Num crime bárbaro, o doente Champinha dilacerou os sonhos da linda Liana Friedenbach

Reprodução/Record TV

Uma das coisas que aprendi a fazer, e não paro de recomendar, é olhar bem no fundo dos olhos das vítimas. Sejam das sobreviventes, sejam os familiares dilacerados pela sangria das almas profundamente feridas em eterna cicatriz. Só eles têm duas funções: ver e chorar.

Assim fiz com o pai de Liana Friedenbach, uma menina de 16 anos, estuprada e assassinada a golpes de facão. A cena do crime é de barbarismo explícito. De fazer tremer mesmo quem, como eu, já viu muitas das piores coisas dessa vida.

Olhei bem nos olhos do senhor Ari, o pai de Liana. Os olhos dele possuem tom esverdeado, uma bela cor. Quando tinham motivos para brilhar, eram muito bonitos. Agora, não brilham mais: vi-os umedecidos, como se faiscassem dor e saudades. É difícil para um ser humano encará-los. Dá um nó na garganta, as palavras ficam sufocadas quando se olha para um pai que teve a filha trucidada por alguém que foi além dos limites da estupidez humana. A inteligência, sabemos, tem limites. A estupidez, não: o estúpido, o boçal, sempre quer avançar.

Liana era uma menina linda. Aos 16 anos, sonhos de adolescente a levaram a enganar os pais, inventando uma história de fim-de-semana em retiro da comunidade israelita, na verdade um sumiço para ficar com o namorado, Felipe Café, 19. Dormiram no vão do prédio do MASP, avenida Paulista. Pela manhã, tomaram um ônibus para Mogi Guaçu, onde escolheram um ponto ermo em região de mata para acampar. Numa barraca, estavam isolados do mundo e mergulhados em seus sonhos.

Foi aí que apareceram do nada dois vagantes moradores da região. Viram a barraca e os jovens lá dentro, aproximaram-se, perceberam a fragilidade de Liana e Felipe e imaginaram coisas. Dinheiro, os dois não tinham muito. Sequestro, seria arriscado, a menina era da Capital. Então...

A dupla da mata tinha um cérebro sinistro de comando. Um certo Champinha. Durante três dias, Liana foi sucessivamente estuprada. Felipe era apenas um incômodo, um estorvo, um obstáculo. Viveu o suficiente para ouvir, imobilizado, os gritos desesperados de Liana. Sua agonia terminou com um tiro na nuca com aviso prévio.

Restou Liana e seu pavor que ninguém poderá descrever. Anteviu a crueldade do destino traiçoeiro. Champinha, após satisfazer-se repetidas vezes, decidiu matá-la. Horrível: com um facão, tentou a degola. Não conseguindo, seguiu golpeando a menina muitas vezes, até os gritos se reduzirem a silêncio. Pronto. Champinha havia concluído, a sangue frio, a sua obra macabra.

Os corpos na mata foram localizados pelo COE, o Comando de Operações Especiais da Polícia Militar, tropa especializada em ações desse tipo. O algoz Champinha passou a ser o alvo das observações, muitas delas cândidas, diante do desafiante enigma chamado “menor infrator”. Decifra-me ou devoro-te, dizia aos viajantes a esfinge da mitologia antiga do Egito. Tinha corpo, garras e cauda de leão. Cabeça de ser humano.

Champinha, na época do crime (novembro de 2003), tinha a mesma idade que a sua vítima Liana. 16 anos. Era forte como a representação da esfinge. Suas garras para a frágil Liana eram um facão e uma arma de fogo. A arma para Felipe. A esfinge gritava e continua gritando para sociedade: se você não me decifrar, vou te devorar. Devorada lentamente, a sociedade criou eufemismos semânticos para suavizar a brutalidade e a estupidez dos Champinhas da vida: é um assassino sanguinário? Não, ele é um “infrator em conflito com a lei”. Deve ser preso? Não, receber medidas “sócio-educativas”, seja lá o que possa significar isso. Ele cometeu um crime gravíssimo? Não, apenas um “ato infracional”. Assim desfilam ladainhas e mantras, envoltas pelo manto diáfano da fantasia, como diria Eça de Queirós, para esconder-se de qualquer confronto com a realidade.

Champinha, o assassino do casal de namorados
Champinha, o assassino do casal de namorados Reprodução/Record TV

Uma distância como a de abismo separa a planície do Planalto. Como não se sabe mais o que é a pedagogia da pena, ou da internação, o que a esfinge ameaça sem parar a sociedade é a simetria, cada vez mais nítida, entre crimes graves de adultos e atos infracionais nada suaves, como roubo à mão armada, matar para roubar, estupro e tráfico. Como consequência, a faixa etária cada vez mais reduzida na população carcerária acima dos 18 anos de idade. A esfinge se delicia com a cegueira diante dos fatos: os menores “internados” de hoje são os habitantes dos presídios de amanhã.

Não muito tempo depois, uma equipe “especializada” da ex-Febem (outro eufemismo, agora Fundação Casa), chamou a família de Champinha e comunicou que o adolescente, “recuperado”, iria “passar o Natal em casa”. Alegria, alegria. Diante da indignação da “imprensa burguesa”, como dizem os apedeutas em criminologia, o governador do Estado, minimamente sensível, mandou que um novo laudo fosse elaborado pelo Imesc, Instituto de Medicina Social e Criminologia. Esse laudo apontou o primado do real. Champinha não foi para o Natal em casa porque não poderia ir. O novo linguajar técnico trocou “recuperado” por “portador de personalidade antissocial”. Impossível discordar diante do que jamais poderá ser desfeito.

Os que consideram Champinha apenas um coitadinho, não desistiram. São portadores de uma vontade e ousadia indescritíveis. Bateram às portas do Superior Tribunal de Justiça à busca de um habeas-corpus, porque Champinha havia crescido um pouco mais e, adulto, mereceria ser solto. Resposta: não. Nova tentativa: o constitucional Supremo Tribunal Federal, transformado também em Corte penal. O relator, ministro Teori Zavascki, antes de morrer em acidente aéreo, também foi pela negativa. Detalhe: recorrer às Cortes Superiores custa um bom dinheiro. Pague quem puder. Não me consta que Champinha tenha condições de pagar bons honorários.

Volto a me fixar nos olhos de Ari Friedenbach. O olhar dele fica turvo. Ari me conta mais uma: depois disso tudo, bandidos invadiram o seu apartamento, amarraram e amordaçaram a ele e seu filho, irmão de Liana, para roubar tudo o que pudessem. Longa agonia, ele amarrado, pensando menos no assalto e mais na situação vivida por sua filha.

O olhar de Ari é de sofrimento. Fatos passados e presentes, tormento, reminiscência, saudade, dor, pranto. Indignação permanente e não resignação passiva. O olhar de Ari é perturbador, penetrante, inquietante. Não consigo mais fitá-lo. Baixo os meus olhos. Entendo o que Ari sente. Sou pai de duas filhas. Sinto-me como um viajante confrontado pela esfinge. Só um conseguiu escapar. A esfinge o desafiou a contar quantas estrelas havia no céu. Ele respondeu: quantas meus olhos puderem alcançar. O viajante, poupado, prosseguiu viagem. Nós, sem resposta, temos dificuldade até em olhar bem no fundo dos olhos das vítimas. É mais cômodo desviar o olhar. Ou baixar a cabeça. É a vitória da esfinge.