Malandro engraxate surdo-mudo falava e roubava a própria polícia
Enganou a todos durante anos
Arquivo Vivo|Renato Lombardi

O prédio do antigo Departamento de Investigações Criminais — Deic —, na Rua Brigadeiro Tobias, no bairro da Luz, onde hoje funciona o Palácio da Polícia e o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), era agitado de segunda a sexta. Nos andares estavam instaladas as delegacias que combatiam os furtos e roubos, os homicídios, estelionatos, roubos a banco, vadiagem, centro de operações da Polícia Civil — o Cepol —, a Delegacia Geral de Polícia, e no térreo a Companhia de Processamentos de Dados, a Prodesp, com seus computadores que arquivavam centenas e centenas de fichas de criminosos.
No quarto andar, a esquerda do elevador, o corredor levava para a Delegacia de Roubos a Banco onde policiais experientes viviam em luta com as quadrilhas de assaltantes. E a polícia vencia na maioria das vezes. Pelos corredores se misturavam policiais, testemunhas, jornalistas, vendedores de sanduíches, doces, livros. E um engraxate que pela sua particularidade chamava a atenção: era surdo e mudo e especialista em batucada com os panos e as latas de graxa.
O movimento intenso muitas vezes confundia os que eram “da casa” e os visitantes. Na portaria poucas pessoas se identificavam. Época em que a polícia era diferente com delegados e investigadores interessados em esclarecer crimes, em trabalhar horas e horas sem se importar com tempo, folga, dias da semana. A Delegacia de Roubos a Banco tinha montado uma equipe de elite. Os seguidos roubos a banco que começaram com os que enfrentavam o regime de ditadura estendeu-se depois para o crime comum. E era preciso ter gente especializada para cuidar desse tipo de crime que aumentava a cada mês. Naquela época não se explodia banco ou caixa eletrônico.
O então diretor da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio, delegado Jorge Miguel, recrutou investigadores da temida Delegacia de Roubos e designou Oscar Matsuo para chefiar. Policial de primeira linha, Matsuo escolheu a dedo os seus subordinados e as prisões começaram. Em pouco tempo o número de roubos a agências bancárias diminuiu. E uma das prisões comemorada foi a de um motorista que roubara um blindado de uma empresa de transporte de valores no Paraguai. A polícia chegara até ele depois da descoberta de uma vila de casas comprada em nome da mulher do ladrão.
Se o sucesso era grande com os assaltantes, Matsuo e seus policiais tinham um desafio que os incomodava: descobrir quem estava furtando armas das gavetas das mesas dos policiais em todo o departamento. Em menos de um mês mais de 30 armas tinham sido levadas sem que o responsável deixasse qualquer rastro.
As apurações, em absoluto sigilo, miravam os próprios policiais, os informantes apelidados de “gansos” que tinham total liberdade nas delegacias e os visitantes. O pessoal “da casa” foi excluído. As duas vendedoras de sanduíche também. Mãe e filha que faziam sanduíches de carne louca como ninguém, doces em calda, sucos naturais e refrigerantes, namoravam dois investigadores que eram de confiança de Matsuo. Até o vendedor de livros que frequentava o prédio havia mais de 10 anos foi investigado. Seguido por um bom tempo acabou afastado das apurações: era evangélico, tinha horror a armas, cuidava de um asilo e vivia fazendo serviços na casa de praia de um delegado que conhecia toda a família.
Numa tarde, Matsuo teve uma ideia e decidiu colocá-la em prática. Assim que entrou na sala do delegado com sua caixa de madeira, seus panos e suas latas de graxa, o surdo e mudo que todos conheciam por Mudinho foi lustrar os sapatos do policial como fazia todas as segundas. Matsuo mandou trancar a porta. Até aí nada de anormal porque era comum para que visitantes não vissem o policial na hora de trabalho engraxar os sapatos.
Depois chamou dois policiais — descendentes de japoneses como ele e deu a ordem.
— Vamos rachar essa história das armas hoje. Peguem o Mudinho, levem lá pra baixo e pendurem. Vamos ver o que conseguimos.
O engraxate não entendeu ao ser seguro pelos braços e pensou que era brincadeira do chefe dos investigadores. Mas arregalou os olhos quando foi levado para uma sala do terceiro andar onde eram feitos os interrogatórios. Gesticulou, urrou durante o caminho e continuava não entendendo.
— Levem e pendurem no pau de arara que eu desço depois para interrogar, disse Matsuo quando os policiais e o engraxate se preparavam para entrar no elevador.
O engraxate sabia que depois das sete da noite, uma hora depois de encerrado o expediente, os famosos interrogatórios do Deic começavam. E Matsuo não teve tempo nem de descer. Um dos policiais entrou na sala e avisou dez minutos depois.
— O Mudinho entregou.
— Como assim. Ele através dos gestos entregou quem levou as armas?, surpreendeu-se Matsuo.
— Não chefe. Ele falou. O cara não é mudo. O cara nos enganou nestes anos todos — Mudinho frequentava o prédio do Palácio da Polícia havia quatro anos.
Pouco depois o engraxate chegou na sala de Matsuo e como por milagre começou a falar. Disse que se passava por surdo-mudo para que as pessoas tivessem pena dele, ajudassem, não atrapalhassem sua entrada no prédio e que as armas tinham sido entregues a um guarda noturno de uma cidade da Grande São Paulo onde os dois moravam.
Contou que a primeira arma — de um delegado — estava numa gaveta aberta. Ele pegou, descarregou, colocou dentro da caixa junto com os panos e as latas de graxa e saiu da delegacia e do prédio sem problemas. Quase todas as semanas ele levava uma arma. A surpresa foi geral. O guarda noturno também foi preso e as armas, que tinham sido vendidas, foram recuperadas. Indiciados por furto, o engraxate desapareceu do prédio. E com o passar dos dias foram feitas mais descobertas: Mudinho cantava. Era calouro dos programas como os de Silvio Santos e tinha o nome artístico de Tenorzinho de Mogi das Cruzes.














