Galinha, o bandido que amedrontava  a polícia

Pedro Belegi, o Galinha, contraventor, violento e implacável com os desafetos, inclusive policiais

  • Arquivo Vivo | Percival de Souza, Do R7

O homem não tirava do bolso um a lista de cinco nomes, escrita com tinta vermelha, e com ela nas mãos ele me disse: assim que soubesse qual deles teria atirado no seu filho, sua morte estaria imediatamente decretada.

Publiquei uma reportagem sobre a lista da morte, que provocou um alvoroço geral: os cinco nomes eram de policiais e o autor da ameaça era um bandido muito conhecido como sendo extremamente perigoso. Ninguém duvidava do que fosse capaz de fazer.

Eis o homem: Pedro Belegi, mais conhecido por “Galinha”, dominava, no bairro da Casa Verde, onde tinha um bar, um lucrativo jogo clandestino, chamado “ronda”, que atraia centenas de jogadores e o transformava num poderoso contraventor, algo como seria Ivo Noal, no jogo do bicho, na mesma São Paulo, e Castor de Andrade, no Rio de Janeiro.

Com uma diferença, porém: era violento, implacável com os desafetos, e não admitia nenhuma pedra no caminho. A Polícias inteira sabia da sua história: uma dessas pedras foi um investigador de polícia, que pretendia obter divisão de lucros na jogatina. Com o se sabe, jogo tido por clandestino é jogo com lugares certos, impossíveis de serem ignorados, a menos que remunerados, por policiais da área (vide o caso do coronel José Hermínio Rodrigues, na coluna anterior.)

Não se sabe a origem do apelido “Galinha”. Talvez pelo nariz adunco, em formato de gancho, não exatamente característico dos galináceos. Mas o rosto era mesmo uma carranca. Os dois, Galinha e o policial, marcaram um encontro para discutir detalhes do negócio escuso. O lugar escolhido foi o Avenida Danças, desaparecido espaço que ficava na rua Aurora com avenida Rio Branco, onde hoje estão instalados um posto de combustíveis e a Seccional Centro (1ª) da Polícia Civil. Ali funcionava um curioso taxi-dancing, onde mulheres dançarinas cobravam para bailar: o cliente picotava um cartão, marcando o tempo da dança para pagá-lo depois, e uma orquestrava tocava quase sem parar. Sentaram-se à mesa, conversaram e Galinha pediu licença para ir ao banheiro. Quando voltou, puxou a cadeira, mas não sentou-se: sacou de uma pistola e cravejou de balas o peito do investigador, sob gritaria das mulheres e correria dos músicos. A gravata do policial ficou encravada no peito.

Outro episódio marcante foi o assassinato de um rapaz que também pretendia obter dividendos nos lucros de Galinha. O bandido, desta vez, não puxou a pistola, mas uma faca. O rapaz pressentiu tudo, ajoelhou-se e pediu perdão. Foi tarde a percepção da periculosidade: morreu assim, ajoelhado, com muitas facadas no tórax.

O currículo criminal de Galinha circulava de boca em boca logo que se descobriu quem era o morto após perseguição de um carro por uma viatura ocupada por policiais da Rudi, as antigas e poderosas Rondas Unificadas do Departamento de Investigações, precursor do hoje Deic. Um dos ocupantes do carro perseguido foi baleado e morreu. Não havia nada para acusá-lo, a não ser um vago “suspeito”. A identidade do morto, porém, apavorou os policiais: tratava-se de Pedro Belegi Filho, jovem bancário - nada mais, nada menos, do que filho do temível Galinha.

No dia do enterro, Galinha, furioso, mandou desviar o cortejo para passar em frente ao sobrado onde morava um dos cinco policiais da Rudi. Dali, ao lado do caixão, berrou: “olha o que você fez com o meu filho”.

O pai ficou alucinado. Estava assim, em transe de ódio, quando o entrevistei, em sua casa no Bom Retiro. O quarto do rapaz estava intacto, tudo continuava arrumado como se ele estivesse vivo. Galinha me mostrou a lista com os nomes dos policiais da viatura da Rudi e foi explícito: assim que soubesse quem havia sido o autor do disparo fatal, iria matá-lo sem pestanejar. Publiquei exatamente isso, com um comentário de Galinha: um dos policiais, Radamés, havia dito que conhecia o pai do rapaz morto, conhecido explorador do jogo de ronda. Galinha retrucou: o policial o conhecia, de fato, mas porque todas as sextas-feiras passava num dos pontos de jogo para recolher uma caixinha.

