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‘Esperamos dobrar o comércio e os investimentos entre Brasil e Malásia’, diz embaixador em entrevista ao R7

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat fala sobre comércio, turismo, tecnologia, educação, ASEAN e as perspectivas de fortalecimento das relações entre os dois países

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“Esperamos dobrar o comércio e os investimentos entre Brasil e Malásia”, diz embaixador em entrevista ao R7

Relações bilaterais e aproximação com o Brasil

Fabiana Ceyhan: Embaixador, muito obrigada por estar conosco. Primeiro, há quanto tempo o senhor está no Brasil? O senhor tem sido muito ativo desde que chegou, e temos percebido que a Malásia vem trabalhando intensamente para fortalecer as relações com o Brasil. Conte-nos um pouco sobre sua experiência, as relações comerciais e qualquer outro aspecto que gostaria de destacar.

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: Antes de tudo, muito obrigado por esta oportunidade. Espero ter mais conversas como esta com integrantes da imprensa brasileira.

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Desde que cheguei ao Brasil, há quase um ano, realizei reuniões com diversas instituições governamentais, especialmente o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Ministério de Minas e Energia e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Também mantive contato com importantes representantes do setor privado brasileiro, incluindo associações que representam as indústrias de semicondutores, elétrica e eletrônica. No setor de alimentos e agricultura, reuni-me com representantes de grandes produtores de proteína, como a JBS, além de associações que representam os exportadores brasileiros de carne bovina.

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Esses contatos me permitiram perceber o considerável potencial para ampliar a cooperação entre Malásia e Brasil. Já estabelecemos bases políticas sólidas.

Nosso primeiro-ministro, Datuk Seri Anwar Ibrahim, visitou o Brasil para a Cúpula de Líderes do G20, em novembro de 2024, e retornou em julho de 2025 para a Cúpula do BRICS. Posteriormente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou uma visita oficial à Malásia, em outubro de 2025, e participou da 47ª Cúpula da ASEAN, ocasião em que manteve uma produtiva reunião bilateral com nosso primeiro-ministro.

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O impulso político, portanto, já existe. Nossa tarefa agora é transformá-lo em oportunidades concretas para empresas, investidores, inovadores, estudantes e turistas dos dois países.

O potencial é enorme. Esperamos que, ao longo do tempo, possamos dobrar o comércio e os investimentos entre Malásia e Brasil. Mas essa relação não deve ser medida apenas por números. Também queremos construir parcerias de longo prazo em tecnologia, energia, segurança alimentar, educação, turismo e desenvolvimento sustentável.

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Turismo, cultura e infraestrutura

Fabiana Ceyhan: Este também é um ano muito importante para o turismo da Malásia por causa do Visit Malaysia 2026. O que o senhor pode nos contar sobre a campanha? Muitos brasileiros estão viajando para a Malásia e muitos malaios vêm ao Brasil?

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: O Visit Malaysia 2026 é uma importante campanha nacional apoiada por programas e festividades organizados pelo nosso Ministério do Turismo, Artes e Cultura e pelo Tourism Malaysia.

Dados oficiais preliminares indicam que a Malásia recebeu cerca de 21 milhões de visitantes internacionais durante o primeiro semestre de 2026. A meta nacional é alcançar 47 milhões de chegadas de visitantes internacionais até o final do ano.

Esses números dizem algo importante sobre a Malásia. Eles mostram que temos uma oferta turística dinâmica e diversificada, capaz de atrair visitantes de muitas partes do mundo.

O número de brasileiros que visitam a Malásia ainda é relativamente modesto. A distância, os custos de viagem e a limitada conectividade aérea estão entre os principais motivos. No entanto, os brasileiros são viajantes internacionais experientes, e acredito que exista um potencial considerável para que a Malásia se torne mais conhecida no Brasil.

Fabiana Ceyhan: Os brasileiros viajam muito, inclusive para a China e a Coreia. Talvez também seja uma questão de promover o destino e organizar uma viagem de imprensa.

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: Concordo. É por isso que a cooperação com jornalistas e publicações especializadas em turismo é tão importante. Os viajantes brasileiros precisam ter oportunidades de descobrir o que a Malásia oferece.

