Christina Lemos E você, onde estava no dia 8 de janeiro? Um testemunho.

E você, onde estava no dia 8 de janeiro? Um testemunho.

Parei o carro à beira da pista por três vezes: como acreditar nas notícias que chegavam pelo celular? 

A elite paulistana almoçava relaxadamente em restaurantes elegantes no domingo ensolarado pós-eleição e sorvia os últimos instantes de um ano novo com virada política. Lula havia recém subido a rampa do Planalto ao lado de cidadãos até então desconhecidos, investidos no papel de símbolos da sociedade, e também discursado na Paulista, onde negou a existência “de dois brasis”. A espera por uma acomodação de forças misturava doses quase iguais de otimismo e ceticismo aos coquetéis das churrascarias e de indignação e festa aos tragos dos bares de periferia.

Alcancei meu carro apressadamente, enquanto o celular dava alertas de mensagens incessantes, dentro da bolsa. Eram as primeiras notícias de invasão do Congresso e de descontrole do que foi inicialmente considerado uma manifestação corriqueira. Afinal, o Brasil estava de férias, as praias estavam cheias, o mundo político ainda se recuperava da ressaca da mais turbulenta eleição desde a Carta de 88.

“Estou a caminho da redação, para o que for preciso”, avisei a dois dos meus chefes diretos do núcleo de Jornalismo da Recordtv em São Paulo. No percurso, parei o carro à beira da pista por três vezes: impossível acreditar nas imagens que chegavam pelo celular. Em 30 anos de cobertura como repórter de política em Brasília – cidade que adotei na adolescência – jamais havia visto uma invasão quase simultânea das sedes dos três poderes. Eu tinha o claro sentido da urgência e do imprevisível – ainda que estivesse a mais de mil quilômetros de distância.

Ainda no portão da guarita da sede da emissora na Barra Funda, avistei meu chefe que atravessava o estacionamento com passo apressado e ao celular. “Maquiada e vestida” – digitei.  Foi a senha para que ele soubesse que eu estaria pronta para iniciar a transmissão ao vivo de algo que ainda sequer entendíamos exatamente o que era ou como terminaria. "Vamos para o ar" - ele respondeu, tão logo se posicionou. Foram 6 horas de transmissão contínua.

Pilotando a central de operação da emissora, ao lado de colegas recém convocados, o comando do jornalismo desfilava imagens e informações que eu narrava sozinha, diretamente do cenário do Jornal da Record – ora em “on”, ora em “off”, enquanto acompanhava as transmissões dos colegas de Brasília pelo celular. Paulatinamente, mais e mais colegas se somavam à cobertura, repórteres, editores, cinegrafistas.  

E o que se passava diante dos meus olhos era devastador. A cada nova cena, eu reconhecia espaços pelos quais circulei com reverência por três décadas e os quais eram tratados por mim e por todos como palácios-sede da democracia e templos da arquitetura e da arte. A destruição implacável era difícil de crer e de narrar. Reconheci os corredores do senado, o plenário do Supremo, cada andar do Planalto – tudo revolvido, depredado e em convulsão.

Naquela tarde de domingo, dentro de toda a enorme emissora chamada Recordtv, talvez eu fosse a única brasiliense (por escolha) capaz de identificar cada ângulo daqueles espaços ao primeiro olhar. E também certamente era capaz de entender o tamanho da chaga que a eleição e posse do novo presidente não haviam sanado.

Um ano depois, em ambiente de normalidade democrática, levantamentos apontam que a divisão social e política prevalece. O dever de casa da pacificação nacional resta sobre a mesa dos homens públicos, num ano eleitoral em que conveniências políticas distribuídas por todo espectro ideológico alimentam o racha. Ainda falta paz. Ainda falta emprego. Ainda falta cura para a chaga entre os brasileiros – abismo que só faz aprofundar a intolerência e a incompreensão da importância da democracia.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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