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O caso da moça que se casou com o policial que a prendeu

Um caso de amor perfeito que acabou virando algo inesperado para todos, inclusive para a Justiça

Arquivo Vivo|Percival de Souza

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Assunta usou um revólver
Assunta usou um revólver

O ambiente pode não ser dos mais propícios, mas aconteceu no II Tribunal do Júri em São Paulo: a promotora encarregada da acusação compadeceu-se da ré, processada por autoria de homicídio, e pediu a sua absolvição. Os jurados, emocionados, concordaram. A jovem assassina saiu livre do Tribunal.

Uma história de Romeu e Julieta às avessas. O enredo nada tem a ver com Shakespeare, mas a história, típica de novela policial, estava resumida dentro de um processo, no qual não havia dúvida alguma de que a moça havia matado um rapaz. Aconteceu algo, porém, durante o julgamento, que mudou por completo o rumo da história. Ainda existe gente que costuma repetir, como se fosse um papagaio, que aquilo que não está dentro dos autos não poderia fazer parte do mundo. Como se o mundo coubesse dentro de um processo. Negativo. Às provas.

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TUDO NOS CONFORMES

Assunta era uma bela moça, recatada, filha de italianos, que vivia na casa onde imperava a moral vitoriana, à espera de que algum dia aparecesse o príncipe encantado. O pai, honestíssimo, era exatamente daquele tipo pai de Apolonia, a belíssima moça que encantou, na Sicília, a Michel Corleone, interpretado por Al Pacino no filme O Poderoso Chefão. Na casa de Assunta, o clima permanente era do maior respeito.

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Aconteceu de Assunta conhecer um jovem que parecia talhado para ocupar um lugar definitivo no seu coração. Como de praxe, ela exigiu que papai autorizasse o namoro. Foram apresentados, formal e solenemente.

Numa tarde, às escondidas, Assunta cedeu aos insistentes pedidos e foi encontrá-lo na pensão onde ele trabalhava e ali se conheceram intimamente. A moça voltou feliz para casa, mergulhada em sonhos e devaneios, certa de ter encontrado o homem para toda a vida.

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Preparou um jantar especial. Feita a refeição, o pai de Assunta disse a ela que precisava contar uma coisa muito importante. Aos poucos, e com jeito diplomático, disse para a filha querida que ela deveria livrar-se imediatamente daquele rapaz: ele, zeloso pela filha, havia feito uma rigorosa investigação e descoberto que o pretendente era... um homem casado!

Assunta, perplexa, não pronunciou uma só palavra. Chorou amargamente. O pai a afagou, também quieto, e ela se recolheu ao quarto para entregar-se longa e silenciosamente às lágrimas.

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No dia seguinte, tomaram o café da manhã, também em silêncio, e o pai, como de costume, saiu para trabalhar. Sozinha em casa, Assunta pensou, pensou... e lembrou-se, então, mergulhada em amargura, que o pai guardava uma arma escondida em casa. As ideias começaram a fervilhar na cabeça de Assunta.

ARMA

Recolheu o revólver, examinou-o cuidadosamente, viu que ele estava municiado, guardou-o na bolsa e foi para a pensão onde prestava serviços àquele que, idealizava, em breve seria seu noivo. Foi recebida com euforia. O rapaz, príncipe convertido em sapo, imaginou a repetição de outra jornada de amor. Em vez disso, recebeu dois disparos, um na cabeça e outro no peito. Morreu tão surpreso como havia ficado na inesperada visita. Morreu sem tempo de pronunciar uma palavra. Assunta também não disse nenhuma. Seus olhos e a firmeza no punho para os tiros certeiros, revelaram, porém, que estava determinada e com força poderosamente oculta.

Assunta saiu lentamente. Caminhou pela rua apenas o tempo suficiente para avistar uma viatura da Polícia. Fez sinal para ela. Os policiais pararam. Ela ficou imóvel na calçada. O patrulheiro desceu para saber o que estava acontecendo. “Acabei de matar um homem”. O patrulheiro sorriu: “Não tenho tempo para perder com brincadeiras”. Assunta, firme nas palavras, insistiu: “Matei mesmo. Foi ali” — disse, apontando para a pensão. “Vou ver. Se você estiver brincando, vou te prender”.

Diante da constatação da verdade, o policial a prendeu. Flagrante. Na prisão ela ficou, até o dia marcado para o julgamento. Não havia o que fazer: assassinato, arma do crime apreendida, confissão, vontade de se vingar, nenhum arrependimento.

JULGAMENTO

No dia do julgamento, o Tribunal do Júri estava lotado. Assunta, meiga, suave e bonita, encantava com a sua singeleza. A encarregada da acusação, a promotora Luzia Galvão, filha de um inspetor da Guarda Civil, estava sem ânimo. Fala-se muito, à época, em defesa da honra. Esse era um caso típico, só não era um homem que havia matado. O depoimento de Assunta, em plenário, foi comovente. Nada teatral, nada ensaiado. Explicou ao juiz, sem fazer drama, como e porquê. Alma transparentemente pura de Assunta, foi a impressão que ficou.

Não havia muito mais o que se dizer. Ao advogado, cabia apenas um arremate, que foi feito em menos de cinco minutos. Foi o suficiente. Todos iriam chorar. Jurados e plateia.

O advogado sintetizou a questão da honra ferida, o engodo, como a moça cândida se transformara momentaneamente em fera acusada, quais são os valores de uma família solidamente alicerçada, o beco sem saída diante de uma descoberta inaceitável. Como um príncipe pode ser sapo disfarçado.

Na primeira fila da plateia, um atento policial-militar acompanhava o desenrolar do julgamento. Tinha o quepe da farda sobre as pernas. Chorava, também.

O advogado pediu para ele ficar em pé. Ninguém entendeu a razão. Forneceu, então, a preciosa informação: o policial que estava assistindo o júri era exatamente aquele que prendera Assunta no dia do crime. Todos arregalaram os olhos. E implorou: se os jurados absolvessem Assunta, os dois iriam se casar! Já estava combinado!

A desembargadora Luzia Galvão
A desembargadora Luzia Galvão

O momento foi arrebatador. A emoção tomou conta de qualquer sintoma de razão. As personagens se transformaram nas principais testemunhas. Assunta ganhou a absolvição, não a friamente jurídica, mas a absolvição humana muito além das superfícies retóricas.

A promotora Luzia Galvão desistiu de acusar Assunta. Concordou com a absolvição. Os jurados nem pensaram em condenar Assunta. O julgamento se transformou em festa de confraternização. A ré casou-se e viveu feliz. Luzia Galvão, a promotora, foi promovida pelo quinto constitucional e se tornou a primeira desembargadora da históriado Tribunal de Justiça de São Paulo.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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