Opinião: governo brasileiro mira Israel e se afasta perigosamente da tradição de mediar conflitos
Ao invés de ser firme contra violações de direitos humanos, país amplifica acusações desproporcionais e insustentáveis
Espaço Prisma|Claudio Lottenberg*, especial para o R7
RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
O Brasil, que já foi referência internacional por sua capacidade de construir pontes, mediar conflitos e agir com equilíbrio em foros multilaterais, tem se afastado perigosamente dessa tradição. A atual política externa do país parece guiada não por princípios consistentes de defesa dos direitos humanos, mas por alinhamentos ideológicos seletivos e conveniências políticas.
Em vez de assumir uma posição firme diante das mais graves violações de direitos humanos que assolam o mundo, sendo muitas delas em nações africanas ou sob regimes autoritários, o governo brasileiro escolhe mirar Israel, amplificando acusações desproporcionais e, em alguns casos, juridicamente insustentáveis.
Enquanto acusa Israel de genocídio, termo com definição clara no direito internacional, que pressupõe a intenção deliberada de exterminar um povo, o Brasil silencia diante de atrocidades reais.
No Sudão, uma guerra civil devastadora provoca limpeza étnica e estupros sistemáticos, em especial em Darfur, sem que se ouça uma só condenação da diplomacia brasileira.
Em países como Mali, Níger e Burkina Faso, golpes militares instalaram regimes de força, com repressão a opositores e apoio de mercenários estrangeiros, como o grupo Wagner. A Eritreia segue como uma das ditaduras mais opressivas do mundo. Em todos esses casos, o Brasil tem optado pela omissão.
Mais grave ainda é o silêncio conivente diante da brutal repressão de regimes como o do Irã, que enforca dissidentes, persegue mulheres que desafiam normas religiosas, financia o terrorismo internacional e nega o Holocausto. Ou da Venezuela, onde a ditadura de Nicolás Maduro promove prisões políticas, fraude eleitoral e uma crise humanitária que já forçou milhões de pessoas a deixarem o país.
Nenhum desses regimes sofreu do Brasil uma crítica proporcional àquela desferida com insistência contra Israel.
O que se vê é uma aliança informal, mas evidente, entre países que atacam Israel em foros internacionais e possuem em comum uma baixa afinidade com valores democráticos.
A Turquia, que nega o genocídio armênio e reprime brutalmente curdos e opositores, a África do Sul, que vive um colapso institucional e moral, e outros membros do chamado “Sul Global” formam um coro político que usa a causa palestina como bandeira ideológica, mas pouco contribui para a paz ou para a dignidade dos povos envolvidos.
Acusar Israel de genocídio — sem evidências jurídicas robustas — banaliza o conceito, desrespeita vítimas de genocídios verdadeiros e transforma o debate em arma política.
Israel, como qualquer outro Estado, pode e deve ser criticado por ações que afetem civis, sobretudo em contextos de guerra. Mas é inaceitável ignorar que o país está em confronto com um grupo terrorista, o Hamas, que rejeita sua existência e utiliza civis como escudos humanos. É desonesto comparar um Estado democrático, que enfrenta um inimigo declarado e não esconde sua intenção de se defender, com regimes genocidas ou de apartheid. O foco desproporcional sobre Israel revela mais sobre quem o acusa do que sobre o acusado.
O Brasil tem o direito de ter voz no cenário internacional. Mas essa voz só será respeitada se for coerente, firme e moralmente íntegra. O uso seletivo dos direitos humanos, a omissão diante de ditaduras brutais e a adesão a discursos ideológicos contaminados tornam o país cúmplice da hipocrisia global.
O protagonismo do Brasil não deveria se basear em alianças oportunistas, mas na defesa sincera da vida, da liberdade e da dignidade humana em Israel, na Palestina e em todo lugar onde esses valores estiverem ameaçados.
*Claudio Lottenberg é médico oftalmologista e presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil)












