IA na educação é tutor ou atalho? E o que o fogão nos ensina sobre o aprendizado
Entenda o impacto da tecnologia na educação e a importância da paciência no processo de aprendizado
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Se você acompanha as discussões sobre tecnologia, já deve ter percebido que a Inteligência Artificial (IA) virou presença garantida nas mochilas (e celulares) dos estudantes.
Mas, como toda grande inovação, ela traz consigo um dilema: a IA está ajudando nossos jovens a aprender mais ou apenas facilitando o caminho para que estudem menos?
Recentemente, novos estudos trouxeram dados sobre esse impacto e me fizeram refletir sobre uma conversa que tive com um dos grandes pensadores do nosso tempo, Mario Sergio Cortella. A conclusão? O problema pode não estar na tecnologia em si, mas na nossa pressa e na ilusão do imediatismo.
O paradoxo do dever de casa: notas maiores, aprendizado menor?
Dois estudos recentes acendem um alerta importante para pais e educadores. O primeiro deles, conduzido por David Stromberg (Universidade de Estocolmo), Victor Lei e Wu Yanhui (Universidade de Hong Kong), acompanhou 27.000 estudantes de 12 a 18 anos na China, um país onde a adoção da tecnologia é extremamente acelerada.
Os resultados mostram um paradoxo fascinante:
- Adoção massiva: Cerca de 80% dos alunos relataram usar regularmente modelos de IA como Doubao e DeepSeek.
- Ganho de produtividade imediata: Após seis meses de uso, esses alunos viram suas notas nos deveres de casa subir em média 18%.
- Menos tempo de estudo: O tempo médio que gastavam em cada tarefa caiu significativamente, passando de 64 para 45 minutos.
Até aí, parece um cenário perfeito, certo? Mais eficiência e melhores resultados. No entanto, o “balde de água fria” veio na hora da verdade: nos exames presenciais, esses mesmos alunos que usavam a IA tiveram um desempenho 20% inferior em relação aos colegas que estudavam sem o auxílio da tecnologia.
O dever de casa, que antes servia como um termômetro confiável para prever o sucesso nas provas, passou a dar um sinal falso. Como explicar que estudantes com notas excelentes nas tarefas diárias fracassassem tanto nas avaliações?
A hipótese da pressa: o segredo está no tempo e no método
A resposta para esse mistério não é proibir a tecnologia. Os próprios pesquisadores sugerem que o banimento não é o caminho ideal. A chave está em como a ferramenta é utilizada.
Os dados detalhados do estudo revelaram que:
- O problema é a pressa: A queda nas notas de exame concentrou-se de forma muito evidente nos alunos que usaram a IA para apressar suas tarefas.
- Tempo é aprendizado: Aqueles estudantes que utilizaram a IA, mas mantiveram o mesmo tempo dedicado aos estudos que os não usuários, não sofreram penalidades no seu desempenho nas provas.
- Copiar vs. Interagir: Os alunos que mantiveram o bom desempenho usaram a tecnologia de forma inteligente, não como um atalho de “copiar e colar”, mas como um tutor pessoal, buscando explicações para conceitos complexos ou ajuda para entender a resolução de problemas.
Essa visão é reforçada por outro estudo, realizado por Zara Contractor e Germán Reyes, da Middlebury College. Eles observaram que alunos universitários que aprenderam sobre tópicos novos com o suporte de um chatbot obtiveram notas melhores em testes, e essa vantagem competitiva no aprendizado se manteve estável mesmo após uma semana.
Ou seja: a IA tem um potencial gigantesco de aumentar nossa produtividade e capacidade de aprendizado, desde que resistamos à tentação de obter a resposta pronta antes de refletirmos e pensarmos por conta própria.
O conselho de Cortella e a metáfora do fogão
Essa dinâmica me fez lembrar de uma experiência pessoal muito marcante. Anos atrás, assisti a uma palestra do filósofo e educador Mario Sergio Cortella. Ao final, tive a oportunidade de lhe fazer uma pergunta que aflige quase todo pai e mãe moderno: como ensinar paciência às minhas filhas em uma época tão imediatista e acelerada?
Cortella sorriu e me deu um conselho prático e profundo: “Cozinhem juntos.”
Ele me explicou que a cozinha é uma das maiores escolas de paciência que existem. Não adianta tentar apressar o processo de cozimento de um alimento. Se você aumentar o fogo além do necessário para terminar mais rápido, terá apenas dois resultados possíveis: ou uma comida queimada por fora e crua por dentro, ou terá que desligar antes da hora e comer algo frio e intragável. O alimento exige tempo de maturação, calor na medida certa e paciência para atingir o ponto ideal.
O aprendizado é exatamente como o preparo de um bom prato. Ele exige tempo de digestão cognitiva.
Não coma comida crua ou queimada
A Inteligência Artificial é como um superprocessador ou um fogão de indução de última geração em nossa cozinha mental. Ela acelera etapas, corta vegetais mais rápido e aquece a panela em segundos. No entanto, se usarmos essa velocidade apenas para “tirar o prato do fogo” mais rápido (reduzindo nosso tempo de estudo de 64 para 45 minutos apenas para nos livrarmos da tarefa), estaremos consumindo - e entregando ao nosso cérebro - um conhecimento cru.
Quando o estudante usa a IA para simplesmente obter a resposta e fechar o caderno mais rápido, ele queima etapas cruciais:
- A etapa da frustração saudável de não saber e ter que pesquisar;
- A etapa de tentativa e erro que fortalece as conexões sinápticas;
- A etapa da reflexão profunda que transforma informação em memória de longo prazo.
Ao pular essas fases, o resultado nas provas - que exige que você saiba cozinhar sozinho, sem a ferramenta - é os 20% de queda no desempenho.
Como usar a IA sem perder o ponto da comida
Para que a tecnologia seja nossa aliada e não um atalho que nos emburrece, precisamos nos policiar ativamente. Aqui vão algumas dicas práticas para aplicar com nossos filhos e em nossa própria rotina de aprendizado:
- Use a IA como chef assistente, não como o cozinheiro principal: Peça para ela explicar o conceito (“me explique como se eu tivesse 10 anos”), mas faça você mesmo a resolução do problema.
- Monitore o tempo de estudo: Se uma tarefa levava uma hora, usar a IA não deveria significar terminar em 15 minutos e ir jogar videogame. Use o tempo restante para aprofundar, fazer perguntas difíceis à IA ou revisar o conteúdo.
- Pense antes de perguntar: Tente resolver o problema sozinho por pelo menos 5 ou 10 minutos antes de recorrer ao chatbot. O esforço prévio prepara o cérebro para fixar a resposta que a IA fornecerá.
A IA veio para ficar, e ela pode ser um tutor brilhante. Mas o cérebro humano ainda funciona no modo “slow food”. O aprendizado real exige paciência, tempo e dedicação. Não deixe que a aceleração tecnológica te entregue uma comida fria, queimada ou crua.
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