O médico e os monstros
Arquivo Vivo|Percival de Souza, da Record TV
O médico para o carro num semáforo da praça Beethoven, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. Dois motoqueiros se aproximam. O garupa, arma em punho, anuncia o assalto. O médico ergue as mãos e diz: “leva tudo”. Recebe um tiro na cabeça. Ao lado, um menino de 13 anos vê o pai esvair-se em sangue, agonizante. A morte anuncia mais uma ceifa.
Horror. Pavor. Terror.
A moto rapidamente desaparece. Para trás, fica no chão uma cápsula de projétil calibre 380, potente e destruidor, disparado por uma pistola semiautomática.
A proximidade dos festejos comemorativos dos 200 anos da Independência do Brasil ofuscaram o caso. Foi para as estatísticas, robustecendo a constatação de que o mal, simbolizado pela extrema violência, acaba sendo banalizado, ignorado, admitido, resignado.
O aterrorizado menino que viu o pai ser assassinado balbuciava, em prantos, palavras incompreensíveis. Estado de choque, olhos arregalados, chorando arfante.
A família também reagiria assim. A esposa e uma adolescente de 17 anos, irmã do menino-testemunha.

No mais profundo silêncio, o corpo foi sepultado no cemitério Gethsânime. Momento de profunda dor, compartilhado apenas por parentes e amigos. Nenhuma autoridade. Nenhum representante dos chamados defensores dos nem sempre compreensíveis direitos humanitários.
Resta a memória, difícil de ser carregada nas costas. O relógio não para de marcar as horas, mas segundos e minutos não passam. 0 tempo parece não caminhar, a dor golpeia incessantemente, e a tentativa de explicar o inexplicável atormenta. Impossível resignar-se.
Por que? Como pode acontecer uma coisa dessas?! Por que essa vontade de matar? Por que atirar na cabeça de um homem rendido, com as mãos levantadas? Teorizar o que, diante da viúva e dos filhos inconsoláveis?
Na praça com o nome do maior intérprete de música clássica de todos os tempos, não havia nenhum som para registrar o momento vazio. O vácuo deixado. O tormento. A saudade. As lembranças.
Ronaldo Vidal, o médico, tinha 54 anos de idade. Era cirurgião, CRM 79.943. “Lamentamos profundamente”, manifestou-se a entidade de classe. Trabalhava numa clínica e num hospital no ABC. Era afável, companheiro, alegre, gostava de jogar futebol em time de várzea na zona norte da cidade, a “Turma do Garrafão”, que se divertia quando Ronaldo comemorava seus gols dando cambalhotas.
A realidade da vida interrompida bruscamente por assassinos impiedosos, inescrupulosos, canalhas, covardes, parece não incomodar quem deveria ficar incomodado. Não dá para se conformar com a perda de Ronaldo. Um cirurgião. Um salvador de vidas. Um autêntico discípulo de Hipócrates. Coloquemos os pesos na balança. Num dos pratos, a vida do médico que se formou com ideais e princípios. No outro, um troglodita insensível, Brucutu das cavernas medievais. Pulha impulsionado pelo desejo de matar.
Pense: se você for assaltado, se dentro do seu carro você tiver uma arma encostada perto de si, se você se rende, levanta as mãos, submete-se, e mesmo assim é alvejado na cabeça, o que pensar do bandido atirador? Acrescente-se, no caso de Ronaldo, que ao seu lado estava o filho, menino de 13 anos. Que pai, numa hora dessas, não faria de tudo para proteger o filho? Seria natural um gesto instintivo de defesa e proteção. Mas Ronaldo levantou as mãos, submisso às ordens bandidas. Aí, sem mais nem menos, o disparo fatal.
Registre-se, a quem interessar possa, o trauma desse garoto de 13 anos, que levará na memória, para sempre, a cena do pai sendo baleado, espirrando sangue, tingindo de vermelho o banco, o painel, a ele mesmo no banco ao lado. Palavras não são suficientes para aplacar a dor, mas sinceramente eu gostaria que numa hora dessas aparecesse alguém com palavras de conforto, balsâmicas diante da tragédia implacável.
