológica. Nos anos 50, o bairro do Bom Retiro tinha áreas oficializadas de prostituição, com mulheres catalogadas e vacinadas. Vistoria médica e controle sanitário. A concentração principal ficava na rua Itaboca, posteriormente Cesare Lombroso, o psiquiatra que acreditava na aparência física e em características cerebrais para identificar criminosos potenciais.

No ano de 1953, sob o governo de Lucas Nogueira Garcez, um decreto extinguiu sumariamente a exploração oficializada do sexo. Expulsas do dia para a noite, as mulheres foram se transferindo gradativamente para lugares próximos ao Bom Retiro, dando origem ao trottoir – o andar em trajes provocantes pelas calçadas à procura de clientes. Nascia assim aquela que seria a famosa Boca do Lixo, onde se instalava o chamado “quadrilátero do pecado”, que incluía a rua do Triunfo e adjacências, delimitadas pela avenida Duque de Caxias, rua dos Timbiras, rua dos Protestantes, avenida São João, ruas Aurora, Vitória e dos Andradas.

Aos poucos, a Boca do Lixo se transformou em polo de produções cinematográficas. Paramount, Fox e Metro estiveram por lá. Contraponto com o lixo, nasceu a Boca do Luxo, bem sofisticada em relação à Boca do Lixo, com casas luxuosas que atraíam a atenção turística. A decadência gradual provocou o nascimento da Cracolândia, que não é nem lixo nem luxo. Tanto que na rua dos Timbiras havia o Tabu, restaurante frequentado por prostitutas, cafetões e policiais, tudo curiosamente num clima de maior respeito. No lixo, pontificavam personagens como Joaquinzinho e Hiroito, que mexiam com maconha e prostituição. O prédio número 83 da praça Júlio Mesquita era conhecido pelo vai e vem, que lhe valeu o apelido de treme-treme.

A Boca provocou o nascimento da Cracolândia, marcada pelo descontrole diante da ação de traficantes e uma concentração cada vez maior de consumidores de droga. Hoje ela é um território que pode ser considerado inexpugnável, apesar dos esforços de Roberto Monteiro, delegado titular da 1ª Seccional de Polícia Civil, que faz bem mais do que pode mas é incansável enxugador de gelo.

Passou da hora do confiteor, o “eu confesso”. Artífices do fracasso ao longo dos últimos 22 anos, confessem que não sabem lidar com o problema. Confessem que é necessário descobrir uma fórmula eficaz. Confessem que tem gente que prefere viver assim. Confessem que há pessoas que rejeitam dogmas da sociedade e a família. Confessar tem um lado bom: em direito, pode atenuar a pena. Em mais de 22 anos, já não daria para ter feito alguma coisa? A Cracolândia é uma vergonha horrorosa e condenatória para São Paulo. Confessem: não se sabe o que fazer. Admitir já seria um grande passo. Admita-se.

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