Logo R7.com
RecordPlus
Eduardo Costa - Blogs

Delírios em torno da injustiça 

Durante uma reunião, um procurador de Justiça de Minas Gerais chamou o salário de R$ 24 mil de “miserê” 

Eduardo Costa|Eduardo Costa

  • Google News
Procurador do MPMG chamou o pagamento de "miserê"
Procurador do MPMG chamou o pagamento de "miserê"

O desabafo de um procurador, diante do chefe, veio a público e causou repercussão espantosa. Para alguns. Afinal, como pode alguém se queixar tão indignado de um salário da ordem de R$24 mil? Sobretudo se considerarmos que, na verdade, com os penduricalhos, ele tem na conta, todo mês, três, quatro vezes mais? Não estou entre os escandalizados. Explico: o próprio procurador diz que, “infelizmente, não está acostumado a viver com pouco, passar necessidades”. É aqui que quero chegar. É sobre a elite branca, da qual ele faz parte, que quero falar.

E o que é elite branca?


Francisco Bosco escreveu no jornal O Globo, em 2014, que é muito complicado defini-lá. Mas é possível dizer o que ela quer. “Fazem parte da elite branca todos os sujeitos de grupos sociais privilegiados que denunciam difusamente as desigualdades do Brasil mas repudiam qualquer ato político real que as combata; todos os sujeitos incapazes de pensar e agir coletivamente, sempre colocando em primeiro – senão único – lugar as suas vantagens pessoais. Assim, o ilustre membro do Ministério Público não é um cara de pau, desumano, doido ou arrogante como ouvi nos últimos dias. Ele é membro da elite branca que, desde 1500 admite tudo, desde que cada um saiba seu lugar: os negros, os pobres, servindo... Os brancos surfando. Para eles, os bons colégios, as melhores faculdades, a aprovação nos concursos mais difíceis e os cargos mais elevados no serviço público. Lá, como juízes, promotores, auditores fiscais, cuidam da aposentadoria e da parentalha, ajeitando para o genro fazer perícias, a filha trabalhar no melhor escritório de advocacia e o neto ser sucessor na direção de um sindicato, uma OAB, algo forte. Tudo dentro da lei. E, assim acreditam, da ética. Cotas para negros em faculdade? Nem pensar. Terras para índios? Absurdo.

Odeiam comunistas, afinal, que ideia é essa de voltar ao estado natural e abolir a propriedade privada? Querem o capitalismo, com meios de produção lucrativos. E, dentro dos princípios da meritocracia, também acho correto o respeito ao esforço pessoal. Mas, se ouvissem o Papa João Paulo II teriam mais cuidado ao reservar tudo para a mesma turma. Por que não experimentarmos uma social democracia, com igualdade de oportunidades e meios para todos os indivíduos. Quem sabe se o filho da doméstica não pudesse estudar junto com o filho do patrão e trabalhar no escritório com os netos? Por que a gente não pode se contentar com R$15 ou R$20 mil para que a professora, o pedreiro ou o técnico de enfermagem ganhe R$5 mil?

Por que a gente não ouve o Santo Papa João Paulo II? Pode ser por caráter humanitário, mas, pode ser por sobrevivência. Para que a gente possa andar num carro novo, ostentar joias, ir à rua. De que adianta ter tudo, menos o direito de ir e vir? Disse o Pontífice: “Enquanto não houve justiça social, não haverá paz”.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas

  • Do R7/

    Para ser respeitado...

    O Brasil inteiro comenta as conversas que teriam ocorrido entre o então juiz Sérgio Moro e promotores da Lava Jato

  • Do R7/

    Choro e ranger de dentes

    Mariana (MG) continua como 300 anos atrás, já que a fartura da matéria prima encontrada na região não resulta em vida digna para seus habitantes

  • Do R7/

    Governadores, acordai-vos!

    Gestores não perceberam que está em marcha um trabalho de bastidores no Congresso para deixar as questões locais longe da reforma da Previdência

  • Do R7/

    Falta de ar

    Com a chegada do inverno e frio, crianças sofrem com a falta de atendimento médico nos hospitais de Belo Horizonte

  • Do R7/

    Cinco meses depois...

    Após mais de 150 dias do início da pandemia, nossa cidade continua diferente: fechada, deserta; desde abril tenho insistido que poderia ser diferente

  • Do R7/

    A morte sem despedida

    Dizem os bem-humorados que as duas coisas certas na vida são o pagamento de impostos e a morte; ainda assim, muitos insistem em negar o fim da vida

  • Do R7/

    As armas brasileiras contra o vírus

    Uso de diferentes medicamentos é estudado para tratamento contra a covid-19; entre eles estão nitazoxanida, irvermectina e hidroxicloroquina

  • Do R7/

    E quem dá o exemplo?

    Presidente Bolsonaro causou aglomeração e não usou máscara em evento com apoiadores no Rio de Janeiro, neste domingo (23)

  • Do R7/

    Que culpa tem o repórter?

    No último domingo (26), jornalistas foram agredidos durante uma manifestação na Praça da Liberdade, na região centro-sul de Belo Horizonte

  • Do R7/

    Eles não tomam jeito

    Muitos dos acusados na Lava-Jato continuam a delinquir mesmo depois dos escândalos

  • Do R7/

    E a prisão em segunda instância?

    Como pode alguém roubar ou matar, ser condenado por um júri, recorrer, ter a pena mantida por um colegiado e continuar solto?!

  • Do R7/

    Quem julgará a suspeição do Supremo?

    Como cidadão sinto-me à vontade para colocar o espanto diante das decisões que são tomadas na mais alta corte do país

  • Do R7/

    O fantasma das eleições

    Candidatos políticos à presidência do Brasil já se movimentam e preparam seus discursos para o período eleitoral que se aproxima

  • Do R7/

    Inação constrangedora

    Com a pandemia e a crise econômica, Belo Horizonte vive o drama do aumento de pessoas morando nas ruas sem atenção do governo

  • Do R7/

    Gente

    Eduardo Costa fala sobre ida ao Mercado Central de Belo Horizonte e importância de encontrar pessoas e apreciar a experiência


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.