A polêmica por trás da destruição de livros para treinar inteligências artificiais
Como o uso indiscriminado de obras literárias pode impactar nossa memória cultural
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Para que um modelo de inteligência artificial seja realmente bom, a qualidade dos dados de treinamento é essencial. Nesse cenário, os livros representam o material perfeito: eles contêm conhecimento humano estruturado, denso, editado e, de forma crucial, são estruturalmente garantidos como livres do chamado “AI slop” — textos de baixa qualidade gerados por IA que já poluem a internet.
No entanto, o uso desse material tem um custo. No passado recente, as empresas de IA enfrentaram sérios problemas legais ao treinar seus modelos usando bibliotecas digitais piratas, o que resultou em processos bilionários por violação de direitos autorais, como o acordo de US$ 1,5 bilhão que a Anthropic foi forçada a pagar.
Para fugir desses processos, as gigantes da tecnologia encontraram uma brecha jurídica na chamada “doutrina da primeira venda” (em inglês, first-sale doctrine). Essa regra legal estabelece que o comprador de um bem físico pode fazer o que quiser com sua cópia, sem precisar da permissão do detentor dos direitos autorais originais.
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Apoiadas nessa brecha, as empresas passaram a comprar livros físicos em massa e a digitalizá-los de uma forma brutalmente destrutiva: elas usam máquinas de corte hidráulicas para arrancar as lombadas e separar as páginas perfeitamente, escaneiam o conteúdo em equipamentos industriais de alta velocidade e, por fim, descartam e reciclam os originais.
Uma juíza dos Estados Unidos chegou a decidir que esse processo é “transformativo” e protegido por lei, já que os textos físicos são convertidos em dados digitais sem que novas cópias sejam redistribuídas ao público.
O grande problema é como isso pode afetar a nossa memória como sociedade. Para alimentar seus sistemas, laboratórios de IA e empresas terceirizadas estão fazendo pedidos aleatórios e gigantescos de livros baseados apenas em números de ISBN, esvaziando prateleiras que contêm obras obscuras, raras e fora de catálogo.
Ao destruir essas edições escassas, o progresso da IA está apagando exemplares físicos que talvez sejam alguns dos últimos restantes no mundo.
Os próprios livreiros e donos de sebos encontram-se em uma situação paradoxal. Por um lado, as vendas nunca estiveram tão boas. Um pequeno livreiro relatou que passou de vender no máximo 20 livros por semana para vender centenas de uma só vez, ajudando-o financeiramente e limpando seu estoque antigo.
Por outro lado, esse movimento ameaça eliminar boa parte do seu material de trabalho, e muitos se sentem incomodados ao saber que edições incomuns estão sendo transformadas em polpa de papel.
Como diz Caetano Veloso na letra de Sampa, é impossível não observar nessa dinâmica a ação implacável “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”.
O que é o Projeto Panamá e por que ele é polêmico?
O “Projeto Panamá” foi o nome de uma iniciativa secreta conduzida pela Anthropic, a criadora do modelo de IA Claude, focada em comprar e triturar milhões de livros físicos para o treinamento de sua inteligência artificial.
A existência desse projeto veio a público graças a documentos revelados durante um processo judicial de direitos autorais movido por autores contra a empresa.
A polêmica em torno do Projeto Panamá envolve tanto a escala da “digitalização destrutiva” quanto a hipocrisia e a falta de ética da empresa.
Documentos internos revelaram que os executivos da Anthropic sabiam perfeitamente que o público ficaria enojado com a destruição em massa de livros físicos, uma prática que simboliza o medo de que a tecnologia esteja destruindo as artes.
Em um documento de planejamento interno vazado de 2024, um funcionário deixou a preocupação clara, afirmando: “Não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso”.
A revelação do projeto apenas confirmou os piores temores de livreiros e defensores da cultura de que o avanço tecnológico está cobrando um preço irreversível sobre o patrimônio literário.
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