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Percival: descobri que o esquadrão da morte planejou meu assassinato

Nos anos 70, o jornalista ficou sabendo, ao entrevistar um criminoso, que poderia ter morrido durante o período da ditadura militar

Arquivo Vivo|Percival de Souza

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Percival de Souza na redação do Jornal da Tarde, em São Paulo, em 1977
Percival de Souza na redação do Jornal da Tarde, em São Paulo, em 1977

No final dos anos sessenta, auge do período militar de arbítrio institucional, um grupo de policiais civis decidiu formar um bando que seria senhor absoluto da vida e da morte. Prisioneiros seriam retirados da carceragem do antigo Deic, Departamento Estadual de Investigações Criminais, e também do extinto Recolhimento de Presos Tiradentes, para serem sumariamente executados. Esses dois lugares abrigavam, juntos, cerca de 1.600 presos, ali enjaulados para “averiguações”, isto é, para que a Polícia os torturasse e descobrisse se eventualmente teriam feito alguma coisa que violasse a lei, ela própria violentamente violada.

Nascia, assim, o chamado “Esquadrão da Morte”. Percebi que esse grupo, predominantemente integrado por investigadores, precisava obter know-how na macabra matéria sangrenta. Então, o bando em formação foi sucessivas vezes ao Rio de Janeiro, onde um “esquadrão” já agia. O incrível disso é que fiz uma matéria contando exatamente o que estava para acontecer para o desaparecido Jornal da Tarde, vespertino do Estadão. Fui para o Rio, conheci Euclides Nascimento, o chefe do “Esquadrão” carioca, e outros tiras da pesada, como Hélio Guayba, Sivuca e outros que não faziam nenhuma questão de ocultar que matavam mesmo. Foram os mestres dos paulistas. Assisti a um jogo de futebol entre eles, na delegacia do Botafogo, e fiz uma reportagem com o título: “O Esquadrão entra em campo”. No Rio, o pretexto para o “esquadrão” surgir foi o assassinato do lendário detetive Milton Le Cocq, morto pelo bandido conhecido por “Cara de Cavalo”.


Para homenageá-lo, a Polícia do Rio criou a Scuderie Le Cocq, tendo como associados policiais, amigos e simpatizantes, com ramificação por vários Estados, inclusive São Paulo. Seu símbolo era uma caveira com duas tíbias cruzadas, tendo abaixo a óbvia inscrição “E.M.”, que todos sabiam ser o esquadrão da morte, mas que segundo eles queria dizer esquadrão motorizado. “Cara de Cavalo” foi transformado numa peneira humana, de tantos tiros que levou.

Le Cocq, o pretexto; “Cara de Cavalo”, o alvo da fúria. A matança era aplaudida. O jornalista David Nasser, da revista O Cruzeiro, uma Veja da época, descreveu os membros do “Esquadrão”: “os empreiteiros do general França (o então secretário de Segurança), os missionários de Jesus”. A heresia chocante não despertou reações. Tal como hoje, muita gente acha que bandido tem mesmo é que morrer.


Percival e Fininho, integrante do Esquadrão da Morte
Percival e Fininho, integrante do Esquadrão da Morte

Assim, com curso para matar a sangue frio e ocultar cadáver, os policiais ficaram apenas esperando que surgisse o pretexto paulista. E ele apareceu quando um investigador, Davi Parré, do Deic, foi morto pelo obscuro ladrão Saponga. No seu enterro, policiais deram muitos tiros para o ar, gritando alucinados: “para cada policial morto, dez bandidos hão de morrer”. E assim foi: Saponga virou a peneira paulista, versão de Cara de Cavalo.

As execuções tornaram-se rotineiras. O “Esquadrão” tinha até um inacreditável “relações públicas”, que telefonava para a antiga Central de Polícia, onde repórteres faziam plantão, para informar sobre execuções e os locais onde os corpos haviam sido jogados. Quem fazia as ligações era um delegado, Alberto Barbour, sem maiores preocupações com anonimato, embora se identificasse ao telefone como “Lírio Branco”.


Na avenida Duque de Caxias, próximo do monumento ao duque, havia um bar, o Moisés, um ponto de encontro dos matadores. Entre uma bebida e outra, policiais conversavam animadamente antes da desova que iriam fazer. Numa madrugada, um dos expoentes do “esquadrão”, o policial Fininho, como era mais conhecido o investigador Ademar Augusto de Oliveira, foi chamado dentro do bar e advertido: de seu carro estacionado à porta, um Simca amarelo, gotas de sangue estavam pingando do porta-malas. Tinha um cadáver lá dentro. Fininho tomou a última e saiu com o carro.