Casa de Detenção, onde Galinha tinha privilégios e poderes paralelos

Casa de Detenção, onde Galinha tinha privilégios e poderes paralelos

MÔNICA ZARATTINI - 2.10.1992

Por causa dessa frase, Radamés me interpelou judicialmente. Mas antes da minha audiência, aconteceu uma outra, justamente pela morte do filho de Galinha, que a ela compareceu armado e foi preso.

Solto em vinte dias, procurei-o para lhe pedir que ratificasse, em juízo, o que me havia dito em entrevista. “Sem problema”, respondeu ele de imediato. No dia da audiência em que eu era o réu, cheguei ao Fórum acompanhado por Galinha. Radamés, a vítima nos autos, pediu proteção e ficou cercado por policiais. Eu, olhando à distância, esperei a hora de ser chamado pelo juiz para entrar na sala de audiência. Entrei, fiquei na mesma mesa que Radamés.

O magistrado me perguntou se eu confirmava o que havia escrito. Respondi afirmativamente. O juiz, então, quis saber se Galinha, ali testemunha, confirmava as palavras que teria me dito. Surpresa para o juiz e para mim. Galinha respondeu exatamente assim: “doutor, o rapaz aqui (eu) não escreveu nem a metade do que eu falei”. A seguir, desfilou uma série de impropérios contra Radamés, acusando-o frontalmente de participação direta na morte do filho. Fui absolvido, por óbvio, e Radamés retirou-se do Fórum escoltado, numa cena grotesca.

Os tempos passaram e eu era visto com um misto de admiração, respeito e raiva na Polícia, por revelar fatos que se preferia manter bem encobertos.

Galinha não mudou em absolutamente nada. Morto o filho, passou a dedicar mais atenção à filha, que conheci no dia que o entrevistei. Ela começou a namorar e, desde o começo da relação, Galinha deixou claro para ambos que não queria saber de muita enrolação, isto é, o casamento formal não poderia demorar.

Mas, pelos seus critérios, estava demorando e por isso marcou um encontro com a filha e o namorado. Foi de carro, com um motorista amigo. Filha e noivo sentaram-se no banco de trás. Galinha virou-se e perguntou para o rapaz: ”quando vocês vão se casar?” Resposta: “quando o senhor me der os móveis”. Foram suas últimas palavras. Galinha balbuciou “ah, é?” e disparou sua inseparável pistola contra os dois, que ficaram ensanguentados um sobre o outro. Galinha mandou o motorista descer e desaparecer, assumiu o volante do carro e dirigiu até o plantão do 2º Distrito Policial, no Bom Retiro, onde se apresentou ao atônito delegado: “doutor, tem dois mortos aí no carro parado em frente da delegacia. Fui eu”. O incrédulo delegado fez o flagrante de praxe.

Reencontrei Galinha na Casa de Detenção, cumprindo pena. Era, paradoxalmente, o preso de máxima confiança do diretor, coronel Fernão Guedes, a quem escoltava andando lado a lado, levando na cintura um enorme estilete, a faca da cadeia. Quando o coronel passava, todos os presos nas proximidades ficavam reverentemente de pé, com as mãos para trás. Os conceitos de disciplina nada tinham a ver com os de hoje. Era curioso ver Galinha, o terrível, ser tratado com regalias especiais concedidas pelo diretor, impensáveis para qualquer um.

Muito tempo depois, descobri que os privilégios de Galinha iriam além da imaginação. De vez em quando, ele tinha autorização para sair da prisão, respirar um pouco o delicioso ar da liberdade e retornar. A confiança do coronel nele era absoluta, e como diretor de um presídio super-lotado, onde regras e costumes são outros, nada ortodoxos, essa misteriosa relação tinha um lado compreensível. Os demais presos tinham medo de Galinha. E disso era tudo o que o coronel Guedes precisava. Naquele lugar, cemitério de elucubrações, tudo o que era proibido existia. O preço da disciplina em tese impossível. Inclusive Galinha com poderes paralelos.

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