Resta-nos os números. Nos primeiros três meses deste ano, os casos de furtos aumentaram em 28,5% se comparados com o primeiro trimestre do ano passado. Nos casos de roubos, 7,4% de aumento.
Comparemos: esses números são causa de extrema preocupação para a sociedade. Considere-se que furto vem a ser subtração do bem alheio com emprego da violência. Já os roubos, popularmente chamados de “assaltos”, são praticados com armas de fogo ou branca, quando não com objetos transformados em armas, como pedaços de pau, martelos, pedras.
Daí, vivemos em tempos de promessas, agora que se aproximam as eleições de outubro, abertas para candidatos a presidente, governador, deputados federais e estaduais e senadores. Observe que todos eles empunham a bandeira da segurança pública. Em São Paulo, por exemplo, as preocupações dominantes giram em torno do roubo de celulares e a apropriação de dinheiro com vítimas em cativeiro, por meio de movimentações bancárias via Pix.
Curioso nesse cenário é que aqueles que colocam a mão na massa, ou seja, trabalham diretamente com isso – os policiais civis, militares e federais – jamais são consultados para algo que se possa fazer em termos de diminuição dos preocupantes índices criminais. Mesmo assim, há quem se diga “especialista” e se apresente como sábio na matéria, embora jamais sendo visto numa delegacia, quartel ou Fórum. Alimentam-se de estatísticas, produzidas não por eles, mas pela Polícia, que segundo dizem deveria submeter-se docilmente a seus palpites. Se a Polícia ficasse à deriva de seus devaneios, , estaríamos perdidos.
Um pálido exemplo: a Rota, que enfrenta os criminosos barra-pesada no dia-a-dia. Sim, nem sempre ela se depara com anjos e arcanjos. Isso é notoriamente pacífico. Entretanto, os “especialistas” gostam de chamá-la de “tropa letal” e ao mesmo tempo, de forma contraditória, de “tropa de elite da Polícia Militar”. Ora, como se pode simultaneamente ser “letal” e “elite”? Ou uma coisa, ou outra, nada pode ser ou não ser dentro de uma mesma visão.
A última ópera-bufa colocou na berlinda as Guardas Municipais, forte base de apoio para a polícia ostensiva, militar. Segundo o Superior Tribunal de Justiça, STJ, a partir de um episódio específico, elas não podem fazer abordagens, pois deveriam limitar-se a proteger instalações municipais. Com a palavra o comandante geral da Guarda Municipal de São Paulo, Agapito Marques: “considere-se regular o exercício do poder de polícia quando desempenhado pelo órgão competente nos limites da lei aplicável, com observância do processo legal e, tratando-se de atividade que a lei tenha como discricionária, sem abuso ou desvio de poder”.
Em outras palavras: o STJ tomou uma decisão, por sua 6ª Turma, a partir de um caso específico (envolvendo guardas de Itaquaquecetuba, SP). Mas isso não quer dizer que a regra seja geral, extensiva para todas. O Estado de São Paulo, por exemplo, tem mais de trezentas. Se um prefeito alucinado quiser transformá-la em guarda pretoriana, é coisa completamente diferente, cabendo – aí, sim – adotar as medidas contensoras cabíveis.
Finalmente: o médico Ronaldo Vidal não estaria morto se, antes, uma abordagem policial tivesse sido feita. Claro que a Polícia não tem bola de cristal e precisa basear-se no conceito, de fato subjetivo, de “atitude suspeita” para interceptar veículos e fazer revistas pessoais. Ronaldo perdeu a vida. Não se importaria se tivesse sido salvo por uma abordagem dos motoqueiros bandidos assassinos. Não importaria para o médico se seu salvador que na hora se apresentasse, fosse um padre, freira, pastor, policial civil ou militar, guarda municipal ou escoteiro. Importaria, isto sim, que ele continuasse vivo. Não está.














