Arquivo Vivo 'Sou policial e assassino. Quem poderá me pegar?'

'Sou policial e assassino. Quem poderá me pegar?'

Luis Olivares elucidou crime do menino Obedes

Luis Olivares elucidou crime do menino Obedes

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Conhecer-se por dentro, saber distinguir moralmente entre bem e mal, correto e errado, lampejo divino. É a consciência. O coração vendo adiante, com os olhos da alma. Ter ou não ter. Sentir ou não sentir.

Não é bom agir contra a consciência. Se a temos, ela nos cobra, atormenta, persegue. Se não a temos, somos brutos, insensíveis, indiferentes, omissos, desumanos.

Todos esses sentimentos, essas sensações, passam criminalmente pela mente humana. Foi por isso que Dostoievski, ao lado de Tolstói, mago da literatura russa, influenciou Freud, que o tinha na estante, e Foucault estudou tanto os formatos que a sociedade adota para vigiar e punir.

Esta é uma história real, que eu acompanhei de perto e vivi, e ao contá-la faço um paralelo com o “Crime e Castigo” de Dostoievski. Neste romance, o autor de um duplo assassinato não é descoberto pela autoria dos crimes. A princípio, ele pensa que os homicídios, que vitimaram uma agiota e a irmã, fizeram um bem para a sociedade. Depois, sendo o caso ainda misterioso, ele, pressionado pela consciência, apresenta-se à Polícia e confessa tudo. É preso.

Aqui, o personagem central (e real) é um policial, investigador de polícia, talento raro para trabalhar na elucidação de crimes. Conheci-o no hoje Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, DHPP, mas antigamente, quando se matava bem menos, apenas uma Divisão do Departamento Estadual de Investigações Criminais, Deic. Ele investigou o assassinato, estúpido, de um adolescente de 17 anos, que trabalhava durante o dia e estudava à noite.

O rapaz estava na companhia de alguns amigos, sob um poste de luz na Vila Clara, zona sul de São Paulo, comendo uma pizza comprada em bar próximo, quando pararam dois carros ocupados por policiais civis. Um deles, arma na mão, mandou que saíssem correndo e fez dois disparos, revólver calibre 38, atingindo o menino Obedes Cortegoso nas costas, matando-o.

Começava a saga do policial, Luís Olivares, da equipe B da Delegacia de Homicídios. O desolado pai de Obedes comoveu-o. É muito triste ver um homem chorando pela perda do filho. Prometeu a ele, lágrimas escorrendo, que prenderia o assassino. E o assassino, ao que tudo indicava, só poderia ser um policial, portanto colega de Olivares. Entra aqui o início de um martelar sem fim da consciência de Olivares – a promessa feita ao pai,  queria cumpri-la a todo custo, e a maldição que certamente cairia sobre ele, caso conseguisse descobrir o autor.

Olivares, na juventude, apreciava muito as histórias em quadrinhos que narravam as aventuras do agente secreto X-9, que fizeram muito sucesso na metade do século passado, roteirizadas por Dashiell Hammet, que se tornaria grande escritor americano de contos policiais. Olivares sonhava ser como ele. Foi. Quando começou a trabalhar na Delegacia de Homicídios, seu talento foi percebido pelo então diretor, Coriolano Nogueira Cobra, lendário delegado que hoje dá nome à Academia da Polícia Civil, na Cidade Universitária. “A Polícia precisa de gente como você”, disse-lhe Cobra.

Olivares foi à delegacia onde os fatos foram registrados, a 35ª, no Jabaquara. Ali, o delegado encarregado da investigação relatou que aquele crime fora obra de “repelentes marginais”, tipos que “degradam a espécie humana”. O dono do bar que vendeu a pizza foi chamar para depor. Disse ter ouvido um policial chamar a outro pelo nome, o que permitiria a identificação do investigador Ranulfo Dias Filho, que havia morrido seis meses antes num acidente de carro. O delegado que presidiu o inquérito relatou: “Que a justiça divina puna o autor do crime”.

Pedra no caminho da camuflagem: o comportamento isolado de Olivares tornaria possível, mais para a frente, descobrir que essa história não passava de um engodo, uma armação para acobertar o verdadeiro autor do disparo fatal. O diligente policial deixou a 35ª e foi para a Delegacia Seccional Sul, à época na Avenida Onze de Junho, examinar o boletim de ocorrência original, e não aquele adulterado na delegacia do Jabaquara. Foi o pulo do gato: no b.o. original, o dono do bar na Avenida Fúlfaro revelou que um policial chamou o outro por “Áureo” e não “Lauro”, como constava na outra versão. Ao depor, o policial mencionado admitiu ter estado no local, mas atribui o tiro fatal a Ranulfo, que seria criminalmente responsabilizado, embora já morto.

Na gíria policial, chama-se ao falso álibi de circo muito bem montado. E tão bem montado, com lonas e tudo, que passou batido para promotores e magistrados, acostumados a mastigar o cardápio, prato feito, que a Polícia lhe fornece, muito raramente apresentando uma prova nova. E assim o caso Obedes Cortegoso foi enterrado na vala comum do esquecimento.

E ali ficaria sepultado, se não fosse a consciência de Luís Olivares, o único a essa altura a saber exatamente o que havia acontecido.

A verdade viria à tona por vias tortas. Olivares, com fortes dores na cabeça, foi ao médico e, submetido a exames, descobriu que tinha um tumor no cérebro. E pelo volume, tudo levava a crer que fosse maligno. Câncer. Vida entrando em contagem regressiva.

Foi o momento do encontro consigo mesmo. Uma hora amarga. Olhou bem no médico e, acostumado a fazer interrogatórios, soube perceber quando o olhar do interlocutor se desviou, titubeante na hora da verdade, vacilante até, como se constrangido a não revelar algo. É grave? – quis saber Olivares. A resposta veio em silêncio. O policial compreendeu o significado da ausência de palavras.

Consultando a si mesmo, no mais íntimo da alma, decidiu que precisava ao menos morrer em paz. E que só teria essa paz se cumprisse a promessa feita ao pai de Obedes Cortegoso. E para cumprir a promessa teria que fazer uma revelação para uma autoridade que tivesse poder suficiente para provocar uma reviravolta no caso, desenterrando o que já estava muito bem enterrado. Foi assim que encaminhou a sua vontade e determinação para o juiz-corregedor da Polícia Judiciária.

O juiz, meu considerado, contou-me a história. Perguntei o que ele iria fazer. Respondeu que iria fazer uma diligência in loco. Ou seja: no hospital onde Luís Olivares já estava internado para a cirurgia. É raro juiz fazer isso. Este fez. Fui junto. Hospital do Servidor Público, quarto 1217.

Olivares já estava numa cama hospitalar. Parecia bastante lúcido, consciente, tranquilo, sabendo muito bem o que iria fazer para mudar completamente o rumo de uma história trágica. Quem fez as referências sobre ele ao juiz fui eu. “É um dos melhores que nossa Polícia tem”, assegurei. Mostrando-se seguro e confiante, o juiz foi ditando a qualificação de praxe e passou a fazer perguntas essenciais.

As respostas foram fluindo, minuciosas, detalhadas, precisas. Inclusive a informação de que o investigador autor do tiro que matou Obedes havia passado em concurso para delegado, e esta era sua atual função. O juiz ficou surpreso. Mas consignou tudo em depoimento formal. Assinei como testemunha que de fato era.
Despedidas. Abracei Olivares na cama. Informei-me sobre o dia da cirurgia. Formulei votos para que tudo corresse bem. Olivares esboçou um sorriso tímido, como se aquele fosse nosso último encontro.

Cirurgia feita. Nada de maligno! Tumor benigno, extirpado com sucesso. Olivares ficou muito bem. Pode trabalhar um pouco mais antes de aposentar-se. Não, ninguém o hostilizou. No seu órgão de trabalho, ele era a prova viva de que não existe crime perfeito. Estava feito o que todos deveriam fazer. O inquérito foi reaberto e o autor respondeu por seu ato. Prisão preventiva foi decretada. Este é Luís Olivares, herói anônimo, merecedor de reconhecimento, consideração e respeito. Perdigueiro descobridor, faro apurado para mostrar que só investigações podem ser imperfeitas. Driblador da morte, consciência abraçada. Em paz.

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