Fininho, o matador com sangue nos olhos

Mariel Mariscot e Fininho, membros do "Esquadrão da Morte"

Mariel Mariscot e Fininho, membros do "Esquadrão da Morte"

Ywane Yamazaki/Estadão Conteúdo – 11.03.1973

Ao longo da História, sempre houve na Polícia a aparição de um grupo com a pretensão de exterminar, como se representasse o bem na luta contra o mal. São Paulo não escapou à regra, e o expoente do bando, que se intitulava “Esquadrão da Morte”, foi Ademar Augusto de Oliveira, mais conhecido como Fininho.

Muitas e muitas mortes foram debitadas na sua conta particular. Matar parecia algo que o excitava, o pânico das vítimas lhe dava um prazer de sangue nos olhos.

A banalização da matança acabou por transformá-lo em personagem que provocaria o fim do bando, depois de dois anos de quase duzentas execuções sumárias, sem interferência alguma do Judiciário ou do Ministério Público.

Matar tornou-se um ato mecânico, com insensibilidade total, ausência de qualquer sentimento humano e morbidez em tornar-se alguém totalmente à margem da lei.

Dois exemplos da boçalidade de Fininho:

1- O bando matador tinha ponto de encontro num bar da avenida Duque de Caxias, chamado Moisés, próximo à praça Princesa Isabel. Ali os assassinos se reuniam para bebericar, antes de partirem para as jornadas sinistras. Numa dessas noites, Fininho bebia, sorrindo descontraidamente, quando foram avisá-lo de que estavam pingando gotas de sangue do porta-malas de seu carro, estacionado à frente do bar. Lá dentro, havia um cadáver e Fininho, contrariado, tomou um último gole de cachaça e saiu apressado, para jogar o corpo em algum canto da cidade. Na linguagem dele, “desovar o presunto”.

2- A ousadia do grupo chegou a tal ponto que ao escolher mais uma de suas vítimas, Antonio de Sousa Campos, o Nego Sete, entrincheirou-se nas proximidades da casa paroquial da Igreja Nossa Senhora de Fátima, em Guarulhos, numa tocaia à espera da chegada do condenado, alvejado por uma fuzilaria.

3- O que nenhum deles poderia imaginar é que, dentro da casa paroquial, o padre Geraldo Mauzeroll, um canadense, fotografasse, por uma pequena janela, o grupo de homens armados nos momentos que antecederam ao crime. Essas fotos, mais tarde, serviriam — em investigação da Corregedoria da Polícia Judiciária — para identificar os matadores. Fininho estava entre eles, junto com o delegado Sérgio Paranhos Fleury, entre outros. A prova foi considerada excelente.

Fininho e eu (de óculos), durante entrevista no Uruguai

Fininho e eu (de óculos), durante entrevista no Uruguai

Ywane Yamazaki/Estadão Conteúdo – 21.04.1978

Fininho seria um elo de ligação direta com essa história, como eu descobriria bem mais tarde. Algum tempo após tirar as fotos, o padre foi inspecionar uma obra no campanário da Igreja, quando despencou lá de cima, ferindo-se gravemente. Cada vez mais alheio a qualquer tipo de limite, o policial deu uma facada nas nádegas de um informante da Polícia, na praça Júlio de Mesquita, que atingido na veia femural morreu no local. Testemunhas não faltavam para o crime, e o delegado titular da área, Wilson  Richetti, do 3º Distrito Policial, sentindo-se afrontado, não hesitou em indiciar Fininho por homicídio. Foi este o ponto de partida para o fim do Esquadrão: a prisão preventiva de Fininho foi decretada e ele desapareceu.

Descobri-o hospedado num pequeno hotel em Assunção, Paraguai, de propriedade de um ladrão de automóveis condenado no Brasil. Ele concordou em ser entrevistado, fazendo-me uma série de revelações incríveis, uma delas justamente sobre a queda do padre na igreja de Guarulhos. Descobriu que o padre fazia inspeções regulares nas obras em andamento, escondeu-se e quando o padre apareceu, empurrou-o, gritando: “urubu maldito”. Fiquei perplexo, escrevi o que ele contou e a reportagem teve grande repercussão, pois esclarecia algo até então absolutamente misterioso. O padre, depois de recuperar-se dos ferimentos, retornou ao Canadá, onde terminou seus dias.

