Ivo Noal, o grande imperador do bicho

O banqueiro foi representante máximo de uma categoria incrustada em vários escalões do poder

  • Arquivo Vivo | Percival de Souza, Do R7

O jogo do bicho tornou-se muito popular, nunca perdeu completamente o espaço para as máquinas caça-níqueis, nem as cartelas dos bingos, nem a ronda ou o carteado. Tornou-se um império, com amplo poder político, influência na máquina policial e desafio permanente para quem ousasse enfrentá-lo, fatalmente eliminado como uma pífia pedra no caminho.

Assim floresceu e tornou-se monopólio o comando do banqueiro Ivo Noal, representante máximo de uma categoria com amplos poderes, incrustada em vários escalões e detentora de um poderio absolutista. Sucessor de Luís Noal, Ivo dotou o seu comando de uma logística que classificava os centros de apuração como “fortalezas”, de fato inexpugnáveis, distribuindo uma generosa caixinha que chegava ao epicentro do poder. Qualquer poder.

As origens do jogo datam de 1892, quando o barão de Drummond, no Rio de Janeiro, era dono de um zoológico e viu a falência bater irreversivelmente às suas portas. Foi quando pensou numa saída: vincular a compra de ingressos a 25 números, cem dezenas de 0 a 99, simbolizados por animais do zoológico, que por sorteio contemplariam o ganhador como num pagamento de aposta.

O jogo do bicho tinha poder político, influência na máquina policial e desafiava quem ousasse enfrentá-lo

O jogo do bicho tinha poder político, influência na máquina policial e desafiava quem ousasse enfrentá-lo

O jogo tornou-se um sucesso a ponto de haver gente, muita, que acreditasse em adivinhações do bicho ganhador por meio de sonhos. Haveria, assim, uma espécie novo José, não o do Egito, a revelar para alguns a magia da fortuna. Chegou-se a ter reveladores de palpites, consultados e pagos, como se o jogo do bicho tivesse suas pitonisas exclusivas. A jogatina cresceu tanto, mas tanto, que se tornou proibida em 1941, por força de lei, perdendo a legalidade para a loteria esportiva, que não tem bichos mas cultiva os números. A diferença é que as pessoas mais idosas nunca perderam o hábito de jogar, fazer um a “fezinha”, como diziam e dizem. Aliás, a segurança no pagamento dos prêmios era total, uma questão de honra. Mesmo que os valores sejam altos, quando alguém, por exemplo, acerta na “cabeça”, isto é, a exatidão dos números contemplados, uma banca centralizadora quita o débito, honrado em qualquer circunstância. Não existe calote no bicho.

Tive uma ideia do alcance dessas manobras quando o secretário de Segurança escolhido pelo governador Franco Montoro, nos anos oitenta, foi procurado em sua casa, no bairro de Pinheiros, por um advogado que se apresentou como representante da cúpula do jogo do bicho. O professor Manoel Pedro Pimentel, titular de Direito Penal na USP, o novo chefe de Polícia, ficou surpreso. O advogado não usou meias palavras: disse ao professor que o jogo do bicho mantinha várias caixinhas, e uma delas era justamente para o gabinete do secretário de Segurança, que ele estava prestes a assumir. Queria saber, por isso, qual seria a “orientação” do novo secretário. A resposta foi ser expulso da casa, imediatamente, sob pena de prisão em qualquer tentativa de investidas em algum setor da Polícia.

O professor Pimentel, de quem fui muito amigo, me disse que eu precisava saber desse fato, dentre tantos outros que me revelou, para qualquer análise sociológica-policial futura. Pediu-me, também, indicações sobre nomes qualificados para ocupar postos chaves nas Polícias Civil e Militar. Relutei. Mas ele me convenceu: “este é um serviço que você prestaria, com sua experiência, para o Estado. É o Estado que te pede”.

À minha memória, vieram, então, fatos pretéritos. Nos anos sessenta, o comando de jogo tinha Ivo Noal como expoente, mas o domínio pertencia a quatro homens. Era a chamada “Quadra”. Numa conspiração que misturou Maquiavel com Descartes, conseguiu-se armar uma arapuca jurídica para Ivo Noal, que foi preso e condenado a dois anos de prisão, fato inimaginável para o personagem e o status quo.

