Romeu Tuma, o homem do Dops que sabia demais

Habilidoso diplomata, Romeu Tuma morreu em 2010

Habilidoso diplomata, Romeu Tuma morreu em 2010

Sergio Dutti/Estadão Conteúdo

Impossível saber minúcias dos meandros dos anos de chumbo sem recorrer a Romeu Tuma. Mas o diretor do Dops, a polícia da repressão política, morreu em 2010 sem biografia, sem registros históricos, sem interpelações. A chamada esquerda, sabe-se, não é unida nem na cadeia.

No caso de Tuma, houve silêncio misterioso sobre o delegado de polícia, que era uma espécie de habilidoso diplomata, que teve sob sua chefia, entre outros, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, ícone da repressão a serviço do regime militar.

Transitava livremente nos altos escalões da segurança, inclusive com o secretário, coronel Antônio Erasmo Dias, que comandou a Polícia com mãos de ferro, e estabelecia as conexões com o Doi-Codi, temível órgão do Exército.

O legista Wilmes Teixeira e o delegado da PF Romeu Tuma (d) demonstram para a imprensa que os restos mortais encontrados são mesmo do nazista Josef Mengele, em São Paulo. Mengele foi oficial médico chefe da principal enfermaria do campo de Auschwitz-Birkenau na II Guerra Mundial e cometeu atrocidades durante esse período. Na década de 40, fugiu para a Argentina e posteriormente se refugiou no Brasil

O legista Wilmes Teixeira e o delegado da PF Romeu Tuma (d) demonstram para a imprensa que os restos mortais encontrados são mesmo do nazista Josef Mengele, em São Paulo. Mengele foi oficial médico chefe da principal enfermaria do campo de Auschwitz-Birkenau na II Guerra Mundial e cometeu atrocidades durante esse período. Na década de 40, fugiu para a Argentina e posteriormente se refugiou no Brasil

Estadão Conteúdo – 21.06.1985

Tuma foi um milagre, portanto. Nenhuma comissão encarregada de passar a limpo o que aconteceu naqueles tempos chegou perto dele. Nem do Dops. Não se sabe exatamente porquê, a não ser o fato do ex-presidente Lula ter sido prisioneiro no Dops, sob a guarda de Tuma. Com forte dor de dente, um dia, altas horas, Tuma autorizou o dentista de Lula a dar um jeito no seu canal, no interior do Dops. Também permitiu a Lula a ser contemplado extraordinariamente com o fornecimento de pizzas. Tuma angariou muitos pontos com isso, além do silêncio dos opositores ao regime. Uma generosidade enigmática. Os desunidos uniram-se.

O aparato

Tuma foi superintendente da Polícia Federal em SP

Tuma foi superintendente da Polícia Federal em SP

Ricardo Chaves/Estadão Conteúdo - 07.12.1988

Os domínios de Tuma estavam localizados no número 66 do Largo General Osório, no imponente prédio projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo – o mesmo da Estação da Luz, do Teatro Municipal e da Penitenciária do Estado, hoje feminina. Ali funcionavam a Delegacia de Ordem Política, a Delegacia de Ordem Social e o Serviço Secreto.

A primeira agia como uma polícia do pensamento, ao estilo descrito por George Orwell seu livro “1984”. Sua função era detectar militantes de organizações que faziam o que se definia como subversão da ordem. Seu chefe era o delegado Alcides Cintra Bueno, maliciosamente apelidado de “Porquinho”, voraz devorador de coxinhas, razoável conhecedor das futuristas propostas marxistas (muitos leram, poucos entenderam), leninistas, stalinistas e trotskistas. Alcides, católico fervoroso, ia aos enterros das vítimas, como se estivesse ajudando a encomendar suas almas, do mesmo modo como, no Doi-Codi, um capelão com pistola calibre 45 na cintura e Bíblia nas mãos, dizia que “confortava” presos agoniados.

Nesta foto, Tuma verifica um caminhão apreendido com acetona e éter em 1990

Nesta foto, Tuma verifica um caminhão apreendido com acetona e éter em 1990

Márcia Zoet/Estadão Conteúdo - 01.06.1990

A segunda delegacia, Ordem Social, investia contra os que se organizavam, em variadas militâncias clandestinas, com o objetivo prático de derrubar o regime – ou seja: colocar em ataques concretos os devaneios teóricos descobertos na Ordem Política. Tinha à sua disposição um pelotão da Tropa de Choque da Polícia Militar, sempre pronta para investir sobre alguma sede de organização que optou pela luta armada, os chamados “aparelhos”.

Tuma coordenou o caso do nazista Josef Mengele

Tuma coordenou o caso do nazista Josef Mengele

WALDEMAR PADOVANI/AE - 29.03.1986

Já o Doi-Codi adotava métodos mais sangrentos, por meio de “equipes de busca” e interrogatórios, colocando sob tortura os limites da resistência humana. Na Ordem Política, o delegado Bueno levou para a cidade-natal, Botucatu, ao aposentar-se, uma papelada que sua família doaria, no futuro, para a Arquidiocese de São Paulo.

Papéis semelhantes, cópias dos inquéritos formalizando as apurações no Doi-Codi, foram levados pelo delegado Vanderico Arruda de Moraes, também quando se aposentou, para a cidade onde nasceu, Jaú. Esses inquéritos, relatados (nenhuma comissão descobriu isso), eram enviados para a II Auditoria Militar, instalada num casarão da avenida brigadeiro Luiz Antônio, onde eram julgados os acusados de terrorismo e subversão, segundo os implacáveis conceitos da Lei de Segurança Nacional. 