Depois de passar longo tempo no Paraguai, Fininho encontrou-se com Mariel Maryscott, membro do “Esquadrão” do Rio de Janeiro, também foragido. Os dois ficaram no mesmo hotel e eu o entrevistei também. Quando voltei ao Brasil, Fininho me pediu para entregar uma carta para a namorada, num salão de beleza na rua Cardoso de Almeida, bairro das Perdizes. Mariel foi enigmático quando nos despedimos, no aeroporto: “se precisar de mim, já sabe qual é a minha especialidade”. Mariel morreria fuzilado, anos depois, no Rio de Janeiro.

Fininho, esgotados os recursos de sobrevivência, desistiu de continuar fugindo e entregou-se à Justiça, sendo levado imediatamente para a Penitenciária do Estado. Ali, curiosamente, integrou-se perfeitamente aos criminosos cumprindo pena, assimilando a metamorfose de policial transformado em marginal. Foi quando resolveu dar uma cartada decisiva: mandou recado para o delegado Fleury, pedindo apoio financeiro, do contrário iria “cavar a sua sepultura”. A resposta de Fleury foi surpreendente: mandou entregar na cela de Fininho uma pá dentro de um saco de estopa, junto com um recado: “pode começar a cavar”. Fininho recolheu-se ao silêncio.

O poderoso Fleury conseguiu criar um presídio exclusivo para policiais civis, à semelhança do que acontece com a Polícia Militar, o que ajudou a amenizar as tensões existentes, já que a mistura de policial ou ex-policial com a massa carcerária sempre pode ser fatal.

Depois da entrevista informal com Fininho e momentos de descontração, tomando chopp, pude conhecê-lo melhor. Falava muito, como se precisasse fazer uma catarse verbal, e sorria mesmo falando de acontecimentos gravíssimos, como o planejamento da minha morte, como inimigo do “Esquadrão”, o que só não se consumou, segundo ele, porque tinha uma filha recém-nascida. Contou qual era o trajeto sistemático que eu fazia na volta do trabalho para casa. Ouvi atônito o relato. Ao final, tomei mais um chopp. Fininho gargalhou.

O meu contato, de quase uma semana, permitiu que eu fizesse um DNA do ”Esquadrão”. Percebi que Fininho e Mariel Maryscott travavam uma velada disputa para ver quem era o mais famoso entre os dois. Mariel fazia parte de um grupo chamado os “dez homens de ouro” da Secretaria de Segurança do Rio. Fininho não tinha nenhuma classificação semelhante, mas seu carro amarelo, com escapamento aberto, parado à noite em frente ao bar do Moisés, simbolizava uma baixa sociedade em tempos da antiga “boca do lixo”, hoje cracolândia.

Foi nesse bar que muitos viram, certa noite Fininho ostentando um chaveiro macabro, onde estava pendurada uma ponta da língua de Odilon Marcheroni de Queiroz, uma das vítimas do “Esquadrão” quer havia denunciado alguns matadores e depois “arrependeu-se” do que havia dito, por escrito, numa carta entregue à Justiça. Todos esses fatos evidenciavam a estreita ligação do “Esquadrão” com um bando de traficantes de drogas, por ele protegido numa guerra permanente com grupos adversários. 

Quando começaram os processos contra o “Esquadrão”, dois dos promotores designados para acompanhar os casos fizeram uma inacreditável carta-testamento, que me entregaram, para publicar caso lhes acontecesse “alguma coisa”. Nada aconteceu, mas as ameaças foram muitas, diretas e indiretas.

As atrocidades cometidas não encontraram paralelo, mas no caso de Fininho houve reciprocidade. A vítima escolhida foi alguém que merecia por parte dele um mínimo de afeto: a mãe.

A casa da mãe de Fininho foi invadida. A senhora idosa foi subjugada, estuprada e estrangulada. Ela não tinha nada a ver com nada, mas os algozes queriam fazer Fininho sofrer, como se o crime brutal pudesse purgar as centenas de assassinatos cometidos pelo “Esquadrão”, do qual Fininho foi um dos macabros expoentes.