O primeiro paradeiro foi o Recolhimento de Presos Tiradentes, hoje um portal na avenida do mesmo nome, onde amargou dias de cárcere, no mesmo lugar onde esteve Monteiro Lobato, o cantor Nelson Gonçalves e mais tarde Dilma Rousseff, antes de ser transferido para a Casa de Detenção, na avenida Cruzeiro do Sul.

Fiquei mentalizando cenas de Ivo Noal. Transtornado, raivoso, vingativo, com o espectro da traição rondando a sua cabeça. Era o momento propício para um ataque jornalístico-psicológico. Freud, Lacan e Pavlov me ajudaram muito nessa empreitada que ajustaria teorias a uma situação específica.

O método que adotei foi visitá-lo seguidas noites, graças a um funcionário do presídio que foi fundamental na empreitada, para convencê-lo de que sua prisão tinha sido uma artimanha, repleta de sordidez, e que ele tinha razões mais do que suficientes para estar enraivecido: tinha sido traído por um grupo de Judas do bicho. À medida em que eu falava, ele, quieto, assumia postura de concordância. Foi o momento psicológico da grande cartada: “Você foi traído. Sua vingança pode ser me revelar tudo sobre os bastidores do jogo, eu faço uma série de reportagens contando tudo, preservo você como fonte, e seus concorrentes ficarão nus no meio da rua”.

Ivo sorriu. Percebi o significado concordante desse sorriso. E assim fui informado sobre todas as minúcias da estrutura do jogo do bicho, com endereços dos pontos de aposta, fortalezas, caixinhas, destinatários, tráfico de influência. Tudo. Um raios-x. Um DNA. Programei uma semana de matérias para o “Jornal da Tarde”, hoje extinto, informando sobre esse cronograma para não haver insinuações futuras. Emissários souberam da matéria programada. Ofereceram-me vinte mil cruzeiros, uma pequena fortuna à época, para “esquecê-la”. Escrevi também contando sobre essa oferenda.

As matérias provocaram tremores, quedas, vergonha, desmascararam comprometimentos e ligações comprometedoras. Fez-se de tudo para se descobrir como eu conseguira ficar sabendo de tudo aquilo. Mantive o segredo e o trato com Ivo. Somente hoje, nessa coluna, ele octagenário, vítima de um AVC há dois anos, é que estou revelando esse segredo guardado por tantos anos. Dono de muitas propriedades, entre elas uma mansão na praia da Feiticeira, em Ilha Bela, chegou a ter mandado de prisão expedido pela 6ª Vara da Justiça Federal em São Paulo, acusado de crimes contra a ordem tributária. Hoje, amarga disputas familiares pelo patrimônio acumulado.

Em outros tempos, sua capacidade de reação seria maior, como naquela assembleia de banqueiros, onde advertiu que estavam querendo entregar o touro para as piranhas e isso ameaçava as vacas de irem para o brejo. Metáforas do bicho para enfrentamento de uma determinada situação. Foi acatado, como uma espécie de filósofo do jogo e conselheiro.

Na Casa de Detenção, onde tinha espaço no andar da diretoria, divertiu-se ao saber o que eu lhe contava sobre o terremoto e soterramentos causados por suas revelações.

Quando saiu, fui convidado para um café no seu apartamento, na avenida Angélica. Montado para exibir ostentação, gosto duvidoso, mas um objeto de decoração, numa mesa de jantar, me chamou a atenção: uma enorme e maravilhosa presa de elefante. O marfim ocupava toda a extensão da mesa. Como aprecio elefantes (tenho uma pequena coleção de enfeites), não gostei de ver aquilo, mas não pude deixar de admirar. O paquiderme dá lições de vida: retira-se da manada quando pressente a morte. Quer estar sozinho quando ela chegar. Sua pele é espessa, sempre capaz de enfrentar os desafios da floresta. Não sei se Ivo Noal sabe dessas coisas.

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