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Que sejam felizes os anos novos

O que gostaríamos é que os tempos de felicidade durassem muito mais do que um ano

Arquivo Vivo|Percival de Souza, do R7

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Não basta a gente se vestir de branco e fazer votos de paz
Não basta a gente se vestir de branco e fazer votos de paz

O Ano Novo chegou, com os rituais de cada um, as queimas de fogos de artifício e o acender de uma chama de esperança como alento para o 2020, do princípio ao fim. Isso depende de uma série de coisas, além do nosso alcance, mas no fundo, no fundo, o que desejamos é o abrir de uma nova temporada repleta de novas (e boas) perspectivas, o que desejamos, uns aos outros, nesses tempos de súbita ternura coletiva. Seria muito bom se fosse assim o tempo todo. Mas não é.

Para começar, o que gostaríamos é que os tempos de felicidade durassem muito mais do que um ano, a rigor curto espaço de doze meses. Por isso mesmo, o padre António Vieira, num dos seus encantadores sermões, pregou formulando votos de felizes anos novos, argumentando que ninguém se contenta com apenas um. É verdade, admitamos.

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Não basta a gente se vestir de branco e fazer votos de paz. A economia tem um peso muito forte, provoca efeitos colaterais com legiões de desempregados, as sinistras desigualdades sociais desequilibram a balança da harmonia, a violência conquista espaços cada vez maiores e a realidade é um espelho que, ao ser contemplado, causa desconforto.

As imagens desse espelho, porém, precisam ser muito bem vistas. Até porque quando não se gosta do que vê, não basta trocar o espelho. Ele continua a refletir a imagem, quer se goste ou não. Alguns deveriam saber fazer isso por obrigação institucional.

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Aqui entramos nós, como cidadãos brasileiros. Somos tratados como “leigos” por autointitulados “especialistas” em muitas áreas, nas quais preferem nos tratar como neófitos e a ver o conhecimento como privilégio de alguns poucos iluminados. É assim que deixo 2019 e entro em 2020 com um certo desalento, porque profissionalmente sou obrigado a dominar os assuntos criminais e saber interpretá-los, o que me obriga a entrar em rota de colisão com falsos “especialistas”, que não vão à Polícia, à Justiça, às prisões, ao mundo advocatício, nunca viram um bandido pela frente, mas agem como se fossem os grandes entendidos acadêmicos. Não são.

Vejamos, para exemplificar, alguns indicativos. Um deles é a expressão máxima da violência, o homicídio. A síndrome de Caim. Os falsos especialistas manejam números estatísticos para celebrar reduções nas taxas de assassinatos. É mentira por duas razões principais: 1- não existe como prevenir homicídios, porque nada há que impeça alguém de tirar a vida do semelhante; 2- os homicídios, exceto os múltiplos, que ocupam escala bem menor, acontecem todos de maneira interpessoal. Isso é absolutamente irrefutável.

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Enquanto se mascara a realidade com falsas “reduções”, chegamos à média brasileira de 60 mil assassinatos a cada infeliz ano novo. Ou seja: 161 a cada dia, um Boeing 737 caindo sem deixar sobreviventes. É de fazer nos corar de vergonha e indignação. As estatísticas continuam sendo manipuladas na varanda de Pilatos, como se tivesse sido feita a outorga de uma licença para matar. O que revela o espelho da realidade? Que nosso olhar é ridículo, beirando a irresponsabilidade. O aparato legal dá respostas de uma maneira obtusa: o matador fica solto porque é “primário”, tem “bons antecedentes” e “residência fixa”, podendo assim comparecer ao júri se quiser (muitos nem vão) e mesmo condenado recorrer da pena em liberdade, ainda que a dosimetria seja alta. Resultado: mata-se mais no Brasil, a cada ano, do que na China e na Índia. Mais do que Estados Unidos, Indonésia e China juntos. Mais do que na Ásia, Oriente Médio e Síria. Na América do Sul, mata-se mais no Brasil do que nos países vizinhos. Há nas ruas um exército de matadores, não só impunes, mas sequer identificados, pois a taxa de esclarecimentos em casos de autoria desconhecida é baixa (menos de 10%) – lamentável, porque nos EUA este nível é de 65% e na Inglaterra, salve a Scotland Yard, 90%. Como olhar para esses dados sinistros com cara de paisagem?

Há muito mais, porém. Somos o único País do mundo em que se considera como definitiva apenas a condenação após o périplo jurídico por quatro instâncias. Mas isso é coisa para bem poucos, porque bater às portas de um Tribunal em Brasília custa muito dinheiro. Os pobres que se lasquem. Essa é a verdade intrigante. Esperar pelo último recurso significa ser contemplado pela prescrição, quase dois mil casos catalogados em 24 meses. Ora, o Judiciário precisa olhar urgentemente para si próprio, mesmo porque ele custa muito caro (1,3% do Produto Interno Bruto), gasto equivalente apenas ao da Suíça, com o grande desconto de que lá a população é 25 vezes menor e a renda cinco vezes maior.

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Temos, ainda, a gloriosa classe política. Vendo o cenário brasileiro, com tanta coisa para ser feita e consertada, impossível para o cidadão brasileiro compreender como funciona a arquitetura dessa moderna torre de Babel, onde em profusão se vocifera uns contra os outros, deixando o bem comum de lado, movida a fisiologia ideológica e partidária, interesses corporativos acima de tudo e dignidade abaixo de quase todos. Mas, como observou a professora Silvana Batini, da FGV,”um Tribunal é para julgar, decidir. Se é para debater, debates acontecem no Congresso, na Academia”. O ministro Gilmar Mendes, do STF, já chegou a comentar que “se o Judiciário administrasse o deserto do Saara, em pouco tempo faltaria areia”.

Curioso que esse tema – os custos do sistema de Justiça criminal brasileiro – já veio à tona com o juiz da Vara de Execuções Penais de Manaus (AM), Luís Carlos Valois: “A cultura no Brasil é que a prisão é segregação. É depósito de seres humanos. Deveríamos fazer as coisas de maneira racional, de preferência científica”. O que quer dizer esse olhar para o umbigo jurídico? A pena é uma abstração, o chamado baixo potencial ofensivo um mero conceito (a sociedade está apavorada com o altíssimo potencial ofensivo e não com anjos dotados de asas criminais e querubins do bas-fonds). A sociedade está pagando a fatura do pânico.

Perceba, então, que a segurança pública, sendo um conceito amplo, interdisciplinar, é também uma sensação. Como cidadãos, precisamos nos sentir seguros, tranquilos, e não dominados pelo receio de sair e não conseguir voltar. Este é o preço que se paga diante de um Estado anárquico, ou simplesmente ausente, com espaços ocupados indevidamente, à margem das leis e as normas. A conta chega mais cedo ou mais tarde, o destino pode ser Paraisópolis ou cracolândia, ou a jovem engenheira tomando um tiro na cabeça durante um assalto em São Paulo, à véspera do Natal, mas aí será tarde demais para chorar o leite derramado. Garrafas de champanha estouram muita espuma na passagem de ano, mas intolerância e incivilidade dominam na maior parte do tempo. Tiro na cabecinha não pode, mas tiro na cabeça transformando a vida humana no artigo mais barato do mercado, também não pode. Polícia não pode exorbitar, mas também não se combate o crime combatendo a Polícia. Um batráquio “especialista” disse recentemente quer a rigidez das leis não inibe crime algum. Vive em outro planeta. O infeliz faz de conta que não sabe que a impunidade é mola propulsora do crime.

É rigorosamente nesse sentido que o ano novo pode ser feliz ou infeliz. Crimes provocam angústias, dores e cicatrizes nas almas, mas isso - é perturbador - não consta de nenhum processo, embora os autos tenham a pretensão inócua de retratar a realidade no mundo. Cuidador de almas não é atividade prevista no Código de Processo, mas é necessário: existem muitas almas feridas. 

De qualquer modo, o sermão de Vieira continua valendo. Não almejamos felicidade só para um, ano, mas para vários. Para isso, precisamos fazer perguntas e buscar respostas adequadas, porque, como também ensinou o pregador jesuíta, quem não pergunta... não quer saber. E quem não quer saber... quer errar, fugindo do primado do real, na sociedade repleta de contradições e conflitos.

Acertar os passos é preciso. Felizes anos novos!

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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