Ciência no prato: o que realmente faz um alimento ser vilão?
Nem o ovo, nem o suco de laranja, nem o glúten. Quando se trata de saúde, o que faz mal de verdade não é o alimento, e sim o exagero

Você já se perguntou por que algumas pessoas evitam o glúten mesmo sem ter doença celíaca? Ou por que um alimento como o ovo pode ser considerado vilão por uns e funcional por outros?
O ovo, por exemplo, contém colesterol, o que por muito tempo gerou controvérsia. Mas é importante lembrar que ele dá origem a uma nova vida e, por isso, concentra tudo o que é necessário para esse processo acontecer: proteínas, vitaminas, minerais e, sim, colesterol.
O colesterol, por sua vez, está longe de ser um inimigo. Nosso corpo depende dele para funções essenciais, como a produção de hormônios, a síntese de vitamina D, a formação da bile e o funcionamento adequado do cérebro e das membranas celulares.
O problema não está na presença do colesterol, mas no desequilíbrio. Quando os níveis de LDL, conhecido como colesterol “ruim”, estão elevados, e os de HDL, o chamado colesterol “bom”, estão baixos, aumenta o risco de acúmulo de placas nas artérias, o que pode comprometer a saúde cardiovascular.
Entender essas nuances é fundamental para fazer escolhas alimentares mais conscientes e baseadas em evidências, em vez de repetir discursos prontos que muitas vezes ignoram a complexidade do nosso organismo.
Por muitos anos, trabalhei pesquisando suco de laranja, outro alimento com fama controversa, muitas vezes comparado injustamente aos refrigerantes por causa do teor de açúcar.
Mesmo eu, que já era nutricionista na época, confesso que me assustei quando vi que faríamos uma intervenção em que os participantes tomariam suco de laranja todos os dias, por 60 dias seguidos. Lembro bem de ter pensado: será que isso faz sentido? Será que não é exagero?
Mas foi só depois de muito trabalho, acompanhamento rigoroso e análise dos dados que percebi o quanto é importante deixar os preconceitos de lado. A laranja, por exemplo, vai muito além do açúcar que tantos temem.
É uma matriz alimentar complexa, rica em vitaminas e compostos bioativos com efeitos positivos para a saúde. Os resultados impressionaram: houve modulação da microbiota intestinal e até redução da pressão arterial sistólica.
Estudar me fez entender que nenhum alimento, isoladamente, é um vilão. Nem mesmo os processados, que sim, carregam uma lista extensa de aditivos, corantes, conservantes e tantos outros nomes difíceis de pronunciar, até mesmo para um professor de português.
Mas o problema não está em reconhecer esses ingredientes no rótulo, e sim em deixá-los ocupar grande parte do nosso prato todos os dias, substituindo alimentos frescos, variados e minimamente processados. É o padrão alimentar que conta, não um item específico.
Comer um ultraprocessado ocasionalmente não é o que compromete a saúde. O risco aparece quando esse tipo de produto se torna a base da alimentação. Alimentar-se bem não é apenas somar ou cortar nutrientes isoladamente. A alimentação envolve cultura, prazer, acesso, escolhas individuais e, acima de tudo, equilíbrio.
Um alimento pode ser altamente nutritivo e, ainda assim, não ser adequado para certas condições clínicas. É o caso da doença renal crônica, por exemplo, em que até a água de coco pode ser prejudicial devido ao alto teor de potássio. Ou da artrite gotosa, conhecida popularmente como gota, que exige atenção ao consumo de alimentos ricos em purinas, como lentilha, ervilha, grão-de-bico e feijão, que são quebrados em ácido úrico no organismo.
Antes de excluir um ingrediente ou seguir a tendência da vez, pergunte a si mesmo: essa escolha nasce da informação ou do medo? Estou buscando saúde ou apenas controle? Porque comer bem não é fechar portas, é abrir espaço para mais cor, mais sabor, mais equilíbrio. Mais do que tirar, importa o que a gente escolhe incluir. E caso fique com dúvida, procure sempre um médico ou um nutricionista da sua confiança.
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