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Inteligência Cotidiana

Saiba como a IA e a computação quântica estão transformando o futuro da proteção de dados

Como a evolução tecnológica pode reconfigurar a proteção de nossos dados pessoais

Inteligência Cotidiana|João GaldinoOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A computação quântica ameaça a criptografia atual, podendo quebrar sistemas de segurança digital em poucas horas.
  • O "Q-Day" é o dia previsto em que computadores quânticos poderão quebrar criptografias atuais, estimado para ocorrer entre 10 a 25 anos.
  • O conceito "Colha Agora, Descriptografe Depois" envolve a coleta de dados criptografados agora para descriptografia futura com computadores quânticos.
  • A inteligência artificial, como o Claude Mythos, ajuda a identificar falhas em algoritmos de criptografia, preparando-nos para uma transição segura para a Criptografia Pós-Quântica.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O Centro: Um grande cadeado abstrato em 3D, simbolizando as difíceis barreiras matemáticas (como as grades do algoritmo HAWK).
O Lado Esquerdo (Defesa): Feixes digitais em tons frios de azul e verde esmeralda se tecem para reforçar um escudo protetor (a IA ajudando a construir protocolos melhores).
O Lado Direito (Desafio): Linhas de luz quentes em tons de laranja e âmbar escaneiam e desmontam delicadamente um fio do algoritmo (a IA analisando e identificando vulnerabilidades).
IA e computação quântica desafiam futuro da segurança digital Imagem criada por Inteligência artificial - gemini notebook lm

Imagine as seguintes cenas cotidianas saindo totalmente de controle: você envia um e-mail confidencial para seu advogado e ele vai parar, em texto aberto, no grupo de trabalho da sua empresa.

Você decide fazer um Pix para pagar o aluguel, mas a transação é interceptada por um impostor invisível que desvia o dinheiro e altera o comprovante, sem que o banco consiga identificar quem realmente enviou ou recebeu os valores.


Ou pior: você está andando na rua, ouvindo uma música em seus fones de ouvido Bluetooth, e percebe que alguém ao seu lado sabe exatamente cada faixa que você reproduz, invadindo sua privacidade.

Quando a criptografia — a tecnologia invisível que protege nossos dados — falha, a confiança que mantém o mundo moderno funcionando simplesmente desmorona.


Se você acha que a segurança digital é assunto exclusivo de programadores e hackers de filme, pense de novo. Ela está presente em praticamente tudo o que fazemos digitalmente hoje em dia.

Quando você envia uma mensagem de bom dia no grupo de WhatsApp da sua família, ela é protegida por uma “criptografia de ponta a ponta”, garantindo que ninguém no caminho consiga bisbilhotar.


O mesmo vale para quando você confere seu saldo no banco, navega em um site de compras com o cadeado de segurança ativado, assiste à TV digital, usa o Wi-Fi da cafeteria ou conecta seu celular ao Bluetooth do carro.

A criptografia é o cofre matemático que garante que suas conversas, suas fotos e seu dinheiro fiquem exatamente onde devem ficar.


O desafio quântico: mudando o jogo da criptografia atual

Toda a nossa segurança na internet hoje é baseada em desafios matemáticos extremamente difíceis de resolver.

Por exemplo, o sistema que protege as contas bancárias (conhecido como criptografia assimétrica ou de chave pública) se apoia no fato de que é muito fácil para um computador multiplicar dois números primos gigantescos, mas quase impossível para um computador comum fazer o caminho inverso — ou seja, pegar o resultado gigante e descobrir quais foram os dois números primos originais que o geraram.

Um computador tradicional levaria milhares de anos tentando adivinhar essa combinação por meio de força bruta.

É aqui que entra a computação quântica. Diferente dos computadores normais (que processam dados em “bits” que só podem ser 0 ou 1), os computadores quânticos usam “qubits”.

Devido às leis da física quântica, eles conseguem realizar cálculos massivos em paralelo, de uma forma que os computadores clássicos nem sonham em fazer.

Para a criptografia atual, isso é uma ameaça existencial. Usando uma fórmula matemática famosa chamada Algoritmo de Shor, um computador quântico de grande porte conseguirá resolver esses problemas de fatoração de números primos gigantescos em questão de poucas horas ou minutos.

A comunidade de segurança chama o dia em que um computador quântico de escala relevante conseguirá quebrar a criptografia atual de “Q-Day”.

As previsões do mercado sobre quando esse dia chegará variam bastante: estimativas mais otimistas apontam para algo entre 10 e 15 anos, enquanto visões mais conservadoras falam de 15 a 25 anos.

No entanto, gigantes de tecnologia já definiram metas internas rígidas (como migrar sua própria infraestrutura até 2029) porque sabem que o tempo de preparação é longo.

O “bug do ano 2000” do século XXI

Você deve estar se perguntando: “Se o computador quântico ainda vai demorar anos para existir, por que eu deveria me preocupar com isso hoje?”

A resposta está em uma estratégia silenciosa usada por espionagem cibernética: o “Colha agora, decifre depois” (do inglês Harvest Now, Decrypt Later). Agências de inteligência e criminosos já estão interceptando e guardando toneladas de dados criptografados que circulam pela internet hoje (como transações financeiras, segredos comerciais e comunicações governamentais).

Eles não conseguem ler esses dados agora, mas estão apenas esperando o Q-Day chegar para colocá-los em um computador quântico e abrir todos esses segredos históricos de uma vez só.

Para evitar esse desastre, precisamos migrar toda a infraestrutura da internet para novos padrões de criptografia, conhecidos como Criptografia Pós-Quântica (PQC).

São algoritmos baseados em problemas de geometria multidimensional (chamados de reticulados) que os computadores quânticos não conseguem resolver de forma eficiente.

Essa transição gigante lembra muito o famoso Bug do Ano 2000 (ou Bug do Milênio). Na época, havia um temor generalizado de que os computadores travariam na virada de ano, desligando serviços públicos e paralisando bancos. No entanto, quando a meia-noite chegou, quase nada aconteceu. Por quê?

Porque equipes de engenharia ao redor do mundo passaram anos revisando códigos e atualizando sistemas preventivamente. O sucesso do Bug do Milênio foi justamente o fato de ele ter sido um “não-evento” de baixo impacto graças ao planejamento prévio.

A transição para a criptografia pós-quântica exige o mesmo nível de esforço e urgência para que o Q-Day seja apenas mais uma virada de ano tranquila.

A descoberta do Claude Mythos: um alerta no caminho

É nesse cenário de preparação para o futuro pós-quântico que uma inteligência artificial entrou para a história da criptografia.

Recentemente, a Anthropic revelou os resultados de testes realizados com o Claude Mythos Preview, um modelo de IA extremamente avançado e de acesso restrito a parceiros de segurança e agências governamentais.

Os pesquisadores decidiram colocar o Claude Mythos para analisar o HAWK, um dos algoritmos que estava na fase final de avaliação pelo NIST (o órgão do governo americano responsável por definir os novos padrões globais de criptografia pós-quântica).

O HAWK vinha sendo revisado por especialistas em matemática do mundo inteiro há cerca de dois anos e era muito elogiado por ser extremamente rápido e compacto.

Mas, trabalhando em um ambiente simulado de testes por cerca de 60 horas (e com um custo de processamento de aproximadamente US$ 100.000), o Claude Mythos descobriu uma fraqueza matemática oculta na estrutura do algoritmo.

Ele encontrou uma simetria geométrica que ninguém havia percebido antes. Com esse “atalho quântico clássico”, o Claude Mythos conseguiu reduzir o nível de segurança do HAWK pela metade.

Para se ter uma ideia, uma versão de teste do HAWK, que deveria exigir trilhões de tentativas para ser quebrada, foi resolvida pela IA em apenas 3 horas e 42 minutos em um servidor comum.

Diante dessa revelação avassaladora, a própria equipe de criadores do HAWK confirmou a descoberta e retirou voluntariamente o algoritmo da competição de padrões globais. Afinal, para corrigir a falha, eles teriam que dobrar o tamanho das chaves de segurança, o que destruiria o grande diferencial do HAWK, que era ser leve e compacto.

(Nota de tranquilidade: Seus aplicativos e bancos continuam totalmente seguros! O HAWK era apenas um candidato em fase de testes e nunca chegou a ser usado no mundo real. Padrões já aprovados pelo NIST, como o ML-KEM e o ML-DSA, continuam firmes e intocados).

Os dois lados da moeda da IA na segurança digital

O caso do Claude Mythos escancara um dilema profundo que define a era da Inteligência Artificial: o duplo uso da tecnologia. Ela é, ao mesmo tempo, o guardião mais eficiente e o invasor mais perigoso.

O lado negativo: o risco de ataques em larga escala

Se um modelo de IA consegue destrinchar e quebrar a matemática complexa de um algoritmo de ponta em apenas 60 horas, isso significa que grupos cibercriminosos ou governos hostis podem, eventualmente, usar tecnologias semelhantes para automatizar a descoberta de falhas estruturais em sistemas de produção que usamos hoje.

A criptoanálise, que antes exigia décadas de dedicação de matemáticos brilhantes, agora pode ser acelerada exponencialmente por máquinas que não se cansam e trabalham ininterruptamente.

O lado positivo: blindagem preventiva e robustez

Por outro lado, o fato de a Anthropic ter conduzido essa pesquisa em ambiente controlado e sob políticas de divulgação responsável (avisando os criadores do HAWK e o NIST em segredo antes de publicar o resultado) mostra o poder da IA como uma ferramenta de defesa sem precedentes.

A IA funciona como um “testador de estresse” supremo. Ela nos permite caçar e corrigir falhas lógicas e fraquezas matemáticas nos novos algoritmos pós-quânticos antes que eles sejam adotados de forma definitiva e distribuídos para bilhões de celulares e servidores corporativos.

É muito melhor descobrir que um cofre tem uma fechadura fraca enquanto ele ainda está na fábrica do que depois que ele já guarda as joias de toda a população mundial.

O futuro é ágil

A grande lição que o Claude Mythos nos deixa é que não existe “segurança matemática absoluta” de longo prazo. Algoritmos que parecem inquebráveis hoje podem se tornar obsoletos amanhã diante de um novo atalho lógico descoberto por uma IA ou por um computador quântico.

Por isso, o foco do mundo da tecnologia agora é a Agilidade Criptográfica (ou Crypto-Agility). Os sistemas do futuro precisam ser projetados de forma flexível: se um algoritmo quebrar ou for enfraquecida, devemos ser capazes de substituí-lo rapidamente por uma nova configuração, de forma automática e transparente, sem precisar reescrever softwares inteiros ou paralisar serviços essenciais.

Ao usarmos a IA para desafiar nossos próprios limites e testar nossas defesas matemáticas, estamos construindo uma internet genuinamente resiliente. O Claude Mythos não quebrou a internet; ele nos deu o mapa para construirmos uma segurança digital muito mais forte para as próximas gerações.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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