Kuala Lumpur é moderna, cosmopolita e bem conectada. As Torres Petronas continuam entre seus pontos turísticos mais reconhecidos e ainda são as torres gêmeas mais altas do mundo.

O horizonte da cidade agora também inclui o Merdeka 118. Com 678,9 metros, é o edifício mais alto do Sudeste Asiático e o segundo mais alto do mundo. “Merdeka” significa independência, e a torre se ergue ao lado do histórico Estádio Merdeka, onde a independência da Malásia foi proclamada em 1957.

Mas a Malásia não depende apenas de infraestrutura moderna. Temos ilhas tropicais, florestas ancestrais, montanhas, locais reconhecidos como Patrimônio Mundial pela UNESCO e uma das biodiversidades mais ricas do mundo. Os visitantes podem conhecer Kuala Lumpur, as cidades históricas de George Town e Melaka, as ilhas de Langkawi e as extraordinárias paisagens naturais de Sabah e Sarawak, no Bornéu malaio.

Nossa gastronomia é outra importante atração.

Fabiana Ceyhan: Ouvi dizer que a culinária malaia é muito diversificada. Parece reunir influências indianas e chinesas, entre outras.

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: Isso está correto. A culinária malaia reflete nossa sociedade multicultural. Ela inclui influências malaias, chinesas, indianas, indígenas e de outras tradições regionais.

Os visitantes podem conhecer pratos como nasi lemak, satay, rendang, laksa, roti canai e mee goreng. Na Malásia, a comida não é simplesmente algo para se comer. É uma das melhores maneiras de compreender nossa história, diversidade cultural e modo de vida.

É também por isso que a expressão “Malaysia Truly Asia” descreve tão bem o país. A Malásia reúne muitas das culturas, tradições e sabores da Ásia em um único destino.

Também fazemos parte do chamado Nusantara, ou mundo malaio, que inclui Malásia, Indonésia e Brunei. Jacarta fica a menos de duas horas de avião de Kuala Lumpur, portanto a Malásia também está bem localizada para viajantes que desejam explorar outras partes do Sudeste Asiático.

Comércio, ASEAN e tecnologia

Fabiana Ceyhan: Há quinze dias, o secretário-geral da ASEAN visitou o Brasil pela primeira vez. Também tive a oportunidade de entrevistá-lo brevemente. Como o senhor vê o futuro das relações entre Brasil e ASEAN, incluindo a Malásia?

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: Acredito que o futuro seja muito promissor. A ASEAN agora é formada por onze Estados-membros, enquanto o Brasil é a maior economia do Mercosul e da América Latina.

O Brasil busca aprofundar seu relacionamento com o Sudeste Asiático. Durante a primeira visita de um secretário-geral da ASEAN ao Brasil, o Itamaraty destacou que o comércio bilateral entre Brasil e ASEAN alcançou US$ 38,4 bilhões em 2025. Isso tornou a ASEAN o quinto maior parceiro comercial do Brasil.

Esse número mostra que o Sudeste Asiático não é mais um mercado distante ou secundário para o Brasil. Já é uma parte importante das relações econômicas externas brasileiras.

Para a Malásia, o Brasil é um dos nossos principais parceiros comerciais na América Latina. A Malásia pode funcionar como uma das portas de entrada do Brasil para a ASEAN, um mercado regional com mais de 680 milhões de pessoas. O Brasil, por sua vez, oferece às empresas malaias uma importante plataforma para atuação na América do Sul.

As duas regiões possuem forças complementares. A ASEAN tem fortes redes de manufatura, mercados consumidores em crescimento e uma posição importante nas cadeias globais de suprimentos. O Brasil oferece vantagens na agricultura, energia, minerais, tecnologia e capacidade industrial.

Fabiana Ceyhan: Quais são os principais produtos comercializados entre Brasil e Malásia?

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: A Malásia importa importantes produtos brasileiros, como carne bovina, frango, soja, milho e café. A soja e o milho são particularmente importantes porque são insumos fundamentais para as indústrias de alimentação animal e produção de alimentos da Malásia. O Brasil é um dos principais produtores e exportadores mundiais dessas commodities.

A Malásia exporta para o Brasil produtos elétricos e eletrônicos, semicondutores, máquinas, produtos à base de borracha e outros produtos manufaturados. Isso reflete a força da Malásia na manufatura avançada e seu importante papel nas cadeias globais de semicondutores e eletrônicos.

