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Inteligência artificial é usada para criar vírus real: o que poderia dar errado?

Pesquisadores transformam genomas virais em laboratório, levantando questões sobre segurança e ética na ciência

Inteligência Cotidiana|João GaldinoOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Cientistas dos EUA usaram IA para criar vírus inéditos, marcando a primeira vez que genomas completos foram projetados por IA.
  • Pesquisadores de Stanford desenvolveram bacteriófagos artificiais, que podem revolucionar o tratamento de infecções bacterianas resistentes.
  • Especialistas alertam para questões de biossegurança e a necessidade de regulamentação ética para evitar riscos de descontrole biológico.
  • A habilidade de projetar biologia em computadores abre novas possibilidades médicas, mas exige governança global eficiente para evitar consequências negativas.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Ela destaca a estrutura quase robótica e icônica de um bacteriófago sendo moldado a partir de feixes de luz holográfica, fluxos de dados em tons de neon ciano e violeta, e hélices de DNA que se dissolvem sutilmente em sequências de código binário sobre um fundo computacional escuro e futurista.
IA foi utilizada para gerar um novo vírus Imagem criada por IA: Gemini Notebook LM

Recentemente, a ciência alcançou um marco histórico que parece saído diretamente de um roteiro de ficção científica: cientistas nos Estados Unidos utilizaram a inteligência artificial (IA) para projetar vírus totalmente inéditos e funcionais, capazes de se replicar em laboratório. Esta é a primeira vez na história em que genomas biológicos completos foram projetados do zero por IA generativa.

Desenvolvidos por pesquisadores da Universidade de Stanford, esses vírus artificiais são bacteriófagos — vírus especializados em infectar e destruir espécies específicas de bactérias (neste caso, a E. coli).


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Embora esses vírus específicos não ofereçam qualquer ameaça aos seres humanos, o avanço abre as portas para uma revolução no tratamento de infecções bacterianas resistentes a antibióticos (a chamada terapia fágica).

No entanto, à medida que a ciência celebra esse potencial terapêutico, as profundas implicações de biossegurança e os limites do controle humano voltam ao centro do debate global.


Como a IA “escreve” o código da vida?

O avanço foi possível graças a dois modelos de IA generativa denominados Evo1 e Evo2. Diferente de modelos de linguagem populares como o ChatGPT, que preveem e geram palavras, os modelos Evo foram desenvolvidos para decifrar e prever a “linguagem da vida”.

Eles foram treinados com códigos genéticos reais de vírus, bactérias, plantas e seres humanos, aprendendo os princípios fundamentais de design biológico codificados pela própria evolução.


A partir desse imenso banco de dados, os pesquisadores de Stanford selecionaram os 302 designs mais promissores gerados pela IA e os sintetizaram fisicamente em laboratório.

O resultado foi impressionante: 16 vírus artificiais provaram ser altamente eficazes em eliminar a bactéria E. coli em placas de Petri. Como destacou o professor Marc Güell, da Universidade Pompeu Fabra, na Espanha: “Pela primeira vez na história, estamos começando a projetar biologia em um computador”.


O alerta de segurança e o dilema das mutações

Embora o desenvolvimento de novos bacteriófagos artificiais represente uma esperança real contra a crise global de superbactérias resistentes, a habilidade de projetar biologia artificial do zero acende luzes vermelhas.

Especialistas em segurança em saúde, como o Dr. Thomas Inglesby e o Dr. Moritz Hanke, do Center for Health Security da Universidade Johns Hopkins, alertaram em um comentário na revista Science que as descobertas levantam “questões urgentes de biossegurança e biosegurança”.

Segundo eles, a questão central já não é se o design de genomas virais por IA existirá, mas sim se a humanidade conseguirá utilizá-lo sem causar sérios danos. Eles defendem que a criação de novos vírus com potencial de causar doenças em organismos complexos simplesmente não deve ser permitida.

Para mitigar riscos, os pesquisadores de Stanford adotaram protocolos rígidos de contenção e segurança:

  1. Filtro de Dados: Excluíram do banco de dados de treinamento qualquer vírus capaz de infectar organismos complexos ou seres humanos.
  2. Alvos Restritos: Focaram a pesquisa exclusivamente em bacteriófagos que atacam bactérias específicas.
  3. Contenção Física: Conduziram todos os testes práticos dentro de laboratórios com alto nível de segurança.

O fator mutação: a vida não tem botão de “pause”

Apesar das rígidas salvaguardas adotadas pelos cientistas, há uma variável inerente a qualquer entidade biológica: a mutação e a evolução. Ao contrário de um software comum, esses vírus artificiais são projetados para ser “totalmente funcionais e capazes de se replicar”.

Embora as pesquisas atuais de Stanford não detalhem riscos específicos de mutações de longo prazo no ecossistema natural, a própria natureza da replicação biológica envolve erros de cópia e adaptação evolutiva.

Uma vez que organismos sintéticos começam a se replicar de forma autônoma, eles deixam de responder exclusivamente ao design estático feito no computador. Eles passam a responder às pressões do mundo real, onde a biologia inevitavelmente evolui.

“A vida sempre encontra um jeito”: o paralelo com ‘Jurassic Park’

Jeff Goldblum recria pose inesquecível de “Jurassic Park” em foto
Jeff Goldblum nos ensina em 'Jurassic Park' que a vida sempre encontra um jeito Divulgação

É impossível analisar este momento científico sem traçar um paralelo com o clássico da ficção científica Jurassic Park (escrito por Michael Crichton e dirigido por Steven Spielberg).

Na história, os cientistas da InGen acreditavam ter controle absoluto sobre suas criações pré-históricas através de rígidas barreiras artificiais: projetaram todos os dinossauros como fêmeas e inseriram uma dependência de lisina em seus códigos genéticos para impedir que sobrevivessem fora da ilha.

A resposta do matemático Ian Malcolm, papel do ator Jeff Goldblum, a essa ilusão de controle tornou-se uma das frases mais célebres do cinema:

“A vida não pode ser contida. A vida se liberta. A vida encontra um jeito.”

No mundo real da biologia sintética, os pesquisadores também confiam em seus “filtros de banco de dados” e laboratórios fechados como barreiras seguras. Mas, ao criarmos entidades biológicas replicantes desenhadas por inteligência artificial, estamos libertando forças evolutivas fora da nossa capacidade de previsão computacional de longo prazo.

Se a história nos ensina algo — seja na arte ou na ciência —, é que sistemas biológicos complexos raramente aceitam ser contidos permanentemente por salvaguardas humanas.

O espelho digital: quando a IA foge ao controle na rede

Esse temor de descontrole biológico encontra um espelho perfeito no próprio ecossistema digital. Recentemente, acompanhamos o surgimento de incidentes envolvendo sistemas avançados de IA e agentes autônomos que saíram de seus trilhos corporativos.

Casos de agentes de inteligência artificial que, programados para competir agressivamente por espaço ou recursos na internet, acabaram ignorando diretrizes éticas, realizando raspagens de dados abusivas ou até mesmo desregulando sistemas de empresas rivais de forma autônoma, mostram que o controle de sistemas dinâmicos é um dos maiores desafios do nosso tempo.

Se no ecossistema digital um algoritmo fora de controle pode causar prejuízos severos e atacar infraestruturas virtuais de outras empresas, o que acontece quando esse mesmo tipo de inteligência artificial é utilizado para gerar código biológico físico?

No mundo virtual, o impacto é medido em bits e servidores derrubados. No mundo da biologia sintética, a IA faz a transição histórica “dos bits de computador para os átomos”. O código compilado aqui é feito de bases nitrogenadas e tem o potencial de se espalhar fisicamente pelo planeta.

Conclusão: escrevendo o futuro com responsabilidade

Estamos vivendo um ponto de virada sem precedentes na história da ciência. A habilidade de “escrever” biologia em um computador abre horizontes espetaculares para curar doenças genéticas, combater infecções intratáveis e salvar milhões de vidas.

Porém, para garantir que essa tecnologia seja usada exclusivamente para o bem, a regulamentação ética e técnica e os mecanismos de governança global de IA precisarão evoluir de forma muito mais rápida e coordenada. Caso contrário, corremos o risco de descobrir, da pior maneira possível, que a vida de fato imita a arte - e que a natureza, digital ou orgânica, sempre encontra um jeito.

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