Escrever sobre esse esquadrão foi uma odisseia. A Polícia inteira se voltou contra mim. O jornal recebeu um ofício assinado por todos os presidentes de entidades de classe da Polícia Civil. Eu era visto com um inimigo. A Polícia do pensamento, o DOPS, Departamento de Ordem Política e Social, representou à Justiça Militar para que eu fosse enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Não recebi solidariedade de ninguém. O clima no País era de medo. Judiciário em silêncio. Ministério Público também. As coisas pioraram para mim: fui mostrando que os pseudos profiláticos sociais eram, na verdade, defensores de um grupo de traficantes, liderados por “Juca”, e exterminadores do adversário, “Miroca”.


O secretário de Segurança da época era o professor Hely Lopes Meirelles, professor de Direito (administrativo) nas Arcadas de São Francisco. A Polícia precisa de um papel celofane para bem embrulhá-la. O embuste continua em vigor até hoje. Dá um certo ar de respeitabilidade. Nunca se questionou essa circunstância, como se o professor não soubesse de nada que a sua Polícia fazia. Enciumada, a Polícia Militar criou não um esquadrão, mas o concorrente “pelotão da morte”. Matava menos, mas matava. E a matança seguiu, até o dia em que o presidente do Tribunal de Justiça reagiu e determinou providências. Já eram quase duzentos mortos. O desembargador Cantidiano Garcia de Almeida formou uma comissão de investigação, presidida por um juiz (corregedor), Nelson Fonseca, um procurador de Justiça (Hélio Bicudo) e três promotores: Djalma Lúcio Barreto, Alberto Marino Junior e José Sylvio Tavares. De todos, só Bicudo ficou na história. Os outros desapareceram na bruma do tempo.

Marino e Djalma fizeram uma carta-testamento e deixaram comigo, caso lhes acontecesse alguma coisa. Nela, denunciavam a pressão que sofriam pelo chefe do Ministério Público, o procurador-geral. O chefe do Serviço Nacional de Informações, coronel Faustini, chamou Bicudo no escritório em São Paulo, para intimidá-lo. Tirei minha esposa (uma heroína) de casa no último mês de gestação da nossa primeira filha, escondendo-a na casa de um amigo de fé, o repórter fotográfico Armando Vieira. É muito difícil, em certos tempos, remar em águas turbulentas contra a correnteza.

O relógio do tempo continuou marcando as horas. Membros do “esquadrão” foram presos e condenados. Fininho foi um deles. Refugiou-se no Paraguai. Consegui localizá-lo e entrevistá-lo em Ciudad del Este, outrora Puerto Stroessner. Encontramo-nos num hotel, de propriedade de um ladrão de automóveis em São Paulo, também foragido. Para minha surpresa, lá também estava Mariel Maryscott, outro foragido, membro do “esquadrão” do Rio de Janeiro.

Fiz uma série de reportagens. Fininho fez tenebrosas revelações: os membros do “esquadrão” eram recompensados, em espécie, pela Associação Comercial; um padre, o canadense Gerald Manzerol, foi por ele arremessado do campanário da Igreja Nossa Senhora de Fátima, em Guarulhos, porque fotografou o bando. Ficou de campana, ali, à espera de mais uma de suas vítimas e o padre os fotografou. “Urubu filho da p...”, berrou Fininho, antes de jogá-lo lá de cima. O padre não morreu, mas ficou gravemente ferido. Terminou os seus dias no Canadá, anos depois, já aposentado. Mariel Maryscott também fez revelações horripilantes.

Quando a longa entrevista terminou, Fininho me segredou que meu assassinato fora planejado dois anos antes, contando em detalhes qual era o meu rotineiro trajeto diário de volta do jornal para casa. O atirador vacilou na hora de apertar o gatilho ao saber que minha filhinha era uma recém-nascida. Suspirei fundo. Fininho apenas sorriu.

Vítima do Esquadrão da Morte com o símbolo do grupo
Vítima do Esquadrão da Morte com o símbolo do grupo

Despedidas no aeroporto paraguaio. Fininho me pede para entregar uma carta para a namorada, num salão de beleza que existe até hoje, na rua Cardoso de Almeida, em São Paulo. Entregaria. Mariel, que anos depois seria metralhado no Rio de Janeiro, me disse: “Se precisar de alguma coisa, já sabe qual é a minha especialidade”. Fininho teve morte natural. A mãe, idosa, foi estuprada e violentamente morta por bandidos vingadores, como se ela tivesse algo a pagar pela vida assassina do filho. É o ódio acumulado e sem rumo. Eu, nessas reminiscências, agradeço a Deus por estar vivo. Afinal, descobri na entrevista com Fininho que deveria estar morto há muito tempo. Graças, Senhor.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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