Há também uma presença corporativa malaia significativa no Brasil. A PETRONAS está desenvolvendo seu relacionamento com a Petrobras, enquanto a Yinson participa de grandes projetos de energia offshore. Outras empresas malaias atuam em tecnologia, produtos médicos, soluções digitais e bens de consumo.

Fabiana Ceyhan: Recentemente, o senhor ministrou uma palestra sobre semicondutores na Universidade Católica de Brasília. Como Malásia e Brasil poderiam cooperar nessa área?

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: Durante minha conversa com estudantes da Universidade Católica de Brasília, incentivei-os a enxergar a Malásia como uma parceira natural no desenvolvimento do setor tecnológico brasileiro.

A Malásia tem mais de cinco décadas de experiência nas indústrias de semicondutores, elétrica e eletrônica. Agora buscamos avançar ainda mais em design de alta tecnologia, pesquisa, inteligência artificial e atividades de maior valor agregado.

O Brasil também possui importantes capacidades tecnológicas e anunciou recentemente aproximadamente R$ 2,3 bilhões em investimentos relacionados à inteligência artificial e à infraestrutura de supercomputação.

Isso cria oportunidades de cooperação em pesquisa de semicondutores, encapsulamento avançado, desenvolvimento de competências, infraestrutura de data centers, inteligência artificial industrial e digitalização. Instituições malaias e brasileiras já começaram a estabelecer vínculos, incluindo uma cooperação envolvendo o MIMOS, na Malásia, e o CTI Renato Archer, no Brasil.

O próximo passo é garantir que esses contatos institucionais se transformem em projetos concretos de pesquisa, negócios e capacitação.

Pessoas, comunidades e Dia Nacional

Fabiana Ceyhan: E quanto à diplomacia cultural e à aproximação entre as pessoas? Existe uma grande comunidade malaia no Brasil? Há muitos brasileiros vivendo na Malásia?

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: As comunidades ainda são relativamente pequenas, mas representam uma importante conexão humana entre nossos países.

Estimamos que algumas centenas de brasileiros vivam na Malásia. Entre eles estão estudantes de pós-graduação, profissionais e empresários. Alguns estão em Kuala Lumpur, enquanto outros vivem em Perak, onde a mineradora brasileira Vale possui operações significativas.

A comunidade malaia no Brasil também é pequena. Estimamos que aproximadamente 70 a 80 malaios vivam aqui. Alguns trabalham no setor de energia, inclusive com a PETRONAS, enquanto outros estão em São Paulo, Santa Catarina e outras partes do Brasil. Um pequeno número de malaios também vive em Brasília, incluindo pessoas casadas com brasileiros.

Muitos malaios têm interesse em visitar o Brasil, assim como gostaríamos de incentivar mais brasileiros a conhecer a Malásia. Distância, custo e conectividade aérea limitada continuam sendo desafios, mas uma promoção turística mais forte e um maior contato entre nossas sociedades podem ajudar.

Fabiana Ceyhan: A Malásia está celebrando seu Dia Nacional. O que essa ocasião representa para os malaios?

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: Em 31 de agosto de 2026, a Malásia celebra seu 69º Dia Nacional. A data comemora a independência da Federação da Malásia do domínio colonial britânico, em 31 de agosto de 1957. O Dia da Malásia, celebrado em 16 de setembro, comemora a formação da Malásia em 1963.

Nossa independência foi conquistada por meio de negociações constitucionais, mobilização política e da determinação de nosso povo em governar a si mesmo.

O Dia Nacional tem um grande significado para os malaios. Representa nossa jornada em direção à liberdade, à unidade e ao desenvolvimento. Mas a independência não significa apenas recordar o passado. Significa também usar essa liberdade de maneira responsável para melhorar a vida das pessoas e construir um país pacífico, inclusivo e próspero.

A Malásia é uma sociedade multicultural e multirreligiosa. Nossa esperança é ter um país unido, que continue avançando com confiança e garantindo que o desenvolvimento beneficie todos os malaios.

Diversidade e valores compartilhados

Fabiana Ceyhan: O senhor mencionou que a Malásia é um país multirreligioso. Poderia explicar um pouco mais sobre sua composição religiosa e sobre como suas comunidades convivem?

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: Segundo o censo de 2020 da Malásia, os muçulmanos representam aproximadamente 63,5% da população. Os budistas correspondem a cerca de 18,7%, os cristãos a 9,1% e os hindus a 6,1%, além dos seguidores de outras religiões e tradições.

Nosso caráter multicultural é particularmente visível tanto na Malásia Peninsular quanto nos estados de Sabah e Sarawak, em Bornéu. A Malásia também abriga muitas comunidades indígenas, com suas próprias línguas, costumes e tradições culturais.

Viver em uma sociedade diversificada exige esforço contínuo, respeito mútuo e diálogo. A unidade na diversidade é uma das maiores forças da Malásia, mas também é algo que cada geração precisa cultivar.

Fabiana Ceyhan: O Brasil também é extremamente diverso. Muitos brasileiros crescem ao lado de pessoas de diferentes religiões e origens, sem necessariamente pensar uns nos outros como diferentes. Malásia e Brasil parecem ter algo em comum.

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: Concordo. Malásia e Brasil são países multiculturais e megadiversos. Valorizamos a hospitalidade, a família, a comunidade e o respeito pelas diferentes tradições.

Também compartilhamos características tropicais e uma relação próxima com a natureza. A Malásia possui clima tropical durante todo o ano, influenciado pelas estações de monções, embora as condições variem entre as regiões.

Essas características em comum ajudam a explicar por que Malásia e Brasil são parceiros naturais, apesar da distância geográfica entre nós.

Oportunidades educacionais e considerações finais

Fabiana Ceyhan: Há algo mais que o senhor gostaria de dizer aos brasileiros?

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: Tenho duas mensagens principais.

Primeiro, visitem a Malásia. Recebemos com satisfação os viajantes brasileiros que desejam conhecer nossas cidades, ilhas, biodiversidade, patrimônio cultural e gastronomia. Portadores de passaporte brasileiro podem visitar a Malásia sem visto para estadias de até 90 dias, sujeitos aos requisitos de entrada vigentes.

Segundo, incentivo estudantes e jovens profissionais brasileiros a considerar a Malásia como destino para ensino superior e capacitação, especialmente nas áreas de tecnologia, engenharia, semicondutores, economia digital e outros campos emergentes.

A Malásia está se desenvolvendo como um polo internacional de educação e atualmente recebe mais de 137 mil estudantes internacionais. O inglês é amplamente utilizado, e muitos programas universitários são ministrados nesse idioma.

Existem duas iniciativas governamentais distintas que podem ser relevantes. O Malaysian Technical Cooperation Programme, ou MTCP, oferece cursos de curta duração de treinamento e capacitação para funcionários públicos elegíveis de países parceiros, incluindo o Brasil.

A Malaysia International Scholarship oferece oportunidades de pós-graduação em universidades malaias para candidatos internacionais elegíveis. O Brasil está entre os países incluídos no programa de 2026.

Fabiana Ceyhan: Como os brasileiros podem saber mais sobre esses cursos e bolsas?

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: A Embaixada divulga anúncios relevantes por meio de seus canais oficiais nas redes sociais, incluindo o Instagram. Informações sobre o MTCP também estão disponíveis em seu portal oficial, enquanto os detalhes da Malaysia International Scholarship são publicados pelo Ministério do Ensino Superior da Malásia.

Incentivamos os brasileiros interessados a acompanhar os canais da Embaixada e consultar os sites oficiais dos programas sempre que novas oportunidades forem anunciadas.

A Malásia oferece educação de qualidade, ambiente multicultural, custos competitivos e conexões próximas com o restante da Ásia. Para jovens brasileiros em busca de uma experiência internacional, o país pode proporcionar tanto oportunidades acadêmicas quanto uma introdução a uma das regiões mais dinâmicas do mundo.

Minha mensagem, portanto, é simples: visitem a Malásia, conheçam nosso povo e considerem o país como seu próximo destino para turismo, educação e oportunidades.

Fabiana Ceyhan: Muito obrigada, embaixador.

Dato’ Mohammad Ali bin Selamat: Obrigado. Foi um prazer.

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