AUSÊNCIA
Prisma|Carmen Farão

Um vinil velho, viscejante, pops e clicks no contato com o diamante trouxe a voz de Vinícius de Moraes de um tempo que se fosse através do límpido e cristalino áudio digital, não surtiria o mesmo efeito. Aqueles pops e clicks também me transportaram para uma cena fictícia, que nunca foi, mas poderia ter sido. Vinícius e Toquinho e toda a sua obra. Pops, clicks. Compreender é um privilégio. Ter acesso, ler, é um privilégio. Transformar-se pela arte é um privilégio. Então, intuí. Fechei os olhos e transportei para aquele som o diálogo e cena que – penso – nunca existiu.
Acordes aleatórios de violão em tom menor.
- Vininha, o que vai ser agora?
- To pensando numa coisa, rapaz...
- Então, vamos fazer! (violão de Toquinho, dando deixas para o Poeta)
- Me dá um lá...
- Menor?
- Não, maior. Tem que ser maior. Qualquer coisa maior (risos). Me dá um lá maior. Vou contar uma coisa
- Ta contigo, Vininha. Manda.
O diálogo pausa. Os acordes continuam. E a voz representando em alma, diz:
Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...
(Vinícius de Moraes)