O bêbado Erasmo

Erasmo Dias tinha fama de se embriagar

Erasmo Dias tinha fama de se embriagar

Divulgação

Tuma tinha uma carta na manga: o poderoso secretário de Segurança, Erasmo Dias, que mandava tanto quanto o governador, tinha o hábito de sair à noite por casas noturnas e embriagar-se. Quase ao final das madrugadas, Tuma ia resgatá-lo, onde estivesse, e levá-lo, cambaleante, para casa. O ritual de busca era frequente. Tuma era o bem-amado de Erasmo.

Tuma teve uma carreira meteórica na Polícia. Em apenas oito anos, ele - que já fora investigador – evoluiu de delegado de quinta classe, o início da trajetória como delegado - até o último posto, classe especial. Antes de ser diretor do DOPS, chefiou o Serviço Secreto, onde – homem mais poderoso da Polícia - fazia relatos diários, pessoalmente, ao governador do Estado, às 18 horas, no Palácio dos Bandeirantes.

Prédio do Dops, em São Paulo

Prédio do Dops, em São Paulo

Luiz Prado/19.abr.1989/AE

Não se importava com os comentários externos ao Dops, onde se dizia, em forma de ironia poética, que Serviço Secreto queria dizer “delegado sem serviço/que não tendo o que fazer/não se importa com isso”. Na verdade, o SS retinha todas as informações sobre movimentações em sindicatos (todos), discursos em reuniões, articulações de políticos, planejamentos de ações em várias áreas, deixando o governador bem informado sobre tudo. Para se ter uma pálida ideia de como isso funcionava, era comum o secretário Erasmo Dias voar para Brasília, levando uma pasta com relatos e nomes, e no dia seguinte os mencionados no documento serem sumariamente cassados, com direitos políticos suspensos.

O símbolo do Dops, estampado em distintivos, era um hipocampo, espécie de cavalo-marinho, que fica sempre erecto e se movimenta permanentemente no mar. O que se pretendia dizer com isso é que o Dops estava sempre com a cabeça em pé, vigilante e atento. Era isso mesmo: o Dops obrigava todos os edifícios e condomínios a fornecer relação atualizada de seus moradores; as entidades de classe (inclusive a dos magistrados) tinham de informar quais eram seus sócios e endereços. Nada, portanto, escapava ao controle, desde debates em assembleias de sindicatos a reuniões formais, informais e sigilosas. O hipocampo estava por toda parte.

Humor sinistro

No Dops, Tuma se comportava como se nada soubesse do que acontecia lá dentro. Numa grande sala, ao lado da dele, ficava um piano. No térreo, uma cela muito escura, para onde alguns prisioneiros, encapuzados, eram levados. Tinham de falar. O investigador ”Campão”, subordinado de Fleury, retirava o capuz, delicadamente, e perguntava: “você sabe onde está”? O preso, apavorado, fazia que não com a cabeça. O policial dizia, então, com voz melíflua: ”Você está no inferno e meu nome é Lúcifer”. A seguir, fazia perguntas. Se não fossem respondidas, “Campão” o espetava com a ponta de um punhal afiado, cuja penetração aumentava gradativamente.

Delegado Sérgio Fleury, ícone da repressão no regime militar

Delegado Sérgio Fleury, ícone da repressão no regime militar

Estadão Conteúdo - 20.11.1973

Fleury divertia-se, num teatro de terror, em receber preso com um capacete do exército nazista alemão, saudado por um heil! pelo agente que o conduzia. Ou, como no caso da jornalista Lenita Figueiredo, com uma aterrorizante e enorme tesoura de cortar grama sobre a mesa, depois de obrigá-la a esticar as mãos, como fosse cortar seus dedos. Lenita chegou a agir com o um cabo Anselmo ao contrário (o infiltrado por Fleury entre militantes da luta armada, provocando prisões e mortes): namorou um agente do Dops, descobrindo coisas que ninguém poderia saber. Ambos foram torturados.

Fleury, quando padres dominicanos foram presos no convento da rua Caiubi, em São Paulo, encarregou o delegado Raul Ferreira de interrogá-los. O delegado vestiu-se com uma batina e dava murros nos religiosos presos, enquanto lhes perguntava, em liturgia de pânico, se “renunciavam a Satanás”.

Tuma, no início do governo Franco Montoro, 1983, viu o Dops ser extinto e soube que não seria mais nada na Polícia. Foi para Brasília, conversou com o presidente João Batista Figueiredo, e voltou para São Paulo nomeado superintendente da Polícia Federal, da qual, mais tarde, seria diretor geral. No dia e hora de sua posse, um significativo incêndio tomou conta do antigo Serviço Secreto, no quinto andar do Dops. Levou para a PF todos os arquivos, que ali ficaram por longos anos.

Tuma morreu aos 79 anos. Seu corpo foi velado na Assembleia Legislativa e sepultado no cemitério São Paulo. O túmulo guarda segredos que jamais serão desvendados. As despedidas foram honrosas. Teve entre outros figurões: o cardeal de São Paulo, dom Odilo Scherer (“com ele, podíamos contar”); Michel Temer (“era um homem bom”); Fernando Henrique Cardoso; Aloysio Nunes; Alberto Goldman; Gilberto Kassab; o advogado Márcio Thomaz Bastos, representando Dilma Roussef. E muitos mais.

Tuma delegado, Tuma hábil diplomata com trânsito livre em todas as áreas, Tuma esfinge que nunca mais será